Pedro Castillo, Tradição e Pátria Grande

Existe uma abissal diferença entre o conservadorismo americanófilo e farisaico dos Fujimori e o conservadorismo popular e autóctone de Pedro Castillo.

A mídia brasileira rotula o segundo turno das eleições presidenciais do Peru como uma “guinada conservadora”, pois a disputa está entre dois candidatos que supostamente possuem a mesma perspectiva em relação às questões morais.

É necessário sabermos distinguir os valores morais defendidos por Pedro Castillo dos defendidos por Keiko Fujimori. O primeiro se aproxima de um tradicionalismo orgânico, o outro é o velho puritanismo importado das elites do primeiro mundo.

Castillo segue uma corrente sindicalista fundamentada nos princípios do mariateguismo, buscando a preservação das tradições dos povos locais.

O conservadorismo fujimorista é o conservadorismo das elites, é a conservação das instituições e valores de uma classe alheia à realidade popular, sem o compromisso com os interesses dos povos tradicionais do Peru.

Foi Alberto Fujimori quem implementou o Programa Nacional de Planejamento Familiar, que tinha como objetivo reduzir a pobreza através de métodos de esterilização forçada, mirando em camponeses e indígenas. Um programa “familiar” que visava a conservação das famílias de classe média-alta americanizadas em detrimento da reprodução dos menos favorecidos, de povos autóctones que mantinham suas tradições repassando-as para as próximas gerações. Quem defende os valores tradicionais de um povo, não quer que esse povo seja impedido de se reproduzir, pelo contrário, é a reprodução que irá manter as chamas de suas tradições.

O conservadorismo dos Fujimori removeu os direitos básicos dos povos, incluindo os direitos naturais femininos, como a maternidade. O que Castillo defende é completamente diferente desse moralismo elitista, está alinhado ao tradicionalismo latino-americano e não a um puritanismo anglo-saxão, tanto que uma de suas propostas é ampliar o espaço feminino na política, principalmente para as mulheres do campo, a fim de proteger a maternidade e perpetuar suas tradições.

Muito do que o Peru sofre hoje, seja socialmente, seja economicamente, é herança dos tempos do fujimorismo: privatização do setor elétrico; privatização dos hidrocarbonetos; privatização das mineradoras; dependência do FMI; redução dos gastos públicos com saúde e educação; flexibilização trabalhista.

Castillo pretende reverter esse quadro que afundou o Peru no poço do endividamento externo, do subemprego e da fuga de capitais. Ele planeja romper as relações desiguais com o FMI e substituir a economia de mercado por uma economia popular com um Estado regulador, planeja reestatizar o setor de hidrocarbonetos, de energia elétrica, aumentar o orçamento para a educação de 3,5% do PIB para 10% e reativar a produção industrial nacional, que foi suprimida pelas multinacionais estrangeiras do fujimorismo.

Pedro Castillo possui aquela imagem de caudilho clássico, de uma liderança que representa a autêntica linha popular da “esquerda do trabalho e direita dos valores” que não se vê há décadas. É um dos poucos políticos destes novos tempos, talvez o único, que está em pleno acordo com o pacote completo do que se entende por “Pátria Grande”.

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