Eleições presidenciais no Chile – Primeiro turno

Breve análise para compreender o que está acontecendo e o que está por vir nas eleições presidenciais de 2021 no Chile e na política chilena.

Os resultados eleitorais de hoje não devem observar-se com o derrotismo lamentoso, mas sim a partir de uma análise sociopolítica da realidade. Já existem quem batem no peito e se ajoelham apavorados porque o “Chile apodreceu”, em um terreno disputado por Boric e Kast. O Chile tem vivenciado múltiplas crises em sua história, e a que nos toca viver agora, recém começa.

Nosso dever é entender os acontecimentos com todas as suas nuances para elaborar um plano de ação concreto.

Era esperável o vantajoso resultado de Kast. Em um ambiente de crise, o discurso de ordem e segurança tranquiliza a muitos, junto a toda essa pós-verdade relacionada a conspirações, “Chilezuela”, e demais. O medo e a ignorância criam o terreno propício para o triunfo da infâmia. Décadas de cultura neoliberal não se destroem facilmente. Nem sequer o surto social de 2019, resultou ser uma espécie de “fim da historia”, pois representa uma mera fase do desenvolvimento histórico em andamento. Não se trata de um triunfo ou de uma derrota. Este desenvolvimento histórico inacabado, está acima das eleições, pois está radicado nas bases sociais, e é composto de ingredientes como a soberania popular, os modos e meios de produção, as diferenças abismais entre classes dentro de um mesmo país, a hegemonia cultural, etc.

Lembremo-nos que em paralelo às eleições, se elabora um processo constituinte.

Vimos também nestas eleições, a derrota dos centristas políticos (representados por Sichel e Provoste), o auge dos discursos mais radicais e articulados a partir de um slogan simples, mas potente (Parisi). Diante deste panorama, a existência de uma “esquerda” burguesa liberal representada em essência pela Frente Ampla, questionada, fraca e com casos de corrupção nas suas costas, vista como um “mal menor”. Esta esquerda liberal é incapaz de compreender a realidade, e apenas retroalimenta o setor reacionário. Existem aqueles que votam por Boric, para que não saia vitorioso Kast.

Por outra parte, nosso setor patriota, popular e desenvolvimentista é capaz apenas de mobilizar a pouco mais de um por cento do eleitorado, e devemos nos responsabilizar de essa realidade para conseguir traçar estratégias reais e eficientes. Nesta batalha ainda falta muito desenvolvimento, e a crise ainda não atingiu o fundo do poço. É preciso repensar, por exemplo, a estratégia dentro de um mundo em que existe a mass media, a disputa da hegemonia e a elaboração de respostas fundamentadas para resolver as problemáticas do país. A continuidade do neoliberalismo, apenas aumentou a miséria, a usura nacional e internacional das riquezas do país, a exploração dos trabalhadores e o fomento da irracional e fratricida cultura da competência e meritocracia, o ilusório sucessismo otimista e o individualismo, além da permanência da oligarquia política e econômica. Aquele parâmetro, apenas trará como resposta a existência de mais choques sociais e aumento da organização popular. São estes os cenários que devem ser antecipados e previstos.

Luis Bozzo

Escritor chileno dissidente e membro do Círculo Patriótico de Estudios Chilenos e Indoamericanos.

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