Pós-humanismo. A abolição do homem?

Diariamente encontramos novos avanços tecnológicos que aparentam ser facilitadores e ajustadores de nossa realidade. Não só aparelhos tecnológicos e robôs para nossas casas, carros e estabelecimentos, mas já presenciamos alterações tecnológicas sendo feitas em seres humanos. Pós-humanismo, transumanismo, alterações genéticas e tecnológicas? O que pretendem as elites pós-modernas no que se refere ao homem contemporâneo e quais são os planos para o futuro da humanidade?

Por Roberto Pecchioli

Para analisar o que está acontecendo ao nosso redor com alta probabilidade de sucesso, precisamos voltar ao fundador da ciência política , Niccolò Machiavelli (Nicolau Maquiavel). É necessário observar com certa “distância”, como escreveu várias vezes o secretário florentino – ou à distância, para encontrar a “realidade real”, e dos fatos “extrair sentido”.

O princípio foi enunciado por Jesus em uma parábola:

“Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de ervas daninhas? De modo semelhante, toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins. A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão!”
(Mateus 7:15-20)

A árvore dos mestres da pós-modernidade produz frutos tóxicos, geneticamente modificados em nome de um plano de desconstrução do homem que atingiu o estágio final. Mais de cinquenta anos de desconstrução, culminando na negação aberta do real: homem e mulher são construções culturais; não há dimorfismo sexual; a maternidade não é atribuída às mulheres por natureza; transcendência, espiritualidade e fé religiosa são resíduos da ignorância; a família é uma prisão; os papéis masculino e feminino não existem, exceto como imposições de poder. O objetivo do homem é a utilidade imediata de suas ações; a sociedade de mercado é a única forma de organizar as relações socioeconômicas; os doentes, os idosos, os deprimidos podem escolher morrer; tem todo o direito de se recusar a reproduzir a espécie humana; quem quer filhos pode “produzir” ou tecnicamente encomendá-los em qualquer idade, independentemente da presença de um pai e de uma mãe, classificados por números: pai um e dois (mas também três e quatro, a tecnologia pode fazer tudo).

Sem essas e outras mentiras, que mudaram profundamente a perspectiva de vida das massas ocidentais, hoje não seria possível o imenso poder coercitivo que conduz ao Grande Reset, à ditadura tecnossanitária, à vigilância total: a formatação da criatura humana segundo planos concebidos por uma estreita oligarquia. Há razão para pensar – com base em fatos e ações – que o objetivo final é a abolição do homem e sua substituição por um techno-Frankenstein altamente aperfeiçoado em comparação com o monstro de Mary Shelley.

Vamos analisar algumas declarações de expoentes da classe poderosa: para Karl Schwab, presidente do Fórum de Davos, pontífice do Grande Reset, “Os governos adquirirão novos poderes tecnológicos para aumentar o controle sobre as populações, com base em sistemas de vigilância abrangente e controle de infraestruturas digitais”. Você não terá nada e será feliz, dizem. Provavelmente porque você não será mais um ser humano.

Nós olhamos para longe e vemos destacar-se no horizonte o cenário de um governo mundial determinado a aplicar as mais refinadas técnicas de controle psicológico e físico aplicadas à repressão. Os Estados são o braço secular, os assassinos de um princípio cada vez mais visível: a oligarquia universal, dona do dinheiro e da tecnologia, bem como da “narrativa” para o uso dos povos.

Uma cúpula onipotente, como nunca antes vista na história (não por acaso, matéria retirada dos estudos), está impondo a submissão máxima: aquela que inclui a disponibilidade do corpo físico. Se trata de nada menos do que confiar toda a vida a uma tecnocracia que se sente autorizada a não dar explicações, liberada da obrigação do debate racional. Somos seus fantoches: viver é um defeito. Deixamos um rastro orgânico; poluímos pelo fato de existir; somos um vírus em potencial uns dos outros. A mensagem é: humanos, vocês são muitos, demais e você é apenas um a mais. Oligarquias para povos supérfluos. Do drone ao passe, do rastreamento com pretexto sanitário ao perfil psicológico, emerge uma civilização de controle total. Vivemos em um clima pré-totalitário.

É imposto a nós uma identidade digital fornecida com um código QR (esta é a finalidade do passaporte de vacinação, a primeira etapa do perfil ilimitado);
devemos obrigatoriamente nos equipar com SPID (Sistema Pubblico di identità Digitale), a chave de acesso informática para toda a gama de serviços de vida social; teremos no bolso cartões magnéticos para os mais diversos usos, sendo o mais importante deles a reposição de dinheiro, que permite o controle remoto do nosso dinheiro e do nosso consumo. Em breve, por motivos sanitários, vamos clamar bem alto que o princípio de implantar chips subcutâneos é bom, justo e correto. O poder tornou-se biopoder, um dispositivo para dominar a vida. O homem não é apenas antiquado diante do desdobramento do poder tecnológico, mas inútil, supérfluo, uma criatura cujas características e atitudes naturais são alteradas progressivamente. Estamos nos tornando, pela vontade dos mestres universais, pós-humanos.

Os astutos servos da oligarquia chamam isso, modestamente, de transição digital, sem nos dizer quais os riscos o ser humano corre e quais ligações existem entre o estado de exceção, restrições de liberdade elementares devido à crise pandêmica, ambições biotecnológicas e uma mudança no conceito de homem. Para Vittorio Colao, tecnocrata e ministro, “será possível conectar tudo e ter um controle remoto de todos os controles (até) dos sistemas médicos, então, ter em tempo real as condições de uma pessoa e injetar ou talvez liberar uma substância médica que seja necessária para as condições de saúde; ou seja, você pode fazer tudo remotamente, quase instantaneamente.”

Roberto Cingolani, seu antecessor, acrescenta: “Podemos fazer um robô que funcione dentro do corpo humano? Um anticorpo artificial é um objeto inteligente bem pequeno capaz de viajar no corpo humano, encontrar a célula doente e liberar aí o remédio que necessário, ou mesmo transcrever a correção para a sequência genética que queremos transcrever. Portanto, é uma ambição infinita por trás dessa tecnologia”.

Stefano Panzeri, pesquisador, é ainda mais claro: “Pequenos interruptores são introduzidos com técnicas genéticas, proteínas que podem ser ativadas e, portanto, podem ligar ou desligar o neurônio, enviando pequenos feixes de luz, dessa forma os neurônios são induzidos a dizer o que queremos que eles digam. Somos capazes de gerar uma sensação virtual onde não há realmente o objeto que você deseja representar “. Homem virtual.

Questões direcionais, decisivas para o futuro da espécie, não são mais discutidas. “Então lá, onde podem fazer o que quiserem, e não pedir mais nada”. O conhecimento, a moralidade, a política como ciência do bem comum são obsoletos. A futura humanidade pós-humana tem o caminho traçado: nenhum debate é permitido. As categorias de bem e mal são removidas. O que Martin Heidegger chamou de gestell – implante – o invólucro que tudo abarca da ciência e tecnologia, conhecimento que “não pensa”. Não porque não usa o pensamento, mas porque, em consequência de seu modo de proceder, não raciocina como o “pensamento meditativo”, cuja abolição é uma das características mais desconcertantes do presente.

Perturbador – advertiu Heidegger já em meados do século XX – não se trata apenas do mundo se transformar em um domínio completo de tecnologia. Mais sério é que o homem não está preparado para essa mudança radical, que não é capaz de alcançar, por meio de um pensamento meditativo, uma comparação adequada com o que realmente está surgindo em nossa época.

A lei de Gabor, enunciada pelo inventor da holografia, ensina que o que pode ser alcançado tecnicamente, terá quem o colocará em prática. Para pressionar o homem das ruas a se tornar pós-humano, por meio de implantes neurais, será levado ao paroxismo a esperança de superar a doença e estender o prazer. O resto será feito pela ânsia do lucro, pelo desejo de poder e pela hybris (arrogância), pelo excesso.

Matrix é a distopia da ficção científica dos irmãos Wachowski de 1999, uma época que parece muito distante. No filme há um diálogo iluminador: “O que você quer dizer com real? Dê-me uma definição de real. Se você está se referindo ao que percebemos, ao que podemos cheirar, tocar, saborear e ver, esses sinais ”reais” são simples sinais elétricos interpretados pelo cérebro. Este é o mundo que você conhece: o mundo como era no final do século XX e que agora existe apenas como parte de uma neurossimulação interativa que chamamos de Matrix.”

Já é, em parte, o nosso presente: com os avanços da inteligência artificial, a tecnologia da informação que revoluciona a maneira como o homem interage com a máquina e como as máquinas interagem entre si. A inteligência artificial fornece a um robô qualidades computacionais que lhe permitem realizar ações, operações e “raciocínios” complexos, em um piscar de olhos, que até recentemente eram características exclusivas do ser humano. A inteligência artificial possibilitará à máquina aprender com os erros, realizar funções que até agora eram exclusivas do intelecto humano. Os robôs agora fazem parte do presente.

Recentemente, fomos apresentados ao Tesla Bot, o robô humanóide de Elon Musk, mega-bilionário e membro da oligarquia tecnocientífica. É uma máquina de aparência humana com 175 centímetros de altura e 56 quilos de peso, capaz de caminhar, carregar cargas e levantar pesos. “O bot vai ser bom, vai eliminar tarefas perigosas, repetitivas e chatas”, diz Elon Musk. Ele se moverá no espaço com quarenta motores; graças a câmeras e sensores montados na cabeça e no tronco, ele será capaz de reconhecer obstáculos. A comunicação entre robôs e humanos será empática: o “rosto” do robô é uma tela na qual aparece um rosto humano estilizado com a possibilidade de várias expressões, ao lado de informações escritas.

A ciência cibernética vem trabalhando, há algum tempo, na hibridização do homem-máquina. A sigla IOT, Internet of the Things, Internet das coisas, designa um mundo tão novo que obscurece a rede tradicional: todo tipo de objetos que se conectam à Internet, lâmpadas “inteligentes”, chaveiros com localizadores, sensores na geladeira e mil outros, a começar pelas Smart TVs que podem virar gravadores.

Tudo vai na direção da primazia da máquina e da tecnologia sobre o homem, relegado a um papel secundário, um desdobramento, um elo fraco no aparato técnico. Essas mudanças rápidas e massivas, “disruptivas” ou perturbadoras, geraram a ideologia do transumanismo, cujo símbolo é h + (homo plus, homem mais). O transumanismo é um movimento que, através do uso sistemático e ilimitado das descobertas científicas e tecnológicas, defende o advento de uma era em que a máquina seja capaz de melhorar as condições físicas e cognitivas do homem, a ponto de abolir o envelhecimento, a doença e até a morte, em vista de uma transformação pós-humana. O termo foi cunhado por um estranho jesuíta, Pierre Teilhard de Chardin, autor de um hino desconcertante para a matéria: “Bendita sejas Tu, Matéria universal, duração infinita, éter sem margens, abismo triplo de estrelas, átomos e gerações, tu que excedendo e dissolvendo nossas estreitas medidas nos revelam as dimensões de Deus”.

O transumanismo foi teorizado em 1957 por Julian Huxley em New bottles for a new wine (Novas garrafas para um vinho novo), para descrever o homem que se transcende a fim de guiar o processo evolutivo. Mais recentemente, foi reelaborado por Max More como uma “filosofia que busca nos guiar para uma condição pós-humana”. De acordo com o especialista em inteligência artificial Robin Hanson, é a ideia de que as novas tecnologias mudarão o mundo a tal ponto que nossos descendentes não serão mais humanos em muitos aspectos.

Não se pode dizer que eles não falam claramente. O pós-humanismo, destinado a conduzir ao transumanismo, é a ideologia e o objetivo prático da oligarquia dominante no mundo ocidental (você reconhecerá os frutos!).

Se é verdade, como escreveu Carl Schmitt, que toda ideologia é uma teologia secularizada, podemos concluir que a teologia dos mestres da globalização é o pós-humanismo, um princípio tecnocrático totalitário que visa transformar o homem em uma criatura profundamente diferente daquela que conhecemos. Tememos que C.S. Lewis, anunciando a abolição do homem, tenha atingido a marca. Alguns homens lançaram um desafio mortal à natureza para conquistá-la e subjugá-la, mas seus sucessos não aumentaram a felicidade nem deram poder a outros homens.

O poder do homem sobre a natureza é o domínio de alguns homens sobre outros homens. Escreve C.S. Lewis: “Cada geração exerce poder sobre seus sucessores: cada uma, na medida em que modifica o ambiente transmitido aos homens daquela geração e se rebela contra a tradição, resiste e coloca limites ao poder de seus antecessores. A conquista da Natureza pelo Homem, se os sonhos de alguns planejadores científicos se tornassem realidade, corresponderia ao domínio de algumas centenas de homens sobre bilhões de outros homens ”.

A humanidade – Lewis escreveu em 1943 – permanece à mercê de uma pequena minoria de “planejadores” e “mediadores” , armados com os poderes de um estado onipotente e uma técnica científica irresistível. “Teremos uma corrida de mediadores que podem realmente moldar a posteridade nas formas que quiserem.” Uma raça separada que se coloca além do bem e do mal, agindo com base na vontade absoluta.

Sua vontade é seu único credo. O resultado, a conquista final, é revelado com a abolição do Homem por sociopatas que “sacrificaram sua parte da humanidade para se dedicarem à tarefa de decidir em que sentido atribuir ao futuro à palavra humanidade”.

Se isso for verdade, se o objetivo da oligarquia pós-humana é construir um mundo alheio à ordem natural, seu caos, sua destruição criativa é um totalitarismo mais terrível do que todas as ditaduras do passado.

Fonte: Ereticamente
Tradução: Lucas Ariotti – NR-PR

Roberto Pecchioli

Ensaísta e escritor.

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