Gramsci e a “guerra cultural”

Olavo de Carvalho e sua trupe sempre gostaram de demonizar a figura de Antonio Gramsci como uma espécie de revolucionário identitário, no sentido pós-moderno. No entanto, a história, seu caráter e a relação com a figura de G. K. Chesteron revelam um Gramsci consideravelmente diferente, e bastante fecundo intelectualmente para um pensamento tradicional e revolucionário.

O assunto fervente de semana passada (Maurício Souza e DC) de alguma maneira impulsionou discussões sobre “Guerra Cultural” (onde alguns estavam negando escancaradamente a existência e outros – no mínimo – relativizando seus efeitos).

Mesmo se assumirmos uma postura “anti-seita olavista”, ainda assim pode ser bem perigoso combater os surtos coletivos desse nicho com palpitagem e sem se aprofundar nas obras do velho. Acima de tudo, deve-se levar em conta que Olavo é um autor cíclico (que até a década se 1990 ainda detonava os imperialismos ianque e sionista, por exemplo), de maneira que ainda hoje ele continua se apropriando convenientemente de pensamentos dos muitos autores que já “fez a caveira” e incentivou os membros da seita a fazerem o mesmo (claro que com um pacote conveniente e egocêntrico de propósitos no meio de tudo isso da parte de OdC).

Um autor bastante demonizado por Olavo e pela turma olavética, mas que serve como exemplo de apropriação conveniente é o próprio Antonio Gramsci (xingado avulsamente por qualquer neodireitista médio que tenha caído em alguma conversa fiada sobre ele). E a noção de “Guerra Cultural” não é inventanda arbitrariamente pelos Olavistas como muitas teorias conspiratórias, Olavo se apropriou do que Gramsci produziu acerca de Hegemonia Cultural (claro, adaptando às suas pretensões culturais de viés neoconservador).

O que ficou menos claro quando Gramsci tratou sobre essa questão é o fato de que sua divergência com Marx não tinha a ver com questões Identitárias. Tem sempre aquele espantalho do neodireitista em atribuir ao Gramsci aquele mesmo repertório ideológico que vemos na Vanguarda Pós-Estruturalista contra o Marxismo Ortodoxo, simplesmente pelo emprego do conceito de “revolução passiva” em seu pensamento. Uma coisa nada a ver, porque Gramsci sequer denunciava o que se chama de “revolução ativa” (uso de métodos coercitivos pelo Estado em prol da revolução) como equívoco por si – mas simplesmente se afastava dos marxistas no pensamento limitado de que o Estado era tão somente um mecanismo de aparato político ao invés de algo mais abrangente (enxergando também seu papel no estabelecimento de uma ideologia originada de valores tradicionais e populistas preservados na sociedade). Conforme a mentalidade de Gramsci, era importante que a revolução também compreendesse questões sociais, culturais, ideológicas, tradicionais e até mesmo religiosas (sim, diga-se de passagem, Gramsci era católico romano e aparentemente tinha apreço pela Doutrina Social da Igreja) – formando em todo esse conjunto, o famoso “senso comum”.

Além disso, não há nada na obra de Gramsci que o ateste como um progressista ou como autor preocupado com questões identitárias aos moldes do Pós-Modernismo. Muito pelo contrário, ele admirava G. K. Chesterton publicamente – um autor conservador amplamente conhecido e reverenciado entre Tradicionalistas, Conservadores Revolucionários – e até mesmo por Neoconservadores e Liberais Conservadores – esses últimos que vivem de forçar um Chesterton Imaginário que seria supostamente Burkeano ou Proto-Olavista inclusive. Mas como vemos nesse trecho:

“Querida Tânia,

Fiquei contente com a vinda de Carlo. Ele me disse que você esta se restabelecendo bem, mas gostaria de ter notícias mais precisas sobre suas condições de saúde. Agradeço-lhe por tudo o que me mandou. Os dois livros ainda não me foram entregues: a biografia fascista e as novelas curtas de Chesterton que lerei de bom grado e por duas razões. Primeiro, porque imagino que sejam interessantes pelo menos quanto à primeira série, e, segundo, porque procurarei reconstruir a impressão que deve ter causado sobre você. Confesso-lhe que este será meu maior deleite. Recordo exatamente o seu estado de espírito ao ler a primeira série: você estava disposta de maneira feliz para receber as impressões mais imediatas e menos complicadas dos sedimentos culturais. Nem sequer chegava a perceber que Chesterton escreveu uma delicadíssima caricatura das novelas policiais mais que novelas policiais propriamente ditas. O padre Brown é um católico que zomba do modo mecânico de pensar dos protestantes e o livro é fundamentalmente uma apologia da Igreja Romana contra a Anglicana. Sherlock Holmes é o policial “protestante” que encontra o fio da meada do crime partindo do exterior, baseando-se na ciência, no método experimental, na indução. O padre Brown é o sacerdote católico que através de refinadas experiências psicológicas fornecidas pelas confissões e pela trabalhada casuística moral dos padres, embora sem menosprezar a ciência e a experiência, mas baseando-se especialmente na dedução e na introspecção, supera Sherlock Holmes em cheio, fazendo-o aparecer como um rapazola pretensioso, revelando sua angústia e mesquinhez. Por outro lado, Chesterton era um grande artista, enquanto Connan Doyle era um escritor medíocre, ainda quando elevado a baronete por méritos literários; por isso existe em Chesterton um distanciamento estilístico entre o conteúdo, o enredo policial e a forma, portanto, uma sutil ironia em relação à matéria tratada que torna mais saborosas as narrações. Não acha? Recordo que você lia estas novelas como se fossem crônicas de fatos verdadeiros e se identificava até ao ponto de exprimir uma franca admiração pelo padre Brown e por sua argúcia maravilhosa de modo tão ingênuo que me divertia extraordinariamente. Não vá se ofender, porque nessa diversão havia uma ponta de inveja por esta sua capacidade de puro e fresco impressionismo, por assim dizer.

Abraço afetuosamente.

Antônio Gramsci”[1]

Aqui, alguns poderiam dizer se tratar de um “elogio vago” e “sem compromisso”. Mas a verdade é que Gramsci, de fato, era simpatizante de um Conservadorismo Revolucionário ou no mínimo Chestertoniano (no sentido apropriado do termo, obviamente). Como foi dito anteriormente: Gramsci também era um católico romano que não demonstrou ressalvas quanto aos valores/costumes de sua moralidade religiosa. Era profundamente influenciado por Dante Alighieri e rejeitava o materialismo e as pautas principais dos identitários progressistas. Também pode ser dito que ele possuía divergências com certos setores do PCI na Itália e não foi plenamente alinhado à Esquerda Política, como um Lenininsta-Independente que era.

Enfim, é um autor ainda muito obscuro – não só pelas trapaças olavistas, como também por abordagens na academia que deixam a desejar (academia que de Marxista não tem nada majoritariamente falando mesmo em ciências sociais, mas convenhamos que qualquer corrente aliberal ou a neoconservadora será naturalmente tratada como esquerdista e portanto marxista pelos zumbis reversos de plantão que duelam de igual com os progressistas que veem fascismo até debaixo da própria cama). Embora não defenda um uso discriminado do mesmo, vale a pena conhecer o verdadeiro Gramsci e não cair em espantalhos neodireitistas (tal como não se deve cair em espantalhos neoesquerdistas sobre Evola).

E quanto à Guerra Cultural, não é delírio olavista. Ela existe e a única motivação para negá-la além da ingenuidade é a dissimulação. Os próprios liberais também sabem perfeitamente que ela existe, mas o negacionismo partindo deles é benéfico e no fim das contas serve como uma ferramenta para distrair divergentes ou combatentes de sua hegemonia. Além, claro, de haver também uma certa pitada de frustração pelo fato de a vontade popular prevalecer contra interesses cosmopolitas – obrigando os Liberais trabalharem com ferramentas heterodoxas para os padrões gramscianos, sufocando o pensamento popular com introdução de pautas de uma minoria plutocrata por meio de métodos tirânicos e extorsivos (o caso Mauricio Souza fica registrado como um dos mais recentes exemplos, mas existem vários e certamente não para por aí).

Aquilo que vem se convencionando chamar não-ironicamente de “Olavismo Cultural” é de fato a “Vinland” que o guru e os neoconservadores desejam alcançar. Começando primeiro na própria Direita – tentando eliminar todas as variantes possíveis de Direitismo Não-Olavista – depois para mais além, usando Gramsci como muleta sem ceder os devidos créditos. E no fim das contas, não há equívoco nos conceitos gramscianos de metapolítica e hegemonia cultural – também não há inverdade em dizer que existe Guerra Cultural e todo o seu caráter político/ideológico. O desvio relacionado a isso se dá, na verdade, com o modo que Olavo, liberais, progressistas e demais embusteiros administram esse método em causa própria. É um problema essencialmente de conteúdo e não de instrumento.

Notas

[1] Cartas do Cárcere. Em: GRAMSCI, Antonio. Cartas do carcere. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1987. p. 168-169

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