Aleksandr Dugin e o Continentalismo Ibero-Americano

As ideias de Aleksandr Dugin só são aplicáveis na Rússia, como dizem vários palpiteiros que nunca leram uma única linha dele? Aqui se demonstra como as ideias de Dugin, sobre Quarta Teoria Política, multipolaridade e continentalismo são perfeitamente aplicáveis no interesse ibero-americano, que é construir a unidade continental e civilizacional preconizada por Juan Domingo Perón e Getúlio Vargas.

“Creio que a forma mais importante de soberania é a soberania do espírito: a soberania intelectual”. Aleksandr Dugin

“A América Hispânica existe. Uma série de atributos congênitos caracteriza a comunidade cultural ibero-americana (…) ela repousa sobre um sistema homogêneo de símbolos artísticos, idiomáticos, religiosos, míticos, étnicos, que lhe conferem coerência cultural”. Juan José Hernández Arregui

“O Justicialismo é o resultado de um conjunto de ideias e valores que não são postulados; eles são deduzidos e obtidos a partir do ser de nosso próprio povo. É como o povo: nacional, social e cristão”. Juan D. Perón

Aleksandr Dugin (Moscou 1962) é um dos poucos intelectuais contemporâneos que tem um pensamento original e profundo. Ele não foi assimilado pela mediocridade e pelo conformismo que é típico da ideologia do pensamento único de origem anglo-saxônica, em seus aspectos liberal-esquerdista e liberal-direitista. Dugin tem formação universitária em filosofia e doutorado em sociologia e ciência política, o que lhe dá um conhecimento abrangente dos debates acadêmicos contemporâneos. Ao seu treinamento geral básico ou universal, seguindo uma simplificação imposta pelo Ocidente europeu, o pensador russo acrescenta uma bagagem heterodoxa de leituras distantes do cânone científico e uma perspectiva eurasiática original.

Sustentamos que ele é um pensador nacional por duas razões. Por um lado, seu trabalho intelectual é orientado para a práxis[1] e seu trabalho contribui para a emancipação política, social, cultural e da ecúmene eurasiática. Sua perspectiva luta pelo direito à autodeterminação da comunidade russa e tal posição implica uma luta contra a ordem capitalista, imperialista e liberal anglo-saxônica. Em segundo lugar, mantemos que ele é um intelectual nacional porque seu trabalho forma uma perspectiva original que é específica de seu tempo e espaço e que não está subordinada ao pensamento único prevalecente. Dugin reflete, sente e age com o mandato de sua terra, sua história e sua tradição, subindo do nacional para o universal situado.

As relações internacionais e a geopolítica das civilizações em confronto

“A história universal é a história da luta entre potências marítimas contra potências terrestres e potências terrestres contra potências marítimas”. Carl Schmitt

“É necessário desenvolver a escola geopolítica sul-americana com uma visão continental”. Aleksandr Dugin

Recuperando as categorias de Carl Schmitt, Dugin definiu a Geopolítica como a “teoria que considera a estratégia mundial como a concomitância de duas civilizações ou dois grandes espaços: o espaço atlântico e o espaço continental ou eurasiático”. Ele apontou que Halford Mackinder foi o primeiro geopolítico europeu e fundou a disciplina como uma ciência ou “método epistemológico” (Dugin 2018: 25). Dugin enfatizou que esta conceituação ainda é atual e que Zbigniew Brezinski é um de seus mais proeminentes divulgadores dentro do establishment americano.

Dugin enfatizou que o debate sobre Geopolítica e Relações Internacionais está ganhando cada vez mais importância no mundo acadêmico e científico. Ele ressaltou que embora existam vários paradigmas nas Relações Internacionais, as escolas realista e liberal são as hegemônicas nas universidades. Os primeiros consideram que a soberania é vital e que não deve haver órgãos supranacionais que limitem a capacidade do Estado nacional. Com estes princípios, o realismo patrocinou as políticas de desenvolvimento econômico e de defesa nacional dos Estados modernos (Dugin 2018 b: 69). O liberalismo tende a limitar a soberania e encorajar instâncias jurídicas supranacionais e nas palavras de Dugin “este paradigma, consiste no fato de que a soberania não é o valor último, mas algo transitório (…) e é por isso que um exército soberano não é necessário (…) A idéia de Governo Mundial[2] não é uma conspiração, é o termo que encontramos nos manuais da teoria das Relações Internacionais” (Dugin 2018: 33-34).

A geopolítica e as relações internacionais ordenam a ação política, cultural e militar dos Estados. É neste sentido que Dugin impulsionou seu estudo e a institucionalização da disciplina nas universidades e no Estado-Maior General russo, partindo do pressuposto de que “sem Geopolítica e sem teoria de Relações Internacionais não é possível ser um homem militar, um militar consciente, um militar digno da profissão” (Dugin 2018: 24).

A civilização do mar

“Os moderados consideram como uma conquista a passagem de uma “civilização do ser” para uma “civilização do devir” (…) Distante das origens, o movimento indefinido, insensato e acelerado deste que tem sido justamente chamado de ‘vôo para frente’, tornou-se o tema dominante da civilização moderna, muitas vezes sob o rótulo de evolucionismo e progressismo”.Julius Evola

“O liberalismo é a forma ideológica da civilização do mar. O liberalismo e a civilização do mar são a mesma coisa”. Alexander Dugin

Dugin recuperou as noções da obra de Carl Schmitt, Terra e Mar. Ele mencionou que a civilização do mar corresponde à ação colonialista e militarista expansiva da Inglaterra no sistema mundial. Esta civilização impôs o liberalismo que, juntamente com o marxismo e os diversos nacionalismos de direita (fascismo, nacional-socialismo, etc.), orientou o desenvolvimento político e social do século XX.

A civilização do mar será retomada pelos EUA e com o Presidente Wilson (1913-21) a hegemonia internacional do país foi consolidada e o imperialismo norte-americano se expandiu, o que se justificou em nome da “democracia” e do direito universal ao “intervencionismo”.

A civilização do mar fomenta a mudança e o movimento permanente das identidades humanas e isto implica o apagamento das fronteiras étnicas, culturais e políticas das nações. O mar não tem margens concretas e leva o mundo ao autoritarismo da universalidade e ao sistema único que nega a diversidade humana. O mar funciona como uma “metáfora do tempo” no devir, como uma espécie de vagar permanente e dinâmico que dissolve a identidade e o ser de indivíduos, povos e nações. Nas palavras de Dugin, “o mar é universal, é desencarnado. O mar é mudança, é uma metáfora do tempo; o tempo, tornar-se, não é eternidade, não é algo constante (…) o mar é outra maneira de escolher, de escolher o tempo ao invés da eternidade, de escolher a igualdade ao invés da hierarquia, de escolher o progresso ao invés da tradição, de escolher a ausência de hierarquia contra esta ideia de verticalidade da sociedade” (Dugin 2018: 45).

O comerciante contemporâneo é o estereótipo da civilização do mar. O capitalista não tem raízes culturais, nenhuma pátria, nenhuma religião e busca a liquidação de fronteiras, estados e diferenças históricas e de identidade entre indivíduos e povos. Dugin observou que “o capitalista financeiro já é um sub-humano, o auge da desumanização. Ele é um parasita que explora todos os bens naturais reais do homem e da natureza. O capitalista é o anticristo social” (Dugin 2018 b: 122).

O Ocidente assumiu o mar como destino a partir da modernidade e propagou essa civilização através da guerra e do comércio que se justificavam com racionalidade liberal e materialista. A expansão da “metafísica moderna” foi apresentada a partir do discurso da ciência e da tecnologia que se definem como neutras e universais, quando na realidade são a justificação de uma civilização colonialista, imperialista e decadente.

A fim de impor o capitalismo liberal, o Ocidente espalhou o mito do progresso, propagando a idéia falaciosa de que existe apenas uma marcha inevitável e universal da evolução humana. Dugin mencionou que Demócrito, Epicuro e Marx representam os valores da modernidade e “toda essa idéia de uma imanência total, naturalista e materialista existiu na antiguidade. Nada é novo na modernidade. A modernidade sempre existiu como uma civilização do mar” (Dugin 2018: 46).

A civilização da terra

Dugin apontou que a terra como categoria geopolítica “não importa (…) é um certo tipo de sociedade que se baseia na ideia do eterno, em uma ontologia e em uma axiologia da eternidade”. Os valores da terra são afirmados e desenvolvidos como o mandato histórico de um povo que mantém seu modo de vida e sua tradição cultural (religião, língua e valores). No momento de agir no presente e projetar o futuro, os membros da comunidade carregam essa tradição e esses valores que se tornam perpétuos e “a eternidade vive e a eternidade é sempre nova, como a terra”. A tradição “é a idéia não de fazer presente algo que pertence ao passado, mas de fazer presente o acesso ao eterno, de trazer do passado para o futuro essa possibilidade” (Dugin 2018 b: 107)[3].

A civilização da terra tem hierarquias e afirma uma ordem de valores e práticas organizadas e transmitidas de uma geração a outra pela família, pelas instituições do Estado e pelas organizações da comunidade. Hierarquias tornam possível manter os princípios fundadores e fundamentais da civilização.

Dugin entende que existem três hierarquias importantes na civilização da terra. A primeira é a do sábio, do filósofo e do santo que são arquétipos fundamentais na medida em que afirmam e sustentam a fidelidade dos valores transcendentais. Depois dos filósofos, vêm os guerreiros que estão prontos para enfrentar a morte por amor à pátria e para a defesa da eternidade do ser. Dugin considerava os camponeses como pertencentes à civilização da terra e à liturgia do trabalho e sua proximidade com a natureza os dotam de um modo de vida e sentimento firme e estável e não muito permeável à cultura anglo-saxônica (Dugin 2018: 42-45).

Esses três grupos ou estamentos (filósofos, guerreiros e camponeses) são os grandes defensores da tradição do povo eurasiático e neles não há lugar para o capitalismo liberal e o materialismo anglo-saxão entrarem. Eles são os guardiões da eternidade do ser e os defensores do direito à autodeterminação política e cultural de sua comunidade.

A terra vive na tradição e o mar se desdobra como ideologia do progresso. A terra afirma hierarquias e o mar contraõe a elas o igualitarismo e o cosmopolitismo. A terra reivindica o princípio da soberania coletiva do povo e o mar postula o individualismo.

A civilização da terra é a base do continentalismo. Dugin menciona que as nações são construções burguesas da modernidade e que elas surgiram pela destruição de laços tradicionais. Hoje, as nações estão sendo demolidas pelos capitalistas para fundar a ordem da ditadura liberal e da globalização. Por mais paradoxal que pareça, a criação e destruição de nações é um fato do capitalista anglo-saxão (Dugin 2018 b: 46).

Contra a civilização do mar, Dugin reivindica o direito de existir da civilização da terra e de uma diversidade de realidades históricas, culturais e políticas.

A ditadura liberal contemporânea

“Comparado aos velhos totalitarismos, o liberalismo não é totalitarismo, mas comparado a si mesmo é, porque seu politicamente correto é contra todas as formas de identidade coletiva”. Aleksander Dugin

“(…) As conquistas sociais dolorosamente adquiridas através de lutas contínuas estão hoje sendo desafiadas, uma após outra (…) O desemprego não é mais um fenômeno conjuntural, mas estrutural (…) A velha classe trabalhadora, que lutava em uma sociedade onde ainda estava integrada em seu nível, foi substituída pela classe dos desempregados, que está simplesmente excluída”. Alain de Benoist

O mar e a terra se confrontaram ao longo dos séculos através da política, da cultura e das armas. Dugin ressalta que a Guerra Fria foi uma manifestação desta disputa entre o atlantismo e o eurasianismo ou, nas categorias de Mackinder, entre “poder terrestre” e “poder marítimo”. Com o colapso da União Soviética e do comunismo, a disputa não desapareceu, pois a origem do confronto não é o regime de governo, mas sim uma luta histórica das civilizações. Por trás da ideologia oficial materialista e marxista soviética estava latente a identidade da civilização da terra, que renasceria após o colapso da URSS com a vontade histórica do Presidente Vladimir Putin (Dugin 2018: 48).

Após o colapso da União Soviética, o mundo tornou-se unipolar e a globalização se expandiu, destruindo culturas para impor “uma só cultura”, que é a liberal anglo-saxônica. Para Dugin o mundo unipolar e a globalização “são a mesma coisa, porque a globalização é unipolar, porque o processo se desenvolve a partir de um único centro que projeta os chamados valores desta forma de civilização no mundo inteiro sem perguntar se outros povos, outras culturas, civilizações concordam com isto” (Dugin 2018: 49).

No campo econômico, o capitalismo financeiro globalizado e o sistema de interesses de corporações e empresas multinacionais que destruíram a produção e a soberania nacional foram instalados. Diz Dugin que “A liquidação da soberania é a idéia do liberalismo desde Adam Smith, que criticou o Estado nacional como o regulador do comércio internacional” (Dugin 2018 b: 34).

Dugin enfatizou que o mundo unipolar inaugurou a democracia das minorias e o governo das elites que dirigem a “ditadura liberal”. Ele mencionou que teve um encontro pessoal com Francis Fukuyama e que este intelectual lhe expressou que “a democracia de nosso tempo é o poder das minorias dirigidas contra as maiorias, porque, segundo ele, as maiorias são populistas e fascistas” (Dugin 2018: 50 e 57). Na ditadura liberal “estar do lado do povo é um crime e defender a identidade racista. Estar do lado do Estado nacional também é um crime”.

A nova ordem mundial iniciada após o colapso soviético não trouxe bem-estar às nações, mas levou a maioria dos Estados a situações de crises freqüentes, desmembramento territorial e instabilidade social, emocional e política. O globalismo liberal justificou como fato natural a deterioração e o empobrecimento das condições de vida de uma grande parte dos povos do planeta. Nos países oprimidos, formou-se uma liderança que vive da história anglo-saxônica, da ficção ideológica e que promove agendas governamentais totalmente distantes da realidade das maiorias. O resultado do liberalismo em nossos Estados é a divisão entre política e interesses nacionais e que leva às crises cíclicas permanentes do sistema político e econômico. Dugin observou enfaticamente que a democracia liberal anglo-saxônica é uma nova forma de ditadura com manto progressista e “o poder está nas mãos do capital global, das elites políticas capitalistas que impõem as normas, os valores que, declaram, são valores universais” (Dugin 2018: 57).

Os valores universais do Ocidente anglo-saxão

“A globalização começa com a destruição da soberania espiritual e intelectual, alegando-se que existem valores universais”. Aleksander Dugin

“O pensamento único é cada vez mais único e cada vez menos pensamento”. Alain de Benoist

Dugin mencionou que o livro mais importante do liberalismo do século XX foi A Sociedade Aberta e Seus Inimigos de Karl Popper e que serviu a George Soros para esboçar seu plano de dominação mundial. Neste trabalho, os “inimigos” da sociedade aberta são todos os povos ou identidades que “são iliberais” e, portanto, devem ser aniquilados (Dugin 2018: 51) (Dugin 2018 b: 40).

Dugin interpreta que enquanto os comunicadores falam da existência de liberdades, o regime mundial é totalitário e não reconhece o direito à autodeterminação cultural e política dos povos, nações e civilizações diversas. No sistema mundial atual, pode-se ser um liberal de esquerda ou um liberal de direita, mas nunca se pode definir uma pessoa ou um governo como “não-liberal”. Diz Dugin que “somos livres para ser liberais, mas não somos livres para não ser liberais, senão somos um perigo” (Dugin 2018: 58) (Dugin 2018 b: 110). Civilizações ou regimes políticos que não aderem ao liberalismo são acusados de serem autoritários, fascistas, populistas, comunistas ou depositários de um modo de vida a-histórico que tem que desaparecer diante da modernidade e do progresso.

Atualmente, e com o objetivo de impor esta ideologia, o império anglo-saxão aplica a Guerra das Redes[4] que lhe permite obter triunfos políticos sobre outros Estados sem a necessidade de envolver as Forças Armadas. Nas palavras de Dugin “se pode derrotar um país sem atirar, sem usar hardware, sem usar o exército no sentido clássico, podemos desinformar, podemos criar economicamente ou a nível de computador algumas situações que seriam totalmente destrutivas para o inimigo. Podemos derrotar o inimigo sem atirar” (Dugin 2018: 35).

A guerra contra o passado e contra os valores da coletividade

“O individualismo é a causa determinante da atual decadência do Ocidente (…) Vale mais, para o renome de um filósofo, inventar um novo erro do que repetir uma verdade que já foi expressa por outros”. René Guénon

“Como a religião é propriamente uma forma de tradição, o espírito antitradicional não tem outra escolha senão ser antirreligioso”. René Guénon

“Pensamos que na comunidade, o povo e os indivíduos podem discutir e discordar sobre todos os problemas, exceto um, que é o de fixar o destino que lhes é comum e assegurar a realização da comunidade”. Juan D. Perón

O globalismo liberal quer monopolizar o presente e o futuro e para isso deve negar o direito dos povos de afirmarem seu passado e sua tradição. Para tanto, instala-se a ideia de “direitos do homem” ou “direitos humanos”, procurando homogeneizar os povos ignorando as diferenças históricas étnicas, nacionais e religiosas (Dugin 2018: 58). Dugin salientou que a unipolaridade ideológica “se baseia em valores modernos e pós-modernos, que são abertamente antitradicionais. Partilho a opinião de René Guénon e Julius Evola, que consideraram a modernidade e sua base ideológica (individualismo, democracia liberal, capitalismo, conformismo, etc. -) como as causas da catástrofe futura da humanidade” (Dugin 2018 b: 23).

Dugin salientou que os liberais instalaram em nossas sociedades os valores do niilismo, do individualismo e do materialismo. Esta ideologia separa a pessoa do coletivo e retira suas responsabilidades para com seu povo, seu país e sua história. O sujeito é atomizado e perde o princípio ético de solidariedade social com seus pares, para estabelecer uma fria e distante relação de luta e competição comercial. O liberalismo destrói os valores tradicionais da comunidade que se desintegra em nome do progresso capitalista e de uma suposta evolução humana que nunca vem. O liberalismo quer separar “cada vez mais o indivíduo de todos os laços coletivos, que logicamente acabarão destruindo e liquidando o homem” (Dugin 2018: 51).

A Quarta Teoria Política

“Evola e Heidegger são dois precursores da Quarta Teoria Política. Eles não eram nacionalistas estreitos como dizem os burgueses”. Aleksander Dugin

“A Quarta Teoria Política não é comunismo, nem fascismo, nem síntese (…) não é uma nova doutrina, não é um dogma, não é uma nova construção ideal para a sociedade do futuro. É a idéia de salvar o ser humano do futuro”. Aleksander Dugin

Dugin mencionou que o século XX foi atravessado pelas Teorias Políticas do liberalismo, marxismo e fascismo/nazismo. Após a Segunda Guerra Mundial, este último sistema desapareceu, provocando o confronto entre os dois vencedores da guerra, que eram os EUA e a União Soviética.

Em 1991, o Muro de Berlim caiu e a Teoria Liberal ocupou todo o espaço e o marxismo e o fascismo permaneceram como uma mera “moda cultural”. Dugin observou que atualmente o neofascismo está à margem dos skinheads e os comunistas de hoje “são as aberrações que lutam por valores secundários (…) Os comunistas de hoje só trabalham para os capitalistas. A maioria é apoiada pelas redes de George Soros, que paga aos jovens de extrema-esquerda e pelas revoluções coloridas impulsionadas pelo grande capital globalista” (Dugin 2018: 57). Dugin reconhece que o marxismo pode servir teoricamentepara descrever o status quo (Dugin 2018 b: 83).

Semelhante à abordagem de René Guénon e Julius Evola[5], Dugin destacou que a modernidade liberal tem origem no Protestantismo que fragmentou a Igreja Católica ao espalhar a “fé individual” em Cristo, destacando o indivíduo do coletivo institucional. Dugin salientou que “o liberalismo historicamente começa com o anticatolicismo” e continuou com a destruição de impérios e monarquias fundando em seu lugar novos Estados nacionais (Dugin 2018 b: 43).

A luta contra o comunismo travada durante a Guerra Fria teve como objetivo destruir a identidade coletiva de classe, uma questão que foi consagrada com o colapso soviético de 1991. Depois disso, o capital avançou, praticamente sem limites, na exploração e empobrecimento do povo eurasiático.

Este processo de desenraizamento é hoje completado pelo que Dugin chamou de ideologia de gênero. Esta ideologia interpreta como “coercitiva e violenta” a condição morfológica e social do homem e da mulher. Para Dugin, o gênero é uma forma de “identidade coletiva” e não é meramente uma questão subjetiva e individual (Dugin 2018 b: 99).

Os homens estão abandonando âncoras existenciais e pontos de referência, libertando-se da igreja, nação, tradição, Estado e gênero. A negação de qualquer tipo de mandato histórico e cultural leva à desumanização definitiva e nesta evolução as pessoas poderão escolher se querem permanecer humanas ou se querem se transformar em “pós-humanos”, através do uso da robótica e da inteligência artificial. Se não forem colocados limites a eles, o liberalismo e a civilização do mar levarão a humanidade a um fim catastrófico (Dugin 2018 b: 105-106).

Dugin mencionou que o liberalismo e o capitalismo devem ser combatidos. Com esse objetivo, ele impulsiona a construção da Quarta Teoria Política que se baseia no respeito à multipolaridade e à coexistência harmoniosa entre comunidades política e culturalmente diferentes. O autor enfatizou que “quando uma sociedade tenta julgar outra, ela aplica seus próprios critérios e assim comete violência intelectual. Esta mesma atitude é precisamente o crime da globalização e da ocidentalização, bem como do imperialismo americano” (Dugin 2018 b: 25).

Para construir este novo sistema mundial, não serve o comunismo (Segunda Teoria Política), que é moderno, ateu, materialista e cosmopolita e “pelo contrário, solidariedade social, justiça social, socialismo e uma atitude holística em relação à sociedade são bons em si mesmos” (Dugin 2018 b: 24). A Terceira Teoria Política nacional-socialista ou fascista também não deve ser aplicada, pois contém os aspectos negativos da xenofobia, do racismo e do chauvinismo.

A Quarta Teoria Política reconhece a importância de trabalhar para a construção de um Mundo Multipolar[6], atualmente impedido pelo imperialismo anglo-saxão da civilização do mar. A diversidade de tradições é uma riqueza a ser preservada e “não a razão de um inevitável conflito: muitas civilizações, muitos pólos, muitos centros, muitos conjuntos de valores”. Dugin acredita que as religiões devem coexistir e não precisam impor umas sobre as outras (Dugin 2018 b: 28 e 94).

O intelectual russo insiste na formação de uma frente antiglobalista e anti-imperialista e para isso é necessário identificar o inimigo comum, “um elemento necessário para qualquer tipo de aliança” (Dugin 2018 b: 23). Dugin propõe a fusão das tradições políticas de esquerda, direita e atores sociais de diferentes nações que têm o mesmo inimigo. Ele reconheceu que a esquerda normalmente levanta as bandeiras da justiça social e que o populismo reivindica os próprios valores da direita de defender a tradição e a identidade. Estas correntes ideológicas têm diferenças, mas também podem e devem forjar alianças baseadas nas bandeiras da “justiça social, soberania nacional e valores tradicionais”. Estes três pilares podem ser as bases da frente antiglobalista (Dugin 2018 b: 26 e 55). Então cada povo e cada civilização, organizará seu próprio sistema de vida e isto será o resultado do ser e da autenticidade da existência.

A revolução conservadora

“Uma comunidade que possui uma doutrina, que atinge uma ética e tem um real senso de hierarquia, está em condições de começar a se organizar”. Juan D. Perón

Dugin promoveu uma “revolução conservadora, que é algo muito diferente do conservadorismo. A revolução conservadora tem uma visão cíclica da história, não uma visão linear. Revolução, etimologicamente significa “volta”, é um conceito cíclico. A revolução conservadora é uma volta e um retorno à eternidade, não ao passado”. A revolução conservadora é um convite para reformular o sistema de vida criado pela modernidade e inclui a possibilidade de promover novos valores, mas desde que pertençam à eternidade e aos valores sagrados da própria civilização (Duguin 2018 b: 103).

O autor considerou que a nova ordem multipolar será moldada com base em comunidades organizadas, fundadas em princípios de tradição, cultura e religião. Ele mencionou que “a vida do homem tem sentido: o sentido da vida é voltar à unidade. E política, religião, cultura, nossa vida organizada dentro da comunidade é o caminho de volta, é o caminho para a unidade que a precede, que precede nossa existência no mundo” (Dugin 2020: 11-12) (Dugin 2020: 22). A civilização do mar deve ser derrotada e a civilização da terra será a norma do novo mundo e cada coletividade histórica afirmará seu eu autêntico.

Dugin considerou que a religião é essencial para a construção da civilização e nela “está contida a idéia da criação eterna, da comunicação eterna, da experiência de Deus”. Ele apontou que o atual declínio das religiões não se origina nos erros da Igreja, mas no “homem que negou sua própria origem sagrada e eterna” (Dugin 2018 b: 107).

A revolução conservadora e a Eurásia

Dugin defende a reorganização das fronteiras nacionais com o objetivo de torná-las conformes à realidade do ser, o que é próprio da história e do desenvolvimento das civilizações pré-modernas. Neste contexto, ele reivindicou a existência da Eurásia como expressão da civilização da terra com características definidas que devem ser restauradas. Sua língua faz parte do legado grego, sua religião é principalmente cristã ortodoxa e Dugin considera que, embora “sejamos europeus, não nos reconhecemos na Europa de hoje, não nos reconhecemos no Ocidente norte-americano”. Ele destacou que a “ideia da Eurásia, da Rússia como Eurásia, postula uma identidade geopolítica”. O eurasianismo representa a Rússia não como um país, Estado nacional, povo, etnia ou religião, mas a Rússia como uma civilização da terra. Civilização que quer preservar suas formas tradicionais contra a civilização do mar” (Dugin 2018: 51). O pensador russo observou que a Eurásia é fundamentalmente cristã eslava e ortodoxa e que coexiste e respeita a existência dentro dela de centenas de etnias diferentes, forjando uma forma de ser que é única.

Dugin entende que Vladimir Putin aplica o realismo nas Relações Internacionais. Isto torna possível estabelecer limites à ingerência americana da OTAN na Rússia e Eurásia. Ele interpretou que o líder russo não é um imperialista, mas que ele retoma aspectos da tradição imperial russa cuja influência histórica excede as estruturas do atual Estado nacional. O Império reconhece a existência federal de entidades políticas e culturais e dentro dele existiam “muitos centros diferentes e muitos grupos heterogêneos unidos nesta civilização e unidos em expressão política” (Dugin 2018 b: 91). Alberto Buela observou que em Dugin “o império exige um centralismo administrativo rigoroso e uma ampla autonomia regional: o império é a maior forma de humanidade e sua maior manifestação” (Buela 2013). Aspectos da política internacional de Putin, tendem a reconstruir a Eurásia como uma federação e como uma entidade histórica iliberal e anti-anglo-saxônica (Dugin 2018 b: 68 e 77) (Dugin 2020: 18).

Civilizações à margem da ditadura liberal

“A união eurasiática, o grande espaço chinês, o grande espaço da civilização islâmica, são realidades. A Europa poderia ser um grande espaço, a África, a América do Norte e a América do Sul. É interessante que hoje podemos ver estes grandes espaços, estas civilizações que estão se manifestando cada vez mais”. Aleksandr Dugin

Dugin ressaltou que entre as civilizações da terra e do mar existe um território médio localizado entre os dois pólos e em permanente disputa ao longo da história.

Atualmente, a Europa Oriental é influenciada negativamente pela ideologia do Ocidente globalista e pela agressão militar da OTAN. Apesar disso, esses territórios não foram assimilados pelo liberalismo e continuam a manter seus próprios aspectos tradicionais e culturais. Dugin considerou que Vladimir Putin está lutando para manter vivos os valores eslavos nestes estados e que para este fim ele está promovendo a unidade destas regiões com a Rússia.

A Índia e a China eram colônias britânicas, mas ainda não foram totalmente ocidentalizadas. Em ambos os Estados ainda há uma tradição e um modo de vida que a civilização do mar não foi capaz de apagar.

O Oriente Médio é um campo de batalha entre as potências mundiais. Os territórios da Síria, Irã, Afeganistão e Iraque haviam caído nos anos 90 sob a esfera dos atlantistas, até que Putin “começou a voltar à geopolítica e se opor ativamente a esta pressão” (Dugin 2018: 29). Dugin argumenta que “a ação da Rússia na Síria, do Irã, da Turquia, entre outros, denota que cada vez mais pessoas respondem a civilizações, religiões e sociedades ainda tradicionais, que não são pré-modernas. Eles não estão destinados a serem modernizados só porque escolhem não ser modernas” (Dugin 2018 b: 99).

O autor caracterizou a Turquia e a “civilização turco-otomana” como parte da diversificada tradição eurasiática, que é mais continental do que anglo-saxônica e atlantista (Dugin 2018: 30).

A Ibero-América e a civilização da terra

“Toda a história da Argentina é uma guerra eurasianista em algum sentido. Mesmo a disputa sobre as Malvinas é uma guerra continental”. Aleksander Dugin

“A Ibero-América preenche as condições de uma nação integral. E o nacionalismo falacioso das repúblicas sem existência própria, patrocinado de fora, será substituído pela consciência histórica da nação ibero-americana”. Juan J. Hernández Arregui

Dugin considerou que “a América do Sul representa uma civilização própria, uma civilização distinta com seus próprios interesses estratégicos. Isto é soberania geopolítica em potencial” (Dugin 2018: 31). A América do Sul compartilha a língua (português e espanhol) e sua população é majoritariamente católica e diversas tradições étnicas coexistem em harmonia. O autor destacou que nossa região “não é uma civilização europeia, mas uma civilização sul-americana” (Dugin 2018 b: 91).

Semelhante a sua visão da história russa, Dugin interpretou a tradição hispânica como imperialista e não imperialista[7]. A Espanha fundou um novo mundo como uma continuação de sua própria civilização e não como um mero fato colonial de exploração e pilhagem. Os territórios anexos se desenvolveram “como províncias espanholas”. Assim como há uma Córdoba argentina e uma Córdoba espanhola. Esta forma de ser manifestou-se, além disso, na conservação da tradição católica, do catolicismo das províncias ibéricas no novo mundo; na forma da conservação dos aspectos da sociedade tradicional, não mercantil, mas produtiva, com sua própria nobreza como aristocracia no novo mundo; com seus padres, com os jesuítas e outras ordens espirituais e com os camponeses, não escravos, como a força de trabalho mais importante da civilização” (Dugin 2018: 47) (Dugin 2020: 19). O status de Império favoreceu a existência de uma diversidade de realidades políticas, sociais, culturais e territoriais com relativa autonomia (Dugin 2018 b: 51 e 91). O continente ibero-americano é enraizado por uma cultura, uma língua e uma religião e forma, como diz Alberto Buela, um “ecumene” (Dugin 2020: 16).

Dugin inclui a Ibero-América como parte da civilização da terra e como um continente com sua própria identidade, com um ser histórico definido. As guerras da Independência patrocinaram a fragmentação nacional e a criação de diferentes estados sem apagar as “bases metafísicas do continentalismo”, que existem hoje. A região reúne as condições civilizacionais para a reunificação e formação dos Estados Unidos da América do Sul e Dugin observou que “a América do Sul é soberana”, assim como a Eurásia (Dugin 2018 b: 82). A Ibero-América é eternidade e é passado, é presente e é futuro.

A civilização da terra e o continentalismo da Revolução Justicialista.
“Podemos então considerar Perón como um profeta, como um homem de gênio que pensou além de seu tempo e além das condições e circunstâncias históricas concretas de seu tempo”. Alexandr Dugin

“O homem não é um ser angelical e abstrato. Na constituição de sua essência está implícita sua situação, sua conexão com uma determinada terra, sua inserção em um processo histórico concreto. Ser argentino também significa isto: saber, ou pelo menos intuir, que ser um habitante lúcido e ativo de sua situação histórica particular é parte da plena realização de sua existência. (…) Sua pertença a esta história e não a outra, sua vivência nesta situação e não em outra, sua abertura a um destino que é irredutivelmente seu, são suficientes para que aqueles princípios essenciais que cada homem guarda para tomar forma de forma única e irrepetível, moldando a essência do homem argentino e conquistando para ele um tempo singular e definitivo na história do mundo”. Juan D. Perón

Dugin mencionou que a “Argentina é o centro intelectual da América Latina” e destacou a vitalidade da filosofia do país que tem referências como Alberto Buela e Carlos Astrada que recuperaram a tradição gaúcha e “que a identidade profunda é sentida na Argentina apesar da modernização” (Duguin 2018: 23)

Dugin entende que “Perón sobrevive à sua morte porque criou o peronismo”. Não apenas seus escritos, sua vida, sua política, sua ideologia era o peronismo”. O líder da revolução forjou uma doutrina e uma organização que lhe deu realidade, vitalidade e capacidade de realização histórica.

Juan Perón construiu o tema histórico do povo, que se integrou com outros grupos em uma Comunidade Organizada, com base em valores. O povo Justicialista não foi uma imitação do “proletário” materialista defendido pelo marxismo, nem do cidadão ou da “classe média” do liberalismo. Como Alberto Buela argumenta, o Justicialismo defendeu a formação de uma comunidade reunida por um princípio de solidariedade social e valores e não apenas por um pacto eleitoral, institucional e de mercado.

Dugin interpretou a ideologia e a prática do líder Justicialista como relacionada à Quarta Teoria Política. Ele ressaltou que “Perón insistiu na combinação da tradicional moralidade conservadora, religiosidade e ética, com justiça social, e apoio ao trabalho honesto. Ele observou que no Justicialismo “o chauvinismo e qualquer indício de racismo” estava ausente. Perón “não era liberal, mas antiliberal; ele não era comunista, mas anticomunista, e também não era fascista” (Dugin 2018 b: 52 e 84).

Semelhante a sua visão da história russa, Dugin interpretou a tradição hispânica como imperial e não imperialista[7]. A Espanha fundou um novo mundo como uma continuação de sua própria civilização e não como um mero fato colonial de exploração e pilhagem. Os territórios anexados se desenvolveram “como províncias espanholas. Assim como há uma Córdoba argentina e uma Córdoba espanhola. Esta forma de ser manifestou-se, além disso, na conservação da tradição católica, do catolicismo das províncias ibéricas no novo mundo; na forma da conservação dos aspectos da sociedade tradicional, não mercantil, mas produtiva, com sua própria nobreza como aristocracia no novo mundo; com seus padres, com os jesuítas e outras ordens espirituais e com os camponeses, não escravos, como a força de trabalho mais importante da civilização” (Dugin 2018: 47) (Dugin 2020: 19). O status de Império favoreceu a existência de uma diversidade de realidades políticas, sociais, culturais e territoriais com relativa autonomia (Dugin 2018 b: 51 e 91). O continente ibero-americano é enraizado por uma cultura, uma língua e uma religião e forma, como diz Alberto Buela, uma “ecúmene” (Dugin 2020: 16).

Dugin inclui a Ibero-América como parte da civilização da terra e como um continente com sua própria identidade, com um ser histórico definido. As guerras da Independência patrocinaram a fragmentação nacional e a criação de diferentes Estados sem apagar as “bases metafísicas do continentalismo”, que existem hoje. A região reúne as condições civilizacionais para a reunificação e formação dos Estados Unidos da América do Sul e Dugin observou que “a América do Sul é soberana”, assim como a Eurásia (Dugin 2018 b: 82). A Ibero-América é eternidade e é passado, é presente e é futuro.

A civilização da terra e o continentalismo da Revolução Justicialista

“Podemos então considerar Perón como um profeta, como um homem de gênio que pensou além de seu tempo e além das condições e circunstâncias históricas concretas de seu tempo”. Aleksandr Dugin

“O homem não é um ser angelical e abstrato. Na constituição de sua essência está implícita sua situação, sua conexão com uma determinada terra, sua inserção em um processo histórico concreto. Ser argentino também significa isto: saber, ou pelo menos intuir, que ser um habitante lúcido e ativo de sua situação histórica particular é parte da plena realização de sua existência. (…) Sua pertença a esta história e não a outra, sua vivência nesta situação e não em outra, sua abertura a um destino que é irredutivelmente seu, são suficientes para que aqueles princípios essenciais que cada homem guarda se concretizem de forma única e irrepetível, moldando a essência do homem argentino e conquistando para ele um tempo singular e definitivo na história do mundo”. Juan D. Perón

Dugin mencionou que a “Argentina é o centro intelectual da América Latina” e destacou a vitalidade da filosofia do país que tem referências como Alberto Buela e Carlos Astrada que recuperaram a tradição gaúcha e “que a identidade profunda é sentida na Argentina apesar da modernização” (Duguin 2018: 23)

Dugin entende que “Perón sobrevive à sua morte porque criou o peronismo. Não apenas seus escritos, sua vida, sua política, sua ideologia era o peronismo”. O líder da revolução forjou uma doutrina e uma organização que lhe deu realidade, vitalidade e capacidade de realização histórica.

Juan Perón construiu o sujeito histórico povo, que se integrou com outros grupos em uma Comunidade Organizada, assentada em valores. O povo justicialista não era uma imitação do “proletário” materialista defendido pelo marxismo, nem do cidadão ou da “classe média” do liberalismo. Como Alberto Buela argumenta, o Justicialismo defendeu a formação de uma comunidade reunida por um princípio de solidariedade social e valores e não apenas por um pacto eleitoral, institucional e de mercado.

Dugin interpretou a ideologia e a prática do líder Justicialista como relacionada à Quarta Teoria Política. Ele ressaltou que “Perón insistiu na combinação da moral conservadora tradicional, religiosidade e ética, com justiça social, e apoio ao trabalho honesto”. Ele observou que no Justicialismo “o chauvinismo e qualquer indício de racismo” estava ausente. Perón “não era liberal, mas antiliberal; ele não era comunista, mas anticomunista, e também não era fascista” (Dugin 2018 b: 52 e 84).

Dugin mencionou que o Justicialismo nas Relações Internacionais era realista e que a Terceira Posição implicava uma inscrição internacional fora da subordinação às potências liberais e comunistas. Além disso e fundamentalmente, Perón era continentalista e isto foi bem expresso na aliança ABC (Argentina, Brasil e Chile). Dugin salientou que o “continentalismo de Juan Perón deve ser entendido como a forma ibero-americana da civilização da terra, porque esta é a essência do Justicialismo que é contra o materialismo comunista e contra o liberalismo capitalista para a terceira posição, que é com as raízes do povo, do trabalho nobre. É por isso que a CGT existe” (Dugin 2018: 51).

O autor salienta que Perón tentou unir o continente a partir de um pacto estratégico com o Brasil, “porque onde estão os ibéricos, portugueses, espanhóis, indígenas que entraram neste contexto crioulo; onde está o catolicismo, onde está a língua castelhana ou portuguesa; existe a civilização da terra, da identidade, existe a ontologia da eternidade: o ser que prevalece sobre o mar, o tempo e sua ditadura”. Dugin destacou que a potencialidade da unidade da Argentina e do Brasil pode ser comparada ao pacto entre França e Alemanha para fundar a União Européia; e também é análoga à articulação entre Rússia, Turquia e Irã para resolver a atual situação política no Oriente Médio (Dugin 2018: 51 e 80) (Dugin 2018 b: 81).

Notas

[1] Aleksandr Dugin tem uma longa militância política e cultural. Ele foi membro fundador do Partido Nacional Bolchevique (1992) e depois do Movimento Eurasiático (2001). Ele tem uma influência importante na política russa e em vários movimentos culturais e partidos políticos na Europa e na Ásia.
[2] Dugin considera que governos supranacionais poderiam existir na medida em que correspondessem a cada uma das diferentes civilizações. De forma alguma ele acha positivo e necessário que um único “governo mundial” seja formado (Dugin 2018 b: 83).
[3] Alberto Buela comenta que neste ponto Dugin aplicou a teoria do Dasein de Martin Heidegger, apresentada em Ser e Tempo(1927). Buela salientou que o filósofo alemão postulou que o tempo deve ser interpretado como “um advir apresentante que vai sendo sido” e “Temos que entendê-lo através do constante, do valioso, do permanente. E é isto que o pensamento conservador faz, ele resgata o que dura no tempo, o que é permanente, constante, valioso. A tradição não é preservar coisas velhas por ser velho, mas coisas passadas que conservam seu valor, que continuam a ser valiosas” (Buela 2013).
[4] Para contrariar a guerra das redes, Dugin promove uma “revolução conservadora na mídia” tendente a que cada civilização tenha seu próprio instrumento de comunicação. Esta condição permitiria a manutenção dos próprios valores de cada comunidade e o diálogo entre as civilizações. A partir daqui, é que Dugin considera positiva a existência de diferentes perspectivas dos meios de imprensa como Russia Today (russo), Press TV (iraniano), Al Jazeera (árabe), etc. (Dugin 2018 b: 105).
[5] Guénon interpreta o protestantismo como “individualismo” aplicado à religião e favorece o “livre exame” da Bíblia que dissolveu a autoridade e patrocinou a “moral secular” (Guénon 2015: 99-100). Evola argumenta que o trabalho do Lutero protestante legitimou a “revolta contra o princípio imperial de autoridade” (Evola S/F: 569).
[6] Dugin afirmou como um fato positivo e auspicioso para a ordem pluriversal necessária a ser construída, a união do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS). Estes países são assimétricos e ao mesmo tempo complementares e têm recursos e capacidades que podem ser integradas, demonstrando que uma aliança estratégica internacional sem hegemonismo é viável (Dugin 2018 b: 78-79 e 116).
[7] Juan José Hernández Arregui chegou à mesma conclusão e salientou que para a “coroa, estas terras eram províncias do reino, e assim foram definidas (…) o sistema vice-governamental, foi a transfusão para a América do regime federativo das províncias espanholas, independentes umas das outras, embora unidas pela coroa de Castela”. Embora esta posição não tenha impedido a exploração dos aborígines, a “lenda negra” e o anti-hispanismo imposto pelo Império Britânico também não são reais. Ele ressaltou que “juntamente com a investida sobre a subjugada corrida de bronze, a Espanha trouxe para estas terras uma de suas maiores virtudes, o espírito de independência e as instituições que a protegeram” (Hernández Arregui 2002: 43 e 57).

Bibliografia

Buela Alberto (2013) Dugin, profeta de Eurasia, en línea https://paginatransversal.wordpress.com/2013/08/22/duguin-profeta-de-eur…
Dugin Alexsandr (2018) Geopolítica Existencial, Conferencias en Argentina, V 1, Nomos, CABA.
_________________(2018b) Identidad y soberanía: contra el mundo posmoderno, Conferencias en Argentina, V 2, Nomos, CABA.
De Benoist Alain (2018) Rebelión en la Aldea Global, ensayos escogidos, NOMOS, CABA.
Dugin A. y Buela Alberto (2020) A 70 años de la vigencia de una idea: la Comunidad Organizada, CEES, CABA.
Evola Julius (S/F) Rebelión contra el Mundo Moderno.
Guénon René (2015) La crisis del mundo moderno, Ediciones Sieghels, CABA.
Hernández Arregui Juan José (2002) ¿Qué es el ser nacional?, Catálogos, CABA.
Perón Juan Domingo (2006) El Modelo Argentino para el Proyecto Nacional, INJDP, CABA.
Schmitt Carl (1942) “Tierra y mar, consideraciones sobre la historia universal”, en C. Schmitt (2004) Teólogo de la política, Fondo de Cultura Económica, México.

Fonte: Geopolitica.ru

Aritz Recalde

Sociólogo, Mestre em Governo e Desenvolvimento e Doutor em Comunicação. Diretor de Pós-Graduação da Universidade Nacional de Lanús.

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