A Tolkien Society decide promover a Ideologia de Gênero

Quem acreditava que a intenção de incluir conteúdo sexual na série O Senhor dos Anéis, da Amazon, era o limite de deturpação que se poderia fazer em relação às adaptações da obra literária de Tolkien se enganou. A última novidade é que a Tolkien Society, principal instituição literária responsável pela promoção e defesa da obra do escritor britânico, decidiu promover a ideologia de gênero e reinterpretações da obra tolkieniana desde uma ótica LGBTQ.

Um tema bastante discutido recentemente em relação à cultura pop é a adaptação para série de TV da obra literária O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, pela Amazon. O casting, que já era colocado em dúvida graças ao filme O Hobbit, confirmou as piores expectativas. No lugar de procurar retratar com fidelidade as etnias e raças descritas pelo autor britânico, a Amazon decidiu seguir a tendência geral de sobrerrepresentação de grupos raciais não brancos em papeis especificamente brancos, em um ensaio cultural do fetiche elitista da “Grande Substituição” demográfica.

Menos incômodo, mas perceptivelmente destoante, nas adaptações da mitopoética tolkieniana às telas é o fetiche “you-go-girl” das mulheres protagonistas de ação, combatendo em pé de igualdade com suas contrapartes masculinas, que em O Hobbit ficou representado por Tauriel, interpretada por Evangeline Lilly, personagem inexistente na obra tolkieniana, e que parece estar ali por “cota”, bem como para ocupar um espaço que poderia pertencer ao famoso Legolas (retratado, inesperadamente, com uma personalidade destoante e mais desagradável em comparação com sua atuação em O Senhor dos Anéis). O filme O Senhor dos Anéis não é inteiramente inocente disso, já que são dadas a Arwen algumas cenas de ação que, nos livros, pertencem a Glorfindel, um personagem élfico secundário. Mas a alteração é relativamente sutil, e pode ser justificada cinematograficamente, já que não faria sentido introduzir um personagem novo, sem importância para aquela história e que não apareceria mais.

Mas uma outra coisa causou certo espanto e incômodo em O Hobbit: o, por assim dizer, “ensaio” de romance entre a elfa Tauriel e o anão Kíli. Bem, desnecessário dizer que na mitologia tolkieniana as incompatibilidades e antipatias raciais entre elfos e anões são notórias e inatas. A amizade desenvolvida entre Legolas e Gimli era tão improvável que se tornou lendária, e só foi possível pelas circunstâncias específicas da Demanda do Anel. Não precisamos nos alongar aqui, basta pontuarmos que o amor, em sua dimensão de Eros, entre elfos e anões é impossível na mitologia tolkieniana, e que a tentativa cinematográfica de “forçar” essa possibilidade só pode ser considerada como uma perversão do material literário.

Pois bem, infelizmente a tarefa de desconstrução e perversão da obra tolkieniana não se limita às adaptações para os meios cinematográficos e televisivos da cultura pop, mas já envolve também as instituições e organismos especializados dedicados ao cultivo e promoção do estudo do mundo criado por J.R.R. Tolkien.

Recentemente, a Tolkien Society, uma sociedade literária e educacional dedicada à promoção da obra de Tolkien (talvez a maior importante do tipo no mundo) anunciou os palestrantes da Tolkien Society Seminar, a ser realizada em 3 e 4 de julho. E o anúncio confirma a tendência de distanciamento em relação aos textos tolkienianos e a aproximação em relação a problemáticas tipicamente pós-modernas.

Agora bem, a escolha do tema “diversidade” como eixo do seminário não é ruim. Afinal, de fato, reflexões interessantes podem ser feitas sobre as relações raciais entre elfos, anões, hobbits e orcs, o papel dos dúnedain em meio às raças humanas; as relações entre gondorianos e os haradrim; os conflitos interétnicos entre as diversas linhagens élficas; as histórias trágicas de amor entre elfos e humanos; a já mencionada improvável amizade entre Legolas e Gimli, a própria composição da Sociedade do Anel, com representantes de todos os “povos livres” como expressão simbólica da necessidade de uma ampla aliança racial para derrotar o terror de Sauron; a própria diferença de destino pós-morte entre elfos e homens, e como cada um dos povos lida com o problema da Morte. Enfim, o ângulo da diversidade pode ser utilizado para provocar reflexões interessantes sobre a obra tolkieniana, com conclusões que nem sempre serão politicamente corretas.

Mas “diversidade” é uma daquelas palavras-chave eufemísticas do liberalismo pós-moderno, que parecem significar uma coisa, mas que se utiliza para significar outra coisa.

Para que vocês entendam do que estamos falando, vamos mencionar aqui algumas das palestras que serão realizadas: “Cordeliah Logsdon – Gondor in Transition: A Brief Introduction to Transgender Realities in The Lord of the Rings” [Gondor em Transição: Uma Breve Introdução a Realidades Transgênero em O Senhor dos Anéis], ou ” Danna Petersen-Deeprose – “Something Mighty Queer”: Destabilizing Cishetero Amatonormativity in the Works of Tolkien” [Algo Bastante Queer: Desestabilizando a Amatonormatividade Cis-Hetero nas Obras de Tolkien], ou mesmo “Christopher Vaccaro – Pardoning Saruman?: The Queer in Tolkien’s The Lord of the Rings” [Perdoando Saruman? O Queer em O Senhor dos Anéis de Tolkien].

Por “diversidade” a Tolkien Society está querendo se referir a toda a problemática construída e inventada pelos gender studies das universidades estadunidenses e europeias, e que encontram a sua face militante, panfletária e dogmática na ideologia de gênero, que já se tornou parte do pensamento hegemônico das elites cosmopolitas e das megacorporações transnacionais.

Naturalmente, nada disso guarda qualquer conexão com os interesses de J.R.R. Tolkien, um católico inglês, fascinado pelas narrativas épicas indo-europeias, evidentemente “cis-hetero”, e que certamente seria considerado “machista” pelos padrões comportamentais e axiológicos pós-modernos. Não é que não seja possível “descobrir” aspectos de uma obra literária que são desconhecidos até do próprio autor, é que simplesmente não há muito espaço textual em Tolkien para as reflexões desconstrucionistas da casta intelectual pró-LGBT. Mais, qualquer tentativa honesta de enveredar por esses caminhos só poderia resultar na “condenação” de Tolkien como “machista”, “racista”, “homofóbico”, etc. Mas dada a popularidade internacional dos produtos culturais inspirados pela obra de Tolkien, parece mais conveniente tentar torcer, distorcer e desconstruir o texto até que a conclusão seja o oposto do espírito e da vontade do autor.

Que a principal instituição dedicada a Tolkien se rebaixe a esse ponto e se torne veículo da destruição da obra do escritor que ela jurou promover e defender, é testemunho dos tempos sombrios em que vivemos.

Saurou venceu. Não pela força, mas pela malícia e pelo poder do dinheiro.

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