O Capitalismo Financeiro (Parte IX) – O Capitalismo Financeiro ao Ataque contra o Meio Ambiente

A financeirização da existência humana leva à financeirização da natureza. E nem mesmo ONGs supostamente dedicadas à preservação do meio ambiente escapam a essa lógica. A agricultura deixa de ter como função alimentar e vira mero processo de extração de lucro. Todas as espécies animais e vegetais são relevantes apenas na medida de sua capacidade de gerar dinheiro. Em paralelo, a vida humana vale cada vez menos.

Finalmente, a irracionalidade do capitalismo financeiro em relação à natureza e aos ecossistemas merece uma discussão à parte. Segundo Gallino, o capitalismo financeiro tem aplicado o conceito de exploração de recursos naturais. Na prática, porém, a valorização tem assumido principalmente a forma de derrubar florestas e transformar recursos renováveis em recursos não renováveis, que na realidade são explorados até o ponto do egotamento.

Com quase nenhuma exceção, os projetos de valorização têm um componente financeiro significativo. A maioria desses projetos está em países emergentes que não teriam os meios econômicos para realizá-los eles mesmos, mas é preciso considerar também a enorme pressão que o sistema exerce sobre os governos dos países emergentes para implementar projetos de valorização. O paradoxo no qual o modelo contábil do capitalismo financeiro está enredado é que a criação de riqueza financeira, obtida a partir da chamada valorização dos recursos naturais, é na realidade amplamente compensada pela destruição permanente da riqueza ecológica do planeta (estoques de peixes, florestas e outros biomas ameaçados de extinção).

O capitalismo financeiro está liderando um assalto global ao sistema agroalimentar mundial. O objetivo não é fornecer ao mundo alimentos melhores e mais seguros, mas sim extrair valor e lucro deste setor. Um dos fatores mais importantes neste fenômeno é sem dúvida a formação de monopólios e oligopólios através de ondas de fusões e aquisições de empresas concorrentes que controlam completamente o mercado de alimentos básicos. Em tais operações, o papel motor e não apenas auxiliar das finanças é de importância decisiva. Ao descer na cadeia do sistema agroalimentar, observa-se que um quarto do mercado mundial de alimentos e bebidas embalados é controlado por apenas uma dúzia de empresas, como Nestlé da Suíça, Kraft dos Estados Unidos, Unilever da Holanda e Danone da França.

A investida do capitalismo financeiro levou a enormes distorções no sistema agroalimentar que causaram enormes danos ao meio ambiente e às populações locais: por meio da transição para monoculturas vastas e extensas, o capitalismo financeiro destruiu grande parte da agricultura tradicional, reduzindo drasticamente a biodiversidade das plantas alimentícias com os riscos resultantes para as futuras colheitas, e aumentou a poluição e a cimentificação. Vários trilhões de dólares e euros foram investidos em hectares de produção extensiva tecnologicamente avançada, com uma participação crescente de OGMs, com o resultado de que a situação alimentar do planeta, ao contrário das previsões, piorou consideravelmente.

Em última análise, o capital vivo, ou seja, o capital extraído da natureza e dos recursos humanos da terra, abrange muitos aspectos da existência: a extensão e a qualidade dos tempos livres, a qualidade do trabalho, a harmonia da vida familiar, a taxa de emprego, o tempo gasto na rota casa-trabalho, o número de acidentes de trabalho, a taxa de pobreza e a conservação e proteção dos ecossistemas ambientais. Em todos os países desenvolvidos, estes aspectos da vida se deterioraram desde os anos 60, enquanto os ativos financeiros cresceram incessantemente em benefício de poucos. Além disso, as desigualdades econômicas, exacerbadas pelo capitalismo financeiro, são hoje simplesmente ultrajantes.

À luz destas considerações, um sistema econômico complexo pode ser considerado sólido quando a possível disfunção de um componente permanece localizada e não se transfere rapidamente para outros. O sistema financeiro atual, por outro lado, parece ter sido construído exatamente segundo critérios opostos e parece estar marcado por uma fragilidade intrínseca: devido a esta fragilidade intrínseca, a megamáquina social chamada capitalismo financeiro é, na opinião de Gallino, o maior gerador de insegurança social e econômica que o mundo conheceu até hoje e é um poderoso fator de degradação da civilização-mundo como um todo.

Fonte: Osservatorio Globalizzazione

Artigos Precedentes

O Capitalismo Financeiro (Parte I) – Capitalismo Financeiro Definido
O Capitalismo Financeiro (Parte II) – As Estruturas do Capitalismo Financeiro
O Capitalismo Financeiro (Parte III) – Ascensão e Queda do Neoliberalismo
O Capitalismo Financeiro (Parte IV) – A Grande Crise e o Fracasso do Neoliberalismo
O Capitalismo Financeiro (Parte V) – Esquerda e Neoliberalismo: O Abraço Mortal
O Capitalismo Financeiro (Parte VI) – Os Pressupostos Teóricos do Capitalismo Financeiro
O Capitalismo Financeiro (Parte VII) – A Feitiçaria Econômica dos Especialistas
O Capitalismo Financeiro (Parte VIII) – A Solidão do Homem Econômico

Giuseppe Gagliano

Bacharel em Filosofia ela Universidade de Milão, Presidente do CESTUDEC (Centro para Estudos Estratégicos Carlo De Cristoforis).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *