A compra da natureza por Wall Street: um projeto da Fundação Rockefeller sob o pretexto de “promover a sustentabilidade”

Um projeto do sistema de bancos internacionais de crédito, a Fundação Rockefeller e a Bolsa de Valores de Nova Iorque (Wall Street) criaram recentemente uma nova classe de ativos financeiros que colocara, não apenas o mundo natural, como também os processos que sustentam toda a vida, a venda sob o pretexto de promover a “sustentabilidade”.

Em setembro de 2021, a Bolsa de Valores de Nova Iorque (NYSE) anunciou o desenvolvimento de uma nova classe de ativos destinados a “preservar e restaurar os ativos naturais que, em última instância, sustentam a capacidade para que exista vida na Terra”

Denominadas “empresas de ativos naturais” o NAC (Natural Asset Company, em inglês) permitirão a formação de corporações especializadas que “possuíam os direitos sobre os serviços dos ecossistemas produzidos em uma determinada porção de terra, serviços como o sequestro de carbono ou água potável”.

Estas NAC manterão, administrarão e farão crescer os ativos naturais que comercializarão com o objetivo de maximizar os aspectos desse ativo natural que a empresa considera rentável.

Apesar de descrever-se como “qualquer outra entidade” na NYSE, se alega que as NAC “usarão os fundos para ajudar a preservar uma selva tropical ou empreender outros esforços de conservação, como mudar as práticas de produção agrícola convencionais em fazendas”. Porém, como se explica no final deste artigo, até mesmo os criadores da NAC admitem que o objetivo final é extrair lucros quase infinitos dos processos naturais que buscam quantificar e posteriormente monetizar.

O diretor de operações da NYSE, Michael Blaugrund, aludiu a isto quando disse o seguinte em respeito ao lançamento da NAC: “Nossa esperança é que ser proprietário de uma empresa de ativos naturais seja uma forma em que uma gama cada vez mais ampla de investidores tenha a capacidade de investir em algo que seja intrinsecamente valioso, mas, até esse ponto estava realmente excluído dos mercados financeiros”.

Enquadrados com a nobre retórica de “sustentabilidade” e “conservação”. Os informes sobre o movimento em meios como Fortune não conseguiram evitar apontar que as NAC abrem as portas para “uma nova forma de investimento sustentável” que “tem cativado ao diretor executivo da BlackRock, Larry Fink, apesar de que ainda existam grandes perguntas sem resposta em respeito a isso”. Fink, um dos oligarcas financeiros mais poderosos do mundo, é e tem sido há muito tempo um criminoso corporativo, não um ambientalista, e seu entusiasmo pelas NAC deveria fazer que até mesmo seus mais entusiastas defensores parem pra pensar se esse esforço realmente se tratava de promover a conservação ambiental, como se afirma.

Como criar uma NAC

A criação e lançamento de uma NAC tem sido desenvolvida durante os anos e a NYSE se reuniu com o Intrinsic Exchange Group (IEG). Em que a própria NYSE tem uma participação minoritária. Os três investidores da IEG são do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a filial do sistema bancário multilateral de desenvolvimento focada na América Latina que impõe agendas neoliberais e neocolonialistas por meio da armadilha da dívida; a Fundação Rockefeller, a fundação da dinastia oligarca estadunidense tem sido estreitamente vinculada durante muito tempo com Wall Street; e Aberdare Ventures, uma empresa de capital de risco focada principalmente no espaço da saúde digital. Em particular, o BID e a Fundação Rockefeller estão estreitamente vinculados aos impulsos relacionados com as moedas digitais do banco central (CBDC) e as identificações digitais biométricas.

A missão do IEG foca em “ser pioneiros em uma nova classe de ativos baseada em ativos naturais e o mecanismo para convertê-los em capital financeiros”. “Estes ativos” afirma IEG, fazem que “a vida na terra seja possível e agradável… incluem sistemas biológicos que proporcionam ar limpo, água, alimentos, medicinas, um clima estável, saúde humana e potencial social”.

Dito de outra maneira, as NAC não apenas permitirão que os ecossistemas se convertam em ativos financeiros, como também os direitos aos serviços dos ecossistemas ou os benefícios que as pessoas recebem da natureza. Estes incluem produção de alimentos, turismo, água potável, biodiversidade, polinização, sequestro de carbono e muito mais.

Atualmente a IEG está se associando com o governo da Costa Rica para colocar à prova seus esforços das NAC dentro desse país. A ministra de Ambiente e Energia da Costa Rica, Andrea Meza Murillo, assegurou que o projeto piloto com a IEG “aprofundará a análise econômica de dar a natureza seu valor econômico, assim como continuar mobilizando fluxos financeiros para a conservação do meio ambiente”.

Com as NAC, NYSE e IEG agora estão colocando à venda a totalidade da natureza. Se bem afirmam que fazer isto “transformará nossa economia em uma mais equitativa, resiliente e sustentável” está claro que os próximos “proprietários” da natureza e os processos naturais serão os únicos beneficiados reais.

Segundo a IEG, as NAC começam com uma identificação de um ativo natural, como uma floresta ou um lago, que logo se quantifica mediante protocolos específicos. Tais protocolos já foram desenvolvidos por grupos relacionados como Capitals Coalition, estes associados com vários sócios da IEG, assim como o Fórum Econômico Mundial e várias outras coalizões de corporações multinacionais. Logo, se cria uma NAC e a estrutura da empresa decide quem tem os direitos sobre a produtividade deste ativo natural, assim como os direitos para decidir como se administra e governa esse ativo natural. Por último, uma NAC se converte em capital financeiro mediante o lançamento de uma oferta pública inicial em uma bolsa de valores, como a NYSE. Esta última etapa “gera capital para administrar o ativo natural” e a flutuação de seu preço na bolsa “sinaliza o valor de seu capital natural”.

Porém, a NAC e seus funcionários, diretores e proprietários não são necessariamente os proprietários do ativo natural em si depois deste passo final, Em vez de, como aponta a IEG, a NAC é simplesmente o emissor, enquanto que os compradores potenciais do ativo natural que representa a NAC poderão incluir: investidores institucionais, corporações, fundos soberanos e bancos multilaterais de desenvolvimento. Portanto as empresas de administração de ativos que essencialmente já possuem grande parte do mundo, como Blackrock, poderiam tornar-se proprietárias de processos naturais, recursos naturais, e os próprios cimentos da vida natural que em pouco tempo se monetizar. 

Tanto a NYSE como IEG tem comercializado este novo veículo de investimento com o objetivo de gerar fundos que se destinarão aos esforços de conservação e sustentabilidade, no entanto, no site da IEG, se assinala que o objetivo é um benefício realmente infinito dos processos naturais e os ecossistemas que anteriormente se consideravam parte dos “bens comuns”, ou seja, os recursos culturais e naturais acessíveis a todos os membros de uma sociedade, incluindo os naturais e materiais como o ar e uma terra habitável.

Segundo a IEG, “À medida que prospera o ativo natural, proporcionando um fluxo constante ou crescente de serviços dos ecossistemas, o capital da empresa deveria valorizar em consequência proporcionando retornos de investimento. Os acionistas e investidores da empresa através de ofertas secundárias, podem obter benefícios por meio da venda de ações. Estas vendas se podem medir para refletir o aumento no valor de capital das ações, aproximadamente alinhadas com a sua rentabilidade, criando um fluxo de caixa baseado na saúde da empresa e seus ativos”.

O investigador e jornalista Cory Morningstar tem estado em total desacordo com o foco adotado pela NYSE/IEG e vê a NAC como um sistema que irá exacerbar a depredação corporativa da natureza, apesar das afirmações em contrário. Morningstar descreveu as NAC como “Rockefeller e outros deixando que os mercados ditem o que na natureza tem valor ou não. Porém, as instituições capitalistas e as finanças globais não deveriam dizer qual vida tem valor, Os ecossistemas não são ‘ativos’. As comunidades biológicas existem para seus próprios fins, não para os nossos”.

Uma nova forma de saquear

O objetivo final das NAC não é a sustentabilidade ou conservação, e sim a financeirização da natureza, ou seja, converter a natureza em uma mercadoria que se possa utilizar para manter no auge a atual e corrupta econômica de Wall Street baixo o pretexto de proteger o meio ambiente e prevenir sua degradação. De fato, IEG deixou isto claro quando sinalizou que a “a oportunidade” das NAC não se encontra em seu potencial para melhorar o bem estar ou a sustentabilidade ambiental, mas sim no tamanho desta nova classe de ativo, que denominam “Economia da natureza”.

De fato, enquanto as classes de ativos da economia atual têm um valor de aproximadamente US$ 512 Trilhões, as classes de ativos desbloqueadas pelas NAC são significativamente maiores que US$ 4000 Trilhões.

Portanto, as NAC abrem um novo campo de renda para os bancos e instituições financeiras depredadoras de Wall Street que lhes permitirão não apenas dominar a economia humana como todo o mundo natural. No mundo em que estas e outras entidades relacionadas estão construindo atualmente, onde inclusive a liberdade está sendo reestruturada não como um direito, mas sim como um “serviço” os processos naturais dos quais depende a vida estão sendo reestruturados de maneira similar como ativos, que terão donos. Em última instância, estes “proprietários” terão direito, neste sistema, a ditar quem tem acesso a água potável, ar limpo, a própria natureza e a qual preço.

Segundo Cory Morningstar, um dos outros objetivos de criar uma “economia da natureza” é empacotar a mesma ordenadamente para Wall Street através das NAC é avançar drasticamente nos esforços massivos de apropriação de terra realizados por Wall Street e a classe oligárquica nos últimos anos. isto inclui as recentes apropriações de terras realizadas por empresas do Wall Street, assim como por “filantropos” bilionários como Bill Gates durante a crise do COVID. No entanto, a acumulação de terras facilitadas por meio do desenvolvimento de NAC focará em grande medida a comunidades indígenas dos países em desenvolvimento.

Como aponta Morningstar:

O lançamento público das NAC precedeu estrategicamente a décima quinta reunião da Conferência Das Partes do Convênio sobre a Diversidade Biológica, a maior conferência sobre biodiversidade em uma década. Com o pretexto de converter 30% do mundo em “áreas protegidas”, está em andamento a maior apropriação de terras da história”

IEG, ao discutir as NAC, assinala de maneira reveladora que a renda da OPI (Oferta Pública Inicial) de uma NAC possa ser utilizada para aquisição de mais terrenos por parte de entidades controladoras ou para impulsionar os pressupostos ou fundos de quem recebem o capital da OPI. Isso está muito longe do argumento de venda da NYSE/IEG de que as NAC são “diferentes” porque suas OPIs se utilizarão para “preservar e proteger” áreas naturais.O pânico pela mudança climática que agora está aumentando para substituir o pânico pelo COVID-19 seguramente se utilizará para comercializar de maneira inteligente as NAC e táticas similares segundo seja necessário para “salvar o planeta”, mas, tenha a segurança, de que as NAC não são um movimento para salvar o planeta, mas sim um movimento para permitir que os mesmos interesses responsáveis pelas crises ambientais atuais marquem o começo de uma nova era na qual a sua exploração depredadora alcance novas alturas que antes eram inimagináveis.

Whitney Webb

Escrita e pesquisadora para a Unlimited Hangout e a The Last American Vagabond.

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