França: Marine Le Pen tem chances de vencer as eleições presidenciais?

Escrito por Guillaume Durocher
Sondagens recentes indicam que Marine Le Pen, líder política nacionalista, possui boas chances de derrotar Emmanuel Macron, o presidente centrista-globalista, nas próximas eleições presidenciais. De fato, graças aos seus incontáveis erros e medidas populares, a rejeição de Macron está crescendo, enquanto a rejeição de Le Pen está caindo. Mas ela tem, realmente, chances de ganhar? Ou a esquerda vai apoiar novamente o candidato liberal para barrar uma “ameaça fascista” imaginária?

Agora é pra valer.

No início deste ano, a imprensa francesa divulgou os resultados de uma pesquisa super-secreta que constatou que, se forçada a escolher entre a líder nacionalista Marine Le Pen e o desgastado presidente centrista-globalista Emmanuel Macron, 48% votariam para que a Marine liderasse seu país.

Nunca se relatou que qualquer Le Pen estivesse tão impressionantemente perto da vitória assim. Os pesquisadores afirmam que a pontuação de Le Pen é explicada pela garantia de cerca de um terço do eleitorado do centro-direita e a abstenção em massa dos eleitores de esquerda que normalmente poderiam votar em Macron para “barrar o fascismo”.

É difícil avaliar quão precisa é a pesquisa de opinião pública. Por um lado, os resultados detalhados permanecem inéditos e a margem de erro para o segundo turno da votação presidencial é alta. Uma pesquisa de junho de 2020 concluiu que, em um cenário semelhante, 45% votariam em Le Pen e 55% no Macron. Isso ainda é uma derrota, mas muito à frente da pontuação eleitoral real de Le Pen de 2017: um decepcionante 33,9%.

Talvez o progresso de Le Pen seja de fato explicável com o que o Le Monde chama de sua “normalização permanente”: ela está perpetuamente moderando seu discurso e enviando sinais para se tornar mais “presidenciável” aos olhos da grande mídia e dos eleitores de centro-direita sábios (pensem nos aposentados e nos católicos burgueses perturbados pela afro-islamização, mas também desconfiados da potencial instabilidade e incompetência de uma presidência Le Pen, particularmente na esfera econômica).

O conselheiro mais próximo de Le Pen e seu cunhado Philippe Olivier diz: “Não há mais desintoxicação, agora é a hora da presidencialização”.

Os passos para a normalização incluem elogios a Charles de Gaulle (detestado por Le Pen pai por seu abandono do 1 milhão de europeus da Argélia francesa), a comemoração das vítimas do Vel d’Hiv, concordar com a mídia que a “Grande Substituição” seria uma conspiração sem fundamento, e fornecer apenas um apoio qualificado ao grupo perseguido Génération Identitaire, com base na liberdade de expressão.

Um sinal da tentativa de Le Pen de sair do gueto da “extrema-direita” e unir forças: três chefes de listas regionais no Reagrupamento Nacional (RN) não são membros do RN (o ensaísta ecológico Hervé Juvin e os políticos conservadores Jean-Paul Garaud e Thierry Mariani).

Le Pen não pede mais a revogação do espaço Schengen de livre circulação dentro da União Européia, mas apenas que os cidadãos não comunitários sejam controlados nas fronteiras da França com os vizinhos europeus (não está claro como isso seria feito). Há muito tempo não se fala em deixar o euro como moeda comum e restaurar o franco. Em uma recente peça no L’Opinion, aparentemente escrita por altos funcionários públicos que apoiam o RN, Le Pen argumenta que pagar corretamente a dívida nacional é um ponto de honra e moralidade.

Em um debate com o Ministro do Interior Gérald Darmanin, o macronista chegou a tentar atacar Le Pen a partir da direita: “você está praticamente mole agora”. De fato, Le Pen agora é muito cuidadosa em distinguir entre Islã e islamismo. O Islã é “uma religião como qualquer outra” com seu lugar na França, diz ela, reservando sua clássica fúria retórica “de extrema-direita” para o fracasso do governo em eliminar o “islamismo”.

Tudo isso suscita as perguntas: Uma vitória de Le Pen é plausível? Será que isso importa neste momento?

De um ponto de vista puramente tático, qualquer que seja a reclamação dos nacionalistas dissidentes, tenho que dizer que Marine Le Pen está amplamente crreta. Sim, sua submissão obediente ao “treinamento” pela mídia é nojenta e desonrosa. Entretanto, supondo que se queira uma chance de vencer, não há muita alternativa, dado o esquema eleitoral da França.

A França não tem representação proporcional como na Itália – onde pode compensar ter uma posição nacionalista que apela apenas a uma parte do eleitorado – mas um sistema de “o vencedor leva tudo”. Não se pode simplesmente alienar 51% dos eleitores, mesmo que 25% o amem por isso.

Mas a França também não tem um sistema político puramente bipolar como os Estados Unidos, onde um Donald Trump poderia avançar para a vitória, primeiro assumindo o partido conservador dominante e depois elaborando uma mensagem para apelar para quase metade dos eleitores. O jogo de Le Pen não é tomar conta de um partido conservador, mas fazer de seu partido nacionalista historicamente de oposição um partido de governo padrão.

As pesquisas são confiáveis? Um primeiro ponto: não se deve engolir nada do que a mídia diz de primeira. Ela ganham a vida com o sensacionalismo. A mídia mantém há décadas uma relação simbiótica de amor e ódio com os Le Pens: ao mesmo tempo em que lhes dá voz e sugere tentadoramente a possibilidade de uma vitória nacionalista salutar/horripilante (audiência!), enquanto os difama e os demoniza ferozmente, de acordo com o papel da mídia como Guardiães da Moralidade. Chame isso de “cocktease de quarenta anos”.

Pessoalmente, sou cético em relação a uma vitória do Le Pen, mas já me enganei antes. As preferências dos eleitores franceses são realmente muito estáveis no geral e a marca RN (antiga FN)/Le Pen não é nada senão estabelecida e polarizadora. Não vejo o que mudou nos últimos cinco anos (em oposição aos últimos 40) para mudar uma porcentagem crítica da mente dos eleitores. Mas então, eu não sou um um proletário gilet jaune outrora apolítico, nem um aposentado católico burguês. Talvez alguns desses grupos estejam mais abertos à Le Pen agora, e alguns esquerdistas estarão tão enojados com a presidência Macron que não votarão nele para barrar o “fascismo”. Mas acho isso difícil de acreditar.

Mais prosaicamente, Le Pen encabeça regularmente os índices de aprovação negativa, com ~47-51% dos franceses tendo uma opinião negativa a seu respeito. Embora, reconhecidamente, tenha havido uma melhora de sua classificação líquida negativa de -34% em janeiro de 2020 para -26% em fevereiro de 2021.

Quem sabe! Muita coisa pode acontecer, ou não acontecer, até abril de 2022. A política nacional francesa passou de um sistema bipolar estável para um sistema incoerente de o “vencedor leva tudo” para qualquer personalidade que possa ganhar em um determinado momento a cada cinco anos, todo o sistema se reajustando de acordo com o partido dessa personalidade, sem oposição coerente. Candidatos de extrema esquerda, verdes, socialistas, conservadores, nacionalistas e centristas-globalistas, todos poderiam plausivelmente chegar ao segundo turno. E o resultado do segundo turno não pode ser previsto com grande confiança.

Outra pergunta: a vitória de um Le Pen seria relevante? Os anos de 2010 parecem uma era diferente, os anos da crise euro-financeira e a crise dos migrantes, quando o infeliz fracasso de nossos governos fez parecer que toda a ordem liberal-globalista estava à beira do colapso.

Depois do Brexit e de Trump, as pessoas estão mais modestas em suas esperanças. Mas também temos o exemplo perpetuamente bem sucedido de Viktor Orbán na Hungria – onde um governo nacional-populista conseguiu manter o poder seguro e a popularidade, com resultados demográficos reais se bem que modestos – e de Matteo Salvini na Itália, cuja breve passagem como ministro do Interior foi extremamente popular entre os italianos, apenas terminada pela palhaçada parlamentar do Movimento Cinco Estrelas, originalmente populista mas que se rendeu ao establishment.

Uma presidente Le Pen teria que escolher cuidadosamente. Muito de seu discurso foi baseado em uma espécie de paleo-socialismo, protecionismo e soberanismo formal. Embora algumas medidas específicas possam funcionar, de modo geral estas simplesmente não produzirão os resultados esperados para os trabalhadores e consumidores franceses. A maior delas seria a retirada do euro – que não está mais em questão. Espera-se que Le Pen não se esgote politicamente em uma estéril “retomada do controle”, como fizeram os britânicos.

Mais produtiva para Le Pen seria a agenda de Salvini-Orbán: deter a imigração ilegal, a redução maciça da imigração legal de fora da Europa, e uma agenda de reforma cultural no meio acadêmico e na mídia em torno de uma defesa zemmouriana da cultura nacional nacional e da liberdade de expressão. A Hungria e a Polônia, em particular, estão dando passos nessa direção.

Hoje, não podemos dizer que um governo do RN teria uma agenda coerente. Na medida em que o RN tem uma ideologia, é um nacionalismo cívico francês de assimilação republicana antiquada.

Também podemos estar certos de que qualquer administração Le Pen enfrentaria uma campanha maciça de difamação e sabotagem nas mãos da mídia, dos tribunais, da “sociedade civil” para-estatal e de elementos da burocracia – assim como foi feito com Trump. Sendo o Estado francês mais forte e mais dominado pelo executivo, Le Pen provavelmente estaria em uma posição mais forte, embora não esteja claro o quanto.

Enquanto os cartunistas de esquerda do país fantasiam febrilmente com a ditadura totalitária vindoura de Le Pen, o RN de fato não tem uma agenda revolucionária pela qual elementos comprometidos do aparato estatal seriam forçosamente aposentados e neutralizados.

Na melhor das hipóteses: como Salvini, a presidente Le Pen se concentraria em algumas questões populares, como a imigração ilegal e legal, e depois enfrentaria e derrotaria as forças antinacionais nessas questões. Então se poderia consolidar a vitória com medidas culturais (por exemplo, esfomear a mídia de esquerda politizada e tendenciosa, os “educadores”, e as ONGs de subsídios governamentais).

Alternativamente, um governo do RN poderia se concentrar em desafiar o Establishment entrincheirado através de mais democracia direta – por exemplo, um referendo sobre imigração ou instituição do Referendo de Iniciativa dos Cidadãos (RIC, uma exigência chave dos gilet-jaunes) – com algum risco de entropia democrática.

Se um novo consenso puder ser formado, um regime nacional poderia ser bastante popular, como na Hungria. As notícias podem ser chocantes para os globalistas sem identidade, mas a maioria das pessoas gosta da ideia de que seu governo está do seu lado.

Por outro lado, a Marine aproveitou o ano de confinamento para receber treinamento formal e um diploma em criação de gatos. Portanto, se as coisas não funcionarem politicamente, pelo menos ela tem um plano C.

Fonte: UNZ

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