Fracasso Militar da França no Mali: Seria esse o fim da “Françáfrica”?

A pressão contra as tropas francesas no Mali, presentes no país desde 2012, aumenta e Macron decidiu bater em retirada. No lugar das tropas francesas, o governo do Mali quer o Grupo Wagner, de origem russa, um apoio concreto no combate ao terrorismo sem a consequência da subjugação econômica. Na prática, a Françáfrica é uma estrutura de exploração da burguesia cosmopolita francesa em aliança com a burguesia compradora africana. Nem a França, nem a África se beneficiam dessa relação. Seria a expulsão das tropas francesas do Mali o início do fim desse esquema de dominação?

Mali, uma antiga colônia, está mostrando uma clara tendência de diminuição dos laços com a França. Vários oficiais franceses visitaram a capital, Bamako, para exortar os africanos a não destacar o contingente de 1.000 especialistas militares russos do Grupo Wagner. Como disse a Ministra da Defesa Florence Parly, “não podemos conviver com mercenários”[1].

A derrota em Mali

Alguns dias antes, os líderes de Mali haviam deixado claro que não queriam ver um contingente militar francês no país. Como disse o primeiro-ministro malinês Choguel Kokalla Maïga:

“Somos obrigados hoje a nos perguntar, se da mesma forma que os parceiros decidiram deixar certas localidades, se decidirem partir amanhã, o que faremos? Somos obrigados a nos perguntar se não deveríamos ter um plano B. Especialmente porque já vimos países que permitiram a entrada de tropas e depois as pessoas se encontraram sozinhas. O Mali é livre para cooperar com todos os países com os quais possui acordos”, acrescentou ele.

As tropas francesas estão presentes no Mali desde 2013. O objetivo oficial é o combate ao terrorismo. Na realidade, Mali e toda a região do Sahel se tornaram uma espécie de Afeganistão para a França: uma guerra contra o terrorismo sem fim à vista. Esta guerra está drenando o dinheiro e os recursos da França e está destruindo cada vez mais a imagem da França no mundo – assim como a guerra sem fim no Afeganistão destruiu a imagem dos EUA como superpotência.

Em junho, Emmanuel Macron anunciou que a França reduziria sua presença no Mali e no Sahel. Thierry Vircoulon, especialista em África do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI), disse em uma entrevista que “é uma derrota, isso é claro, e a lição para a França é não se envolver em guerras que não se pode vencer”[3].

Há, no entanto, outra visão: que ao reduzir o número de suas tropas, Paris procurou pressionar o governo militar recalcitrante de Mali. Há um ano, os militares malineses destituíram o presidente Ibrahim Boubacar Keita, que tinha laços estreitos com os interesses empresariais franceses. Como resultado, os malineses recorreram à ajuda dos russos. A tentativa de Macron de chantagear seus parceiros foi um golpe humilhante – seus parceiros mostraram que poderiam passar sem seus serviços.

Um Afeganistão francês ou um Iraque francês?

A situação no Mali, as tentativas fracassadas de lidar com o jihadismo na África como um todo, são uma derrota não apenas para Macron, mas para toda a política francesa anterior na África, pelo menos desde François Hollande e talvez até mesmo antes. A crise de segurança em Mali não teria acontecido se Nicolas Sarkozy não tivesse ajudado a derrubar o líder líbio Muammar Gaddafi em 2011. Como resultado, algumas milícias tuaregues leais a Gaddafi foram expulsas da Líbia. Os grupos armados se estabeleceram no Níger e no norte de Mali, onde se tornaram a principal força do movimento separatista local. Junto com os islamistas, os tuaregues tomaram o controle da parte norte do país. Seguiu-se o destacamento de tropas francesas. Os militantes e os terroristas foram derrotados, mas a guerra de guerrilha continuou por vários anos.

Os erros da França na África são quase idênticos aos dos EUA e da Grã-Bretanha no Oriente Médio e no Afeganistão. Em ambos os casos, as forças ocidentais derrotaram o inimigo bastante rapidamente em batalhas abertas, mas ficaram atolados na guerra de guerrilha. Em ambos os casos, o resultado das invasões foi o colapso de estruturas estatais mais ou menos estáveis. Na Líbia, com a morte de Gaddafi, o Estado como tal desapareceu. Em Mali, as pessoas dizem que a situação é muito pior do que antes da invasão: os terroristas estão ativos não apenas no norte, mas também no centro do país, e os ataques terroristas acontecem perto da capital, Bamako.

Além das comparações entre Mali e Afeganistão, existem na verdade muitas semelhanças entre o jihadismo malinês e o fenômeno “Daesh”. No Iraque, a invasão americana levou à integração de ex-oficiais do regime de Saddam e de islamistas no Daesh. No Sahel, após a intervenção franco-britânica na Líbia, os oficiais tuaregues de Gaddafi uniram forças com os islamistas radicais.

Iyad Ag Ghaly é um líder islâmico em Mali que lutou nas fileiras de Gaddafi e trabalhou como oficial da inteligência líbia na França. Um político inteligente e sofisticado, o ex-embaixador malinês na Arábia Saudita fundou o grupo terrorista Ansar Dine em 2012, e em 2017 tornou-se o líder do Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos, uma associação de islamistas malineses leais à Al-Qaeda. Após a eliminação do líder do Daesh, Adnan Abu Walid al-Sahrawi, pelas forças francesas no Mali, Iyad ag Ghaly se tornou o principal líder islâmico no Mali.

A intervenção na Líbia foi o gatilho para mudanças radicais na região, o surgimento de uma insurgência jihadista apoiada em parte por líderes educados e treinados politicamente. Líderes para os quais o jihadismo era a única maneira de consolidar seu status na sociedade. A mesma coisa aconteceu no Iraque.

Este paralelismo demonstra um problema sério. Como o governo da República Francesa pode pensar seriamente em manter sua esfera de influência na África se sua tática e estratégia replicam as táticas e estratégias fracassadas dos Estados Unidos? Além disso, qual foi o objetivo do envolvimento da França na mudança de regime na Líbia? Uma intervenção que derrubou todo o frágil sistema de segurança no Norte da África e no Sahel. Os EUA estão separados pelo oceano das regiões onde suas políticas falharam e levaram ao aumento da ameaça islamista. No caso da França, é o Mar Mediterrâneo, que os imigrantes ilegais conseguem atravessar de barco.

Neocolonialismo: contra a África e contra a França

Quais são os verdadeiros objetivos da presença francesa em Mali? Os próprios malineses acreditam que os franceses estão tentando tirar ouro e urânio deles – enfraquecendo o Estado e explorando depósitos ilegais sob o pretexto do conflito. Estes rumores podem ser exagerados ou simplesmente incorretos. No entanto, eles nos falam sobre a imagem da França na África. A mesma acusação é repetida pelos líderes islâmicos. Assim, segundo Iyad Ag Ghaly[4], Paris está tentando colonizar Mali para saquear sua riqueza: ouro, cobre e urânio.

Os dissidentes islâmicos também se opõem à França. Em 16 de setembro, outro comício foi realizado em Mali a favor da retirada das tropas francesas e da introdução dos russos.

“Se Wagner foi libertar a Síria, se Wagner foi libertar a República Centro-Africana, então damos as boas-vindas ao Wagner em Bamako para libertar Mali. Para a guerra assimétrica, propomos uma solução assimétrica, que se chama Wagner. Esta é a verdade e hoje é o fim da Françáfrica”[5], disse Adama Ben Diarra, porta-voz do coletivo Yerewolo, que organizou a ação.

A França é agora percebida como uma potência colonial que continua as mesmas velhas práticas coloniais em um novo ambiente internacional. Essas práticas visam sugar recursos dos países africanos impondo condições desfavoráveis e desproporcionais de interação econômica, apoiando elites corruptas compradoras que agem no interesse das grandes empresas “francesas” e não de seu próprio povo.

À primeira vista, este sistema neocolonial parece beneficiar a própria França, mas isto é um erro. Seu principal beneficiário é a alta burguesia cosmopolita, que está criando as condições para o caos migratório e a destruição econômica das classes médias e trabalhadoras francesas na França.

Como as atividades dessas empresas ocorrem em uma zona cinza, sem declaração (por exemplo, a extração ilegal de urânio, ouro, diamantes), então é bastante óbvio que nenhum imposto é pago ao Estado francês e que os lucros não são redistribuídos em favor dos cidadãos franceses. Mas os cidadãos franceses arcam com os custos de pagar por operações estrangeiras, intervenções militares e o estabelecimento de regimes ostensivamente pró-franceses, mas na realidade ligados aos interesses das grandes empresas francesas. Relações pouco saudáveis que vêm reforçar a influência de políticos africanos corruptos sobre a própria política da França.

Os custos do neocolonialismo

O custo objetivo do desenvolvimento dependente e da pobreza artificial imposta à África – um efeito direto das políticas neocoloniais – também está levando milhões de pessoas a migrar. Milhares de africanos estão fugindo do flagelo de repetidas guerras, instabilidade e disparidade econômica para os países ricos da Europa, particularmente a França, com os quais muitos estão ligados por parentesco histórico e língua.

São estas políticas neocoloniais que conduziram e continuam a conduzir à formação de muitas comunidades de afrodescendentes na França e aos problemas de sua integração na sociedade francesa. De muitas maneiras, aqueles que vêem os franceses como uma fonte de seus próprios males e pobreza estão se mudando para a França. Não é surpreendente que este ambiente se torne um terreno fértil para o crime e o terrorismo. Os custos do neocolonialismo estão sendo novamente repassados ao francês médio pelos capitalistas e pela burguesia apátrida.

Quanto mais a República explora a África, mais migrantes há e maior é o perigo para os próprios franceses. O caso de Mali confirma este axioma. As tropas francesas entraram no país em 2013. O objetivo oficial era combater o terrorismo, segundo os locais, a fim de controlar o urânio e o ouro. Tropas em Mali não conseguiram proteger a França de ataques terroristas em Paris e Nice em 2015 e 2016.

Em 2015, Mali tornou-se o mais importante fornecedor de migrantes para a França. Já em 2015, 619.000 cidadãos africanos viviam legalmente na França, com o maior grupo vindo de Mali (76.500), seguido do Senegal (67.000) e da RDC (64.000)[6].

De acordo com dados mais recentes do INSEE para 2020, a França tem 6,8 milhões de imigrantes, ou 10,2% da população total. Em 2020, 47,5% dos imigrantes que vivem na França nasceram na África. Principalmente da Argélia, Marrocos, Tunísia, Comores, Senegal, Costa do Marfim, República Democrática do Congo, Mali e outros[7].

A França como subempreiteira da hegemonia americana na África

Assim, a atual política francesa na África é um fracasso total do ponto de vista dos cidadãos da República Francesa:

  1. Não elimina, mas multiplica a ameaça terrorista;
  2. Cria oportunidades e condições prévias para novas ondas migratórias;
  3. Empurra as pessoas que odeiam a França para a França,
  4. Cria muitos problemas e ameaças para os franceses e africanos em nome do superlucro de algumas pessoas

O que poderia ser uma política francesa realista e responsável na África?

Em 2017, Marine Le Pen prometeu, por exemplo, a abolição do franco CFA, desenvolvendo assim uma política africana baseada na soberania dos Estados[8]. Trata-se apenas de uma promessa eleitoral? Em qualquer caso, a ideia faria parte de um verdadeiro renascimento da autêntica soberania francesa.

Em vez de sufocar regimes dependentes e corruptos e pagá-los com novas ondas migrtórias, a França poderia trocar dando mais soberania aos Estados africanos por medidas de migração rígidas. Os africanos devem resolver seus problemas internos e os franceses devem resolver os seus.

Certamente a França deve deixar de ser um subempreiteiro da hegemonia americana no continente africano, um agente dos valores anglo-saxões do liberalismo, dos mercados livres e da democracia. Isto é um fracasso e, como mostra o caso da Líbia, leva à desorganização e ao caos e a uma crescente ameaça terrorista. Além disso, a nova “facada nas costas” dos aliados anglo-saxões mostra que os EUA não estão recompensando os esforços de Paris. A situação na qual a Austrália decidiu quebrar seu contrato com o grupo naval francês a favor da cooperação com Washington e Londres mostra claramente que os esforços da França para combater a influência russa e chinesa na África não estão dando frutos. Então, por que persistir?

Histeria antirrussa ou antichinesa dos EUA

A França não tem motivo nenhum para apoiar os EUA em sua histeria antirrussa ou antichinesa. Em vez de se opor firmemente à chegada de russos ou chineses aos países africanos, poderia tentar negociar com eles. Na RCA, por exemplo, a entrada dos russos na esfera da segurança não negou a presença econômica francesa no país. Uma avaliação sólida de quem pode trabalhar com quem na África para benefício mútuo é uma base melhor para a política externa do que o pensamento liberal doutrinário. Paris poderia trabalhar com a mesma Rússia contra a crescente influência da Turquia, que usa forças islâmicas para promover sua influência na África. É evidente que nem a Rússia nem a França têm interesse na ascensão do fator islamista. O exemplo da Líbia, onde Paris e Moscou apoiaram o Marechal Haftar contra os islamistas, mostra que tais alianças ad hoc são possíveis.

Em Mali também – é evidente que a França não pode enfrentar a situação sozinha, a decisão de reduzir sua presença foi tomada. Há poucas opções:

1) Podemos deixar as coisas como estão, mas então devemos esperar que os islamistas tomem o poder diretamente, como no Afeganistão. A única questão é quando isso vai acontecer. O governo central do Mali não controla uma parte significativa do país. Dada a posição central de Mali na geografia do tráfico de drogas e dos fluxos migratórios para a Europa, isto terá consequências desastrosas para a Europa.

2) É mais provável que o exército malinês não queira deixar as coisas como estão e capitulará em favor dos terroristas. E então a França terá apenas uma escolha: ou negociar com os russos, ou empurrar os russos para fora e assim abrir o caminho para a Turquia. No início de setembro, o Presidente Recep Tayyip Erdogan reuniu-se com Assimi Goita, Presidente da Transição da República de Mali. O presidente turco enfatizou que a Turquia está pronta para compartilhar sua experiência com Mali na luta contra o terrorismo[9].

A presença turca em Mali, uma expansão da zona de influência neo-otomana na África, significará um aumento da ameaça terrorista e migratória para a Europa. Erdogan há muito tempo tem chantageado a Europa com migrantes sírios, agora ele será capaz de controlar o fluxo de migrantes e drogas da África com acesso direto ao Mediterrâneo via Líbia.

Uma política sóbria e realista em relação à África exige uma reavaliação de quem, e em que circunstâncias, deve ser considerado um adversário e quem um aliado. Assim como o que é e o que não é possível em circunstâncias específicas e até que ponto a continuação da tendência neocolonial é realmente benéfica para a França (para não mencionar a dimensão moral e ética da questão).

[1] Mali : “La France ne s’en va pas” et refuse la présence Wagner (Florence Parly)
[2] Mali must consider its options to “bolster our national defence”, says Prime Minister
[3] Why France is losing its ‘Great Game’ in western Africa
[4] Iyad Ag Ghali, le leader d’Ansar Dine, réapparaît et menace la France
[5] La jeunesse malienne soutient le déploiement de combattants russes alors que la France lance un avertissement
[6] France Diplomatie : La diaspora africaine en France
[7] Combien y a-t-il d’immigrés ou d’étrangers en France ?
[8] Au Tchad, Marine Le Pen rompt avec l’héritage de la figure paternelle Pascal Airault – 23 mars 2017
[9] Turkey supports Mali’s stability, prosperity, Erdoğan says

Fonte: Strategika

François d'Avenel

Analista geopolítico francês

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