Como o Coronavírus dominou o mundo

Por Veiko Hessler

Desde o início da pandemia fomos soterrados por ‘estudos’, notícias e opiniões a respeito da necessidade um amplo lockdown e da execução de restrições sociais para conter a expansão do vírus. Um ano depois, com milhares de mortos e uma crise nas instituições, precisamos analisar com mais precisão tudo o que envolve esse estranho fenômeno de dissolução das bases sociais, e o quanto já não estávamos predispostos a um evento como este.

O léxico de falsas platitudes governamentais adquiriu uma nova entrada ignominiosa. “Apenas três semanas para achatarmos a curva!” eles imploraram, um ano atrás. Após quase doze meses de autoritarismo e solidão forçada pelo estado, equipes da SWAT entram em Miami para prender quem tenta curtir as férias de Primavera. Isso levou os protestos contra o lockdown a se intensificarem na Europa, de Amsterdam a Kassel.

As alardeadas vacinas não parecem nos aproximar da liberdade. A justificativa inicial para a suspensão de liberdade indubitavelmente alcançará o patamar de slogans inglórios como “estaremos em casa para o Natal” ou “força na diversidade!”. Debates continuam a emergir sobre a letalidade e origem do Coronavírus, mas, na verdade, essas discussões tornaram-se estritamente acadêmicas.

O Coronavírus não é um fenômeno primariamente epidemiológico, mas antes sociológico e político. Nossa pergunta não deve ser por que essa pandemia ocorreu agora, mas sim por que governos e sociedades responderam da forma que responderam?

A verdade pode ser que o Coronavírus não surgiu do nada em Wuhan um ano atrás, mas tem sido incubado na psiquê das sociedades modernas por anos. A facilidade com que populações não só aceitaram as restrições governamentais mas também voluntariamente pediram por mais é uma prova de que já havíamos aceito a premissa dos lockdowns em nossos corações há muito tempo.

É digno de nota que quase todas as mudanças e tendências aparentemente lançadas pelo Coronavírus são, de fato, uma simples aceleração de algo preexistente. Atomização, retiro do mundo físico para o digital, histeria coletiva neurótica frente a morte sem arcabouço espiritual, a expectativa sobre soluções do governo, crença pseudo-religiosa em especialistas e redenção científica, assim como hiper-politização das atividades comunais.

Ao examinarmos o Coronavírus como fenômenos social e não surto viral mortal, é útil identificar quem tem resistido consistentemente ao lockdown. Primeiramente, comunidades religiosas no Ocidente seguem suas vidas sem maiores obstáculos. Poucas semanas atrás, a fortaleza Judaica Ortodoxa de Stamford Hill em Londres atingiu um pico de transmissão dentro do Reino Unido.

Do mesmo modo, múltiplos casos de alto perfil entre casamentos e festivais religiosos indianos e paquistaneses estão sendo interrompidos; e não passam despercebidas as cidades como Bradford e Leicester, onde grandes populações de minoria étnica tem índices altíssimos de contaminação. Na Direita é comum apontar para isso como exemplo de um fracasso do multiculturalismo, apontando que comunidades imigrantes não obedecem às leis e que os governos são tímidos demais para reforçá-las de qualquer modo, temendo acusações de racismo. Estes pontos são, é claro, verdades. Mas talvez também digam mais sobre como sociedades Ocidentais recebem imigrantes do que sobre os próprios migrantes.

Liberais angustiados podem atribuir essa diferença de atitude étnica sobre o Coronavírus à falta de educação e recursos ou nossa insensibilidade aos valores culturais alternativos. Traduzindo, isso quer dizer que judeus, hindus e muçulmanos não foram moralmente intimidados pela doença cuja mortalidade média está em faixas que ultrapassam a expectativa de vida; eles também não se mostram impressionáveis pelo potencial ostracismo social caso não colaborem.

É claro que isso pode ser porque eles estão para além da censura pública no Ocidente, não obstante, sua resposta tem sido perene, e não moderna. Armados pela fé, adquirem uma visão fatalista e divina, continuamente celebrando o ciclo de vida e morte – casamentos, nascimentos, funerais e aniversários. Os gritos estridentes de indignação moral sobre matar vovozinhas e egoísmo perdem poder quando você já aceitou a morte dos mais velhos, assim como a sua. Em um mundo dirigido pelo caos temporal e sofrimento, eles optaram por vidas significativas em vez da estase criogênica autoimposta da vida Ocidental, por aquele pouquinho mais de vida potencial.

Conforme estes grupos religiosos seguem realizando seus encontros clandestinos em mesquitas e sinagogas, bretões eremitas ousaram abandonar seus casulos escondidos para aplaudir abobalhadamente aplaudir o SNS (Serviço Nacional de Saúde) em uma espécie de devoção pseudo-religiosa. Sem base metafísica, somente a quantidade de vida tem valor, e não a qualidade. Se enfermeiras e doutores são os sumo sacerdotes desta nova religião, devem ser adequadamente venerados e mimados. A transição de um governo de quadros intermediários oligárquicos à total dominação por uma cabala de cientistas ilegítimos não foi tão drástica quando a política já havia sido reduzida a nada mais que um exercício racionalista e utilitário de resolução de problemas.

A única questão sobre a qual os partidos políticos parecem discordar é sobre a dureza das restrições e se as logísticas de policiamento e vacinação são draconianas o bastante. Não são permitidos exames filosóficos sobre os objetivos do lockdown. Não obstante, isso não é surpreendente em sociedades que também não permitem o questionamento da sacralidade de diversificação demográfica, desventuras em política externa ou a toxicidade da cultura de cancelamento quando certos fenômenos sociais são abordados. A população já virou gado e está pré-programada para aceitar novas doutrinas sem questionar, sob anos de repressão da opinião e pensamento independente.

No entanto, isso não quer dizer que o lockdown seja impopular. Se um plebiscito fosse feito, é provável que muitos países ocidentais o aprovassem, talvez indefinidamente. No Japão, grandes segmentos populacionais se enclausuraram completamente, vivendo em seus quartos, sustentados por parentes ou o estado, vivendo em condições de humilhação social, atraso no desenvolvimento e consumo hedonista.

O termo específico é Hikikomori. O que a princípio pode parecer uma anomalia da cultura Japonesa é, de fato, um vislumbre sobre o futuro da sociedade moderna. Somos todos Hikikomori agora. Uma porção significativa das pessoas não tem pressa de retornar à normalidade porque a normalidade, para elas, significava alienação social com demandas adicionais sobre elas. O que o mundo exterior tem a oferecer? A resposta para um número crescente são empregos desnecessários, insatisfatórios e sem alma num mundo atomizado onde ninguém ao seu redor sequer olha pra você, cujo pano de fundo são cidades cada vez mais globalizadas e intercambiáveis.

A Suécia é, provavelmente, o caso mais avançado deste estado terminal da modernidade, e ainda sim teve as menores restrições da Europa. No início isso parecia paradoxal, mas em muitos sentidos, fortalece nossa análise. Com sua imensa população migrante que pelas razões apontadas anteriormente não respeitam as restrições, e com sua sociedade completamente atomizada e repleta de auto-censura em que quase 40% das pessoas vivem sozinhas, restrições legais e formas podem ter sido consideradas desnecessárias onde a grande maioria das pessoas faria policiamento próprio através da Jantelagen. As comunidades migrantes não seriam compelidas de qualquer modo.

Tudo isso ilustra um entendimento fundamental: As estruturas de incentivo das sociedades ocidentais foram drasticamente alteradas nas últimas décadas. Aquisição de riqueza, a passagem de genes para as próximas gerações e o ganho de posicionamento social na comunidade local foram substituídos por sinalização virtuosa e a corrida na escada global e digital de influência social.

Nós vivemos online. Nossa comunidade é o feed do Twitter, nosso clã de jogos, nossas fotos de Instagram. Isso, é claro, não é uma abordagem particularmente original ou convincente, mas também devemos entender que a natureza da vida digital mudou. Uma vez que redes sociais foram inseridas como um meio de conexão e manutenção das relações reais, são agora veículos de conformação, passividade e pensamento de grupo. Isso é reforçado por uma mudança sútil mas significativa na linguagem das relações sociais. Os amigos não são mais como eram no início das redes sociais, mas meros seguidores.

A interação social virtual deixou de ser bidirecional e recíproca; é agora aquela do devoto e do líder de culto, escravo e mestre. Assim, é improvável que o consenso popular seja de repente desafiado por aqueles que, mesmo em seus domínios privados, são torcedores passivos. O fato é que o mundo físico perdeu seu domínio sobre a imaginação moderna.

Sair para trabalhar é uma atividade quase arcaica quando estamos tão perto de estados tão abrangentes e capazes de garantir uma renda básica através da impressão de dinheiro. O crescimento do Bitcoin é uma reação ao sentimento de que nossas economias são uma grande ficção, com dívidas correntes que jamais poderão ser pagas, presididas por meia dúzia de oligarcas com mais dinheiro que o imaginável. Sob estas condições, sair de casa para trabalhar parece terrivelmente fora de moda.

Do mesmo modo, o sexo está relegado a uma atividade solitária na era digital, conforme a pornografia suplanta a procriação para a geração de Onlyfans. No Ocidente, há cada vez menos âncoras comunais, conforme bares e igrejas se fecham. Tudo isso contribui para o sentimento de que não há nada de valor no mundo, e assim a perda da liberdade para sair e associar-se tem sido mais um inconveniente que uma questão de vida e morte.

A saliência da mortalidade, vida e morte, no entanto, tem sim um grande papel na crise atual. Rapinar sobre temores sanitários para incutir obediência às políticas governamentais se provou tão radicalmente eficaz porque a população já está pronta para acreditar que está sob risco. Isso é porque, em muitos sentidos, está. Uma população obesa, envelhecida, mental e cronicamente adoecida já está bem versada sobre medos internalizados de sua própria incapacidade e decadência. Jogar sob estas condições é a estratégia perfeita de relações públicas, inconcebível em uma sociedade forte e viril.

Todos estes fatores contribuem para como o Coronavírus tomou o mundo de assalto, e coletivamente, são presságio de um longo inverno para a liberdade humana. As liberdades que perdemos podem ser incrementalmente restauradas nos meses e anos vindouros, mas nós nos mostramos amplamente dispostos a abandonar nossos direitos e demasiado lentos em exigi-los de volta.

Não há razão para acreditar que um evento como o Coronavírus não possa se repetir. Vivemos em uma era de políticas crônicas e não agudas onde narrativas perduram por meses e anos. A moléstia cultural e social subjacente, a neurose coletiva e a morte espiritual de vastas extensões do Ocidente não serão rapidamente revertidas. Nosso único caminho é um re-boot de vida autenticamente Heideggeriana, procurar indivíduos semelhantes e construir comunidades robustas e resilientes capazes de resistir ao cenário existencial desolador. Conforme outros vivem suas vidas em estase, devemos abraçar a realidade com vigor e trabalhar para tomá-la de volta.

Fonte: The Warden Post
Tradutor: Augusto Fleck

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