O patriarcado não é o inimigo, e sim o antagonismo de gênero

Por Hanzi Freinacht

Neste texto, você será apresentado à ideia de antagonismo de gênero e aos dolorosos paradoxos do amor.

No coração do complexo de gênero – sexualidade – família – formação, está algo que eu nomeio “antagonismo de gênero”. Este termo foi inicialmente discutido pela antropóloga (de visão feminista estruturalista) Sherry Ortner, em seus estudos de relações de gênero dos grupos indígenas na Papua Nova Guiné durante os anos 70. Eu, por outro lado, uso o termo de forma ligeiramente diferente:

“Antagonismo de gênero” denota uma mensuração da prevalência e intensidade do ressentimento que as pessoas de certa população sentem sobre qualquer ideia generalizada de categorias de gênero.

De maneira mais simples, o quão amargas as mulheres são com homens e quão odiosos os homens são com mulheres. Mas é claro que as pessoas podem odiar seu próprio gênero, ou qualquer outra categoria de gênero: “aquelas vadias feministas vazias e sem vida”, “aqueles machos tóxicos e nojentos”, “aqueles hipsters gays, projetos de homens”, “essas putas enganadoras, sujas e sedentas de poder” e por aí vai. Não é apenas amargura e ressentimento, mas também desprezo, frustração e culpa generalizada ou coletiva.

Nós precisamos entender que antagonismo de gênero corresponde mais ou menos ao racismo e conflito étnico, mas é um antagonismo entre categorias reais ou imaginadas de gênero. Naturalmente, antagonismo de gênero cresce um padrão emergente em todo complexo de gênero – sexualidade – família – formação.

Aqui está um exemplo: se uma menina tem um pai ruim (que por causa de suas inseguranças trata ela e sua mãe mal), e então arranja um namorado torpe que só a usa para sexo (porque ele não estava apaixonado por ela, só pressionado para perder a virgindade estigmatizada e desesperado para ganhar experiência sexual, e ela foi tudo o que ele conseguiu), provavelmente está propensa a não gostar muito de homens em geral. E então ela rejeitará rapazes se aproximando em bares muito desdenhosamente, assim alimentando amargura dessas almas vacilantes que estiveram tentando criar coragem para chegar e conversar com alguém como ela durante anos.

E por aí vai. Antagonismo de gênero gera antagonismo de gênero. Causa diversos tipos de prejuízo ao interior mais sensível das pessoas, mutilando seus desenvolvimentos interiores, e atrofiando nossa capacidade de crescimento como seres humanos. A isso se misturam também questões econômicas e políticas de estabilidade, conflitos étnicos, relações de classe e qualquer questão que se pensar.

O nível do antagonismo de gênero pode ser reduzido apenas mudando os jogos da vida cotidiana, e desenvolvendo as habilidades das pessoas de dar a si mesmas e aos outros o que é preciso. Se nossa anti-heroína acima encontrasse um cara amável, que satisfizesse profundamente suas necessidades, após alguns anos talvez suas defesas poderiam ser abaixadas e ela poderia se sentir menos amargurada por homens. E ela então conseguirá parar de alimentar essa guerra do ego de ressentimento entre os sexos.

Ou imaginem se esse primeiro homem que ela namore fosse mais treinado em seduzir mulheres, e então ele não precisasse ter de se “acomodar” com ela, porque ele não estaria numa mentalidade de escassez sobre sua validação sexual e se ele sofresse menos pressão para adquirir experiência sexual a qualquer custo. Se ele tivesse um rico banquete de mulheres para escolher, ele buscaria alguém com quem ele tivesse mais emoções positivas autênticas. Talvez ele tivesse padrões mais saudáveis e seguros em primeiro lugar, e se apaixonasse mais facilmente. E ela teria experiências mais satisfatórias com outros rapazes que ela namorasse, terminando com um rapaz que realmente a ame. E sua relação teria sido melhor. Todo mundo teria salvado muito tempo e esforço, todo mundo seria poupado de muita miséria e os demônios do ressentimento não teriam se alimentado da carne fresca de jovens de corações jovens.

Antagonismo de gênero não apenas prejudica outras relações, como éticas e profissionais – também, bem furtivamente, envenena movimentos emancipatórios. Feminismo se tornou uma carreira estúpida do antagonismo de gênero. Mulheres que odeiam profundamente homens, sentem amargura e ressentimento deles como um grupo, se encontrando nos grupos feministas e suas ideologias. Homens que odeiam mulheres se tornam “ativistas dos direitos masculinos” e se reúnem em volta de um guru batedor de mulheres. Antagonismo de gênero e outras formas de ódios grupais como o racismo – por mais que compreensíveis e explicáveis – se disfarçam como seu único amigo neste mundo obscuro. Mas, é claro, eles não são seus amigos. Antagonismo de gênero gera “mal” feminismo (ou “masculinismo”), uma luta por igualdade de gênero que cronicamente perde toda relevância dinâmica e perspectiva, e que serve apenas para piorar a situação.

Eu não estou dizendo que raiva nunca é boa. Estou apenas dizendo que antagonismo de gênero se infiltra e arruína qualquer potencial emancipatório que o feminismo e o masculinismo poderiam ter. Ser amargo e ressentido tornam as pessoas estúpidas.

Deseja um verdadeiro e efetivo feminismo? Então procure maneiras de reduzir o antagonismo de gênero. Quer reduzir violência sexual contra mulher? Reduza antagonismo de gênero. Quer reduzir suicídio masculino? Reduza antagonismo de gênero. Deseja criar espaço de gêneros mais livres na vida profissional? O mesmo. Quer aumentar a qualidade e estabilidade das relações familiares? Simplesmente faça-o.

Os dolorosos paradoxos de gênero

Um certo grau de antagonismo de gênero é inevitável na sociedade, já que o mesmo território do amor e do desejo é inerentemente forjado por paradoxos, significando que nossos corações e mentes sempre nos colocaram, e às pessoas em volta de nós, impossíveis dilemas de maneiras diversas, os quais são por várias vezes frustrantes, por vezes nos enfurecendo – algumas vezes até fatais.

Por agora, iremos apenas analisar algumas propriedades do que algumas pessoas gostam de chamar “a matriz heterossexual” (ou seja, relações não gays, etc). Se olharmos para o desejo e para busca por amor entre homem e mulher, encontraremos alguns desagradáveis paradoxos que devem atrapalhar as pessoas.

Primeiro de tudo, considerem que o homem fique tímido perto de mulheres que genuinamente desejem e gostariam de investir num relacionamento, mas essas mulheres são atraídas por homens confiantes. Isso significa que homens raramente conseguem mulheres pelas quais têm mais forte e sincera atração. Isso os levam a ser menos felizes em suas relações, ainda sendo afetados pelos estranhos fantasmas do desejo, o que significa que eles são mais propensos a trair ou tentar “atualizar” (trocar de esposa) dada a oportunidade. Ressentimento produzido em massa.

Tanto homens quanto mulheres querem conseguir um companheiro levemente acima de seus próprios status na hierarquia de acasalamento. Isso fará com que invistam tempo e esforço em pessoas que não conseguem ou não podem manter, recorrendo em erros que os levam à amargura e à desconfiança, que sabotam os relacionamentos.

Mulheres querem homens que são assertivos e têm grande prestígio social, e homens dramaticamente aumentam sua sedução se demonstram tais qualidades. Consequentemente, homens têm que tomar riscos sociais para ganhar a atenção da mulher. Se eles não são suficientemente sedutores e são rejeitados em público, correm o risco de que outros (homens e mulheres) irão percebê-los com desprezo. Se eles são muito sexualmente assertivos, eles correm o risco de que sua aproximação fuja dos limites e se torne assédio sexual. Mulheres se enfurecem por ter que lidar com situações em que constrangedoramente precisam recusar alguém, ou calmamente se calam se sentindo usadas e manipuladas. Homens dizem que mulheres são desonestas quando dizem o que querem: elas não te dão uma chance se você é um “cara legal” e te acusam de ser predatório se fizer seus avanços, ou de ser um macho falso tentando mostrar seu lado viril. Ressentimento cresce.

Espécies que vivem em grupos são geralmente divididas entre “espécies competitivas”, em que um macho alfa consegue acasalar com todas as fêmeas após destronar o antigo líder, e “união de espécies por pares”, quando machos e fêmeas se unem em famílias e os machos competem para ser grandes cuidadores e provedores. Esse padrão tem repetidamente sido encontrado, de pássaros aos primatas. Os machos são maiores que as fêmeas em todas as espécies competitivas. Entre os primatas, gorilas são competitivos e os chimpanzés bonobos são pareados. Se olharmos para fisiologia e comportamento dos humanos, nós estamos em algum lugar no meio, talvez um pouco mais na união por pares. Adequadamente, ambos estão profundamente enraizados nos padrões comportamentais existindo simultaneamente nos humanos, competindo entre si. Mesmo que se acontecer de encontrar um amor estável e feliz, uma parte de você irá desejar sexo violento com um estranho atraente. Mesmo que você seja o Elvis e consiga todas as mulheres que quiser, você ainda irá se sentir um pouco vazio por dentro, na falta de uma conexão autêntica e companheirismo. Nós somos codificados para sermos levemente insatisfeitos. E isso gera – já sabe o que isso vai gerar? – frustração, que em algum momento se tornará antagonismo de gênero.

Mulheres aprendem que elas serão vadias demais se transarem com vários homens em diversas maneiras divertidas. Elas sempre tendem a perder seus status se transarem com o cara errado, nas circunstâncias erradas. Mas se elas não se soltarem e fizerem de tudo com seus homens, é possível que o homem possa ficar frustrado e não queira mais ficar por perto, o que leva a mulher de volta à pista da solteirice e vadiagem da qual saíra. E mesmo que a mulher faça “tudo que ele quiser” e realmente se soltar, ela pode perceber que ele perderá o interesse e partirá.

Toda sua vida, mulheres foram ensinadas a ser bonitas. Bonita, gostosa, bela, feminina. Está em todo lugar: roupas, maquiagens, comerciais, como vocês são tratadas por estranhos, se homens se apaixonam por vocês e te cortejam ou não, sua posição no grupo local de garotas, suas chances de carreira – até mesmo começando com as bonecas Barbie quando vocês eram crianças. Se vocês falharem em se apresentar de uma forma bela, de acordo com crescentes e impossíveis padrões, vocês pagam um preço enorme por isso. Mas, queridas damas, se vocês conseguem ser bonitas, isso repentinamente tira atenção de tudo o que vocês fizerem e todo mundo em volta de vocês insistirão em responder apenas a essa parte: sua aparência. Seu novo chefe diz para você que não pode te escutar porque você é muito gostosa, todos os seus amigos homens e colegas têm planos secretos, outras mulheres são resmungonas e competitivas, silenciosamente te mantendo para baixo. Se você for na TV e dizer algo importante, ou até ganhar uma medalha de ouro, as pessoas vão falar do seu cabelo ou decote. E se perder sua beleza, vocês acabam por perder tudo, incluindo o homem que jurou estar ao seu lado. Se isso não gera ressentimento, eu não sei o que gera.

Um último exemplo favorito: homens e mulheres têm diferentes padrões de luxúria sexual. Quando um homem e uma mulher entram em uma relação monogâmica, primeiro ambos quererão transar muito, mas depois de algum tempo – na média, de acordo com pesquisas – o desejo sexual da mulher diminui para um nível muito menor e o do homem se mantém elevado por um longo tempo. Como tal, muitos homens terão muita rejeição e decepções nesse mesmo ponto da vida quando se comprometeram a não procurar outras mulheres, o que é em si um grande preço a pagar. Há até um déficit sexual em crescimento nos homens que pode ser observado em escala global: homens não transam o quanto gostariam. É claro, isso gera ressentimento e produz infidelidade. Assim como homens parecem ter menos impulsos de carinho após a relação sexual que a mulher, o que significa que o sexo pode deixar as mulheres se sentindo vulneráveis emocionalmente e abandonadas, o que mina o senso de confiança nos relacionamentos. E há sempre a questão inteira de mulheres querendo homens confiáveis, possuindo um jardim secreto de fantasias mais ferozes (procurando por pornôs como “suruba extrema brutal” e “estupro”, mais frequentemente que homens, comparando a grande parte das pesquisas no meio e 62% delas tendo ao menos algum pensamento sensual de sexo forçado, de acordo com um estudo). Misturando isso e o fato de que homens querem ser vistos como fortes, mas ainda querem alguém para cuidar do pequeno menino que existe dentro deles e que essa parte não entra nas fantasias femininas sexuais – tudo isso resulta em confusão e decepção de todos os grupos envolvidos. Tudo isso gera antagonismo de gênero.

Ah, o paradoxo do sexo, amor e gênero! Que implacável planta de produção de angústia humana e desolação! Quão enganosa essa paz interior, que simples senso de vivacidade e segurança, que sensual e incorporada plenitude de estar vivo! Se você não tem uma visão muito limpa e bem informada, você irá pender às explicações simplistas do sofrimento que você tem passado: “foi o patriarcado” ou “são essas vadias raivosas”.

Mas não são essas vadias raivosas. É um hospedeiro completo das propriedades emergentes nos jogos do cotidiano. Nós somos mutilados não pelos males da estrutura patriarcal, mas pelo cego e insignificante motor do caos, que é incidentalmente a fonte de toda bondade e beleza do mundo.

E nós dificilmente podemos fazer maior desserviço do que negar a existência desses jogos (crime 1: negação do jogo) ou aceitá-los na sua atual e cruel forma (crime 2: aceitação do jogo). Esses paradoxos do amor constituem realmente um grande campo de abate do espírito humano. Mas são nesses campos de batalha e sofrimento que nós crescemos como seres humanos – é aqui que nós encontramos campo fértil para transformações interiores. Poderíamos engendrar nossa sociedade para nos tornar melhor equipados diante desses paradoxos e nos relacionar com eles de maneira mais produtiva? A resposta é sim!

Esses paradoxos e problemas não podem realmente ser “resolvidos”. Eles vão estar por perto queiramos ou não, ou até mudarmos essa mesma constituição humana biológica comportamental. O que nós podemos fazer, de toda forma, é mudar o quão bem eles são entendidos e relacioná-los produtivamente, enfim entendendo o quão patológicos eles podem ser para a sociedade.

Erich Fromm uma vez escreveu que, para uma sociedade prosperar, nós não precisamos de mais intelectos distantes, mas “homens e mulheres que estão amando a vida”. Para amar a vida, nós precisamos com sucesso nos apaixonarmos pelo outro.

Quantos de nós conseguiremos ter genuinamente amores felizes em nossas vidas? Há poucas grandes tragédias na vida como nossa inabilidade de acordar profundas e positivas emoções em outros, nossa inabilidade em corresponder nosso coração vacilante e corpos doloridos com genuíno amor e desejo. Quão cruel não é o oposto, ser amado e não incluído, mas responder apenas com frieza e inércia – quando estamos indisponíveis para amar genuinamente e responder a emoção dos outros?

Quão importante não são essas questões para sociedade, quão centrais para a miséria humana e felicidade? Quão fundamentais para qualquer noção rica qualitativa de liberdade ou igualdade? Quantas almas são desnecessariamente condenadas à solidão da frieza e escuridão? Quantos corações quebrados estamos gerando? Quantas tentativas falhas de sadomasoquismo?

Podemos realmente manter essas questões fora da política, fora dos debates ocorrendo sobre a auto-organização consciente da sociedade?

Nós devemos, como uma sociedade, cultivar maiores probabilidades para melhores relacionamentos, desenvolver as orientações sexuais e reduzir o antagonismo de gênero.

Fonte: Metamoderna

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *