A Crise do Caribe

Em rápida sucessão, o presidente do Haiti foi assassinado e uma aparente revolução colorida se iniciou em Cuba. A maioria dos analistas não traçou qualquer conexão entre os eventos, mas esses eventos, além do cerco à Venezuela, indicam um novo impulso estadunidense no Caribe.

Em 7 de julho, um comando de mercenários atacou a residência do presidente haitiano Jovenel Moïse. De acordo com declarações feitas por alguns dos envolvidos no ataque (sobre o qual ainda há muita obscuridade, especialmente em termos de lacunas no sistema de segurança, já que estranhamente nenhum membro da guarda presidencial foi ferido no encontro), o objetivo original era raptar o Presidente. Em vez disso, a operação terminou com seu assassinato e o ferimento de sua esposa.

Nas horas seguintes ao ataque, a polícia haitiana alegou que o pastor evangélico Christian Emmanuel Sanon, natural do Haiti, mas residente na Flórida há várias décadas, era o idealizador da operação. De acordo com o New York Times, Sanon alegou ter sido nomeado por Deus (e pelos EUA) para substituir Moïse e mudar seu país, começando com a substituição da língua francesa pelo inglês.

Com este objetivo preciso, diz-se que Sanon recrutou um grupo de mercenários através da empresa CTU Security, que tem sua base na Flórida e é dirigida pelo ‘refugiado’ venezuelano Antonio Emmanuel Intriago Valera. O comando era composto por 28 homens: 26 colombianos (a maioria ex-soldados) e dois americanos de origem haitiana. Muitos desses homens, de acordo com a admissão do Departamento de Defesa dos EUA, receberam treinamento nos Estados Unidos enquanto ainda faziam parte do exército colombiano. Alguns deles, além disso, parecem estar estreitamente ligados à DEA e ao FBI[2].

Após o assassinato do presidente em exercício, parte do comando teria penetrado no perímetro da embaixada de Taiwan, onde a polícia prendeu pelo menos onze deles. Mais uma vez, não está claro exatamente como os mercenários conseguiram se aproximar da embaixada e entrar nela sem nenhuma dificuldade particular. No entanto, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Taiwan, Joanne Ou, sugeriu que o pessoal diplomático teria imediatamente notificado a polícia quando os membros dos comandos entraram no prédio. Resta saber por que os mercenários escolheram procurar abrigo lá.

Neste sentido, vale a pena lembrar que o Haiti é um dos 17 países que mantém relações diplomáticas plenas com Taiwan. O papel do que Pequim define em termos de uma “província separatista” não deve de forma alguma ser subestimado no caso do Haiti. Como repetidamente relatado nas páginas da “Eurasia”, o fortalecimento da cooperação comercial entre os Estados Unidos e Taiwan tem sido o cavalo de batalha da administração Trump nos últimos meses. A escolha pelo novo Presidente Joseph R. Biden para Conselheiro de Estratégia Indo-Pacífico, Kurt M. Campbell, (já teórico do Pivô para a Ásia de Obama) reiterou a necessidade de continuar na mesma direção que Mike Pompeo[3].

Os separatistas taiwaneses também têm uma história de estreita colaboração com a seita conhecida como Falun Gong (definida como “um instrumento de ataque contra a China” em um interessante artigo do vice-diretor de “Eurasia” Stefano Vernole)[4], que por sua vez está intimamente ligada aos evangélicos norte-americanos e ao grupo QAnon[5].

Aqui não queremos entrar no mérito das acusações de corrupção e má administração dos assuntos públicos dirigidas ao falecido presidente haitiano. Estas considerações dizem respeito àqueles que lidam com jornalismo geopolítico (um campo no qual a informação italiana está agora saturada). O que é de interesse para os fins desta análise é notar o fato de que, desde 2018, numerosos artigos apareceram na mídia referindo-se mais ou menos diretamente ao governo de Taiwan, nos quais foi formulada a hipótese de que a República Popular da China está tentando enganar os aliados da “província separatista”, garantindo-lhes empréstimos sem juros. Além do exemplo de países como Burkina Fasso, El Salvador e República Dominicana (que recentemente abandonaram os laços diplomáticos com Taiwan em favor de Pequim), o Haiti é claramente mencionado nestes artigos[6]. O jornal pró-Ocidente “South China Morning Post”, por volta da mesma época, apresentou a hipótese de que o Presidente Moïse (no cargo desde 2017), interessado nos projetos da Nova Rota da Seda, estava até mesmo pronto para a súbita reversão da abordagem diplomática tradicional haitiana em relação a Taiwan[7].

Neste ponto, não deve ser surpresa que, há apenas alguns dias, vários membros do Congresso americano acusaram abertamente a China de interferir na política interna do Haiti e também afirmaram que esta interferência está se espalhando rapidamente por toda a bacia do Caribe[8].

Além da habitual hipocrisia daqueles que operam militarmente nos mares de outros, mas reivindicam controle absoluto sobre áreas próximas a suas próprias costas, tal perspectiva, em termos geopolíticos, não pode deixar de ser considerada uma ameaça existencial pelos Estados Unidos. De fato, desde a época da Doutrina Monroe e das teorias do Almirante Alfred T. Mahan sobre a influência do poder marítimo na história, a bacia do Caribe, com o Golfo do México, tem sido considerada pelos estrategistas norte-americanos como o “Mediterrâneo dos Estados Unidos”: um espaço marítimo no qual nenhuma ameaça à hegemonia norte-americana pode ser tolerada (nenhuma outra potência pode operar dentro dele com impunidade). Os exemplos mais óbvios desta suposição foram a crise dos mísseis cubanos dos anos 60 e a tentativa fracassada de invasão na Baía dos Porcos (também então através de um entrelaçamento de serviços secretos, “dissidentes” e grupos de crime organizado sediados na Flórida). Um exemplo mais recente é a tentativa de impor um bloqueio naval à Venezuela bolivariana.

A Doutrina Monroe, formulada em 1823, merece um breve exame porque muitas vezes é objeto de desentendimentos flagrantes. O que é historicamente considerado uma manifestação do isolacionismo norte-americano, é na verdade a primeira formulação programática do imperialismo americano, especialmente quando passou de uma doutrina aplicável a um “grande espaço” geograficamente definido para tornar-se, com Wilson, um princípio universalista válido para o mundo inteiro. Hoje, a posição isolacionista é sustentada sobretudo por aqueles que pensam em um fortalecimento interno como condição e premissa indispensável para uma nova projeção externa de poder. Isto, por exemplo, é o que trumpismo tentou fazer, enganando até mesmo alguns ingênuos (esperançosos) eurasianistas que tentaram construir uma aliança tática com o trumpismo.

Apesar da retórica do “America is back”, esta estratégia é a mesma que a administração Biden está tentando seguir (embora com palavras de ordem diferentes). O objetivo, de fato, é o de uma reconstrução da coesão social interna e de uma “normalização” do “quintal” em vista de um confronto próximo e talvez decisivo com as forças da Eurásia, a fim de evitar o que parece ser, de qualquer forma, uma evolução inevitável da ordem global em direção à multipolaridade.

A preocupação com a normalização do “quintal” caracterizou em grande parte a era Trump. Este processo, de fato, foi visto pela administração anterior como menos dispendioso do que as operações extracontinentais. O sucesso na desestabilização das realidades mais hostis aos EUA na região (Cuba, Nicarágua e Venezuela em primeiro lugar) também foi visto como útil em vista da campanha eleitoral de 2020. Esta abordagem, em linha com a habitual continuidade geopolítica entre as administrações norte-americanas, foi herdada da infame Doutrina Cebrowski-Rumsfeld, visando eliminar todas as entidades estatais não diretamente sujeitas à hegemonia norte-americana em duas áreas muito específicas: o Oriente Próximo e Médio e o Mar do Caribe.

Com base nessas premissas, o Almirante Kurt W. Tidd elaborou em 2018 uma doutrina precisa para a desestabilização da Venezuela (“ditadura de esquerda que infecta toda a região”) construída sobre alguns pontos precisos: agravar a insatisfação popular através do aumento dos preços e da escassez de bens de primeira necessidade (alimentos e medicamentos); favorecer e aumentar a instabilidade interna[9].

Tal estratégia é a mesma que vem sendo utilizada há várias décadas, através do embargo econômico, contra Cuba, que hoje se encontra no centro de uma nova tentativa de desestabilização.

O caso cubano é bastante complexo e, neste contexto, não queremos negar que existem alguns fatores críticos dentro do sistema da ilha. No entanto, o que tem sido a estratégia norte-americana para Cuba, renovada com mais de 200 novas medidas restritivas impostas pela administração Trump, pode ser bem resumido nas palavras do diplomata norte-americano Lester Mallory, pronunciadas já nos anos 60: “A única maneira de obter apoio interno (de Fidel e da Revolução) é através da decepção popular e da insatisfação que surgem do mal-estar econômico […] Devemos empregar rapidamente todos os meios possíveis para debilitar a vida econômica de Cuba […] um curso de ação que, sendo o mais hábil e discreto possível, obtém as maiores vantagens através da privação de dinheiro para sustentar salários reais, causa fome, desespero e a possível queda do governo”.

Este escritor tem argumentado repetidamente que o Covid-19, independentemente de sua origem, ainda pode ser usado como uma arma (mesmo que apenas em termos de propaganda). Os protestos cubanos, de fato, teriam surgido após um rápido (e bastante suspeito) aumento do número de casos na ilha. Uma novidade substancial se considerarmos que Cuba, durante todo o primeiro ano da pandemia, conseguiu manter os contágios e mortes sob controle e até mesmo desenvolver duas vacinas (Soberana 02 e Abdala) que parecem ter uma eficácia considerável contra o vírus.

Além da geopolítica vacinal (o “Ocidente”, a terra da competição capitalista, liderada pela América do Norte, não admite concorrentes em um momento da história em que é necessário reagrupar-se), não se deve ignorar o fato de que em maio deste ano, na esteira do Plano Conjunto de Cooperação 2021-2026 para a implementação do Memorando de Entendimento entre o Governo da República de Cuba e a Comissão Econômica Eurasiática de 31 de maio de 2018, Cuba havia ratificado uma disposição para estabelecer uma cooperação efetiva com os países da União Econômica Eurasiática: um projeto que, a longo prazo, poderia desatar a ilha do laço do embargo norte-americano[10].

Escusado será dizer que no discurso anunciando esta ratificação, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel Bermudez denunciou abertamente as repetidas tentativas ocidentais de desacreditar e desestabilizar a Bielorrússia, incluindo a tentativa de assassinar seu presidente Aleksandr Lukashenko.

Para dizer a verdade, e em apoio parcial à tese sobre a “espontaneidade” inicial das manifestações (embora não do “fusível”), deve-se dizer que muitos dos que saíram às ruas das cidades cubanas para protestar quase imediatamente se distanciaram dos desordeiros e infiltrados, reafirmando sua lealdade à Revolução e denunciando as flagrantes tentativas de exploração “ocidental”.

Nos anos 80, o “geopolítico militante” (definição de Claudio Mutti) Jean Thiriart, em seu estilo puramente pragmático, argumentou que uma Europa unida e soberana (de Dublin a Vladivostok), em uma hipotética ordem multipolar teria que ter a coragem de “renunciar” ao mito da Revolução Cubana (e assim deixar a ilha como um novo destino como destino exótico para turistas e jogadores norte-americanos) em troca do controle absoluto do Mediterrâneo e da eliminação daquele posto avançado “ocidental” dentro dele (uma fonte de instabilidade perene) representado pela entidade sionista.

Tal plano, mesmo hoje, ainda está muito distante. Consequentemente, qualquer pessoa que se oponha fortemente ao imperialismo norte-americano, independentemente das diferenças ideológicas, não pode deixar de assumir uma posição de clara defesa da soberania cubana contra qualquer tipo de interferência externa.

Notas

[1]Ver Why is a Florida-based pastor under arrest for the assassination of Haiti’s President?, www.time.com.
[2]Jovenel Moise: ‘Colombia ex-soldiers in plot to kill Haiti president’, www.bbc.com.
[3]Sobre o recente reforço da cooperação EUA-Taiwan ver Il ruolo strategico del Mare Cinese Meridionale, “Eurasia. Rivista di studi geopolitici”, nr. 1/2021. Sempre su “Eurasia” (nr. 2/2021) si veda anche l’articolo “Da Trump a Biden”.
[4]S. Vernole, Falun Gong: strumento di attacco contro la Cina, “Eurasia. Rivista di studi geopolitici”, nr. 2/2021.
[5]Sobre as relações entre QAnon e outros fenômenos pseudorreligiosos de matriz norte-americana se pode ver QAnon: radici ideologiche e ruolo geopolitico, “Eurasia. Rivista di studi geopolitici”, nr. 2/2021.
[6]Ver China tries to lure Haiti away from Taiwan with interest-free loans, www.taiwannews.com.
[7]Ver Beijing targets Haiti as a bid to isolate Taiwan from its diplomatic allies heads to the Caribbean, www.scmp.com.
[8]Ver US lawmakers warn of chinese meddling in Haiti-Taiwan ties, www.focustaiwan.tw.
[9]Plan to overthrow the Venezuelan Dictatorship – Masterstroke, su www.voltairenet.org.
[10]Ver Cuba ratifica la disposizione di stabilire con una cooperazione effettiva con gli Stati membri dell’Unione Economica Eurasiatica, www.granma.cu.

Fonte: Eurasia Rivista

Daniele Perra

Formado em Ciência Política pela Università DI Cagliari, é colaborador da <em>Rivista Eurasia</em>.

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