Como os Índices de Direitos e Liberdades são fabricados?

Os liberais amam seus “índices de liberdade”, e outras classificações semelhantes, que eles juram que constituem maneiras objetivas, neutras e científicas de avaliar os países. Não obstante, um olhar mais atento aponta para o fato de que as instituições que organizam esses relatórios e índices fazem, todas elas, parte da constelação de think-tanks, ONGs e fundações vinculadas ao Departamento de Estado dos EUA e aos seus interesses atlantistas.

A organização americana Freedom House publicou recentemente seu último relatório sobre o estado das liberdades civis em todo o mundo.

Deve ser mencionado imediatamente que seus autores têm um entendimento particular de liberdade. Esta é a idéia transformada de John Stuart Mill de liberdade negativa; isto é, liberdade em relação a obrigações, tradições, valores, etc., que também é responsável pelos conceitos ocidentais de redesignação de gênero e cultura do cancelamento destinada a destruir a herança e falsificar a história.

A Freedom House divide os países do mundo em três categorias – livre, parcialmente livre, e não livre. Em 2020, havia 82 países livres, quatro a menos que em 2015, mas o número de países parcialmente livres permaneceu inalterado em 59. O número de países não livres é maior, porém, aumentando de 50 em 2015 para 54 em 2020.

Uma comparação banal dos países deixa claro que os fatos são deturpados. Rússia, Turquia, Cazaquistão, China e Vietnã são classificados como países não livres, por exemplo, enquanto a Ucrânia, onde qualquer oposição é impiedosamente reprimida, o Reino de Marrocos, que é governado por uma instituição monárquica tradicional e um sistema de segurança estatal desenvolvido e que permeia tudo, o Paquistão, que é alvo de restrições especiais no setor financeiro, e até mesmo a Índia com seu sistema de castas, que é um apartheid social de fato, e suas violações dos direitos humanos, que são regularmente cobertas por vários meios de comunicação dos EUA, são todos classificados como parcialmente livres.

Os países classificados como livres, entretanto, incluem o Brasil, onde o regime Bolsanaro vem apertando os parafusos há alguns anos, assim como toda a Europa Ocidental, é claro, e os EUA – “a vaca sagrada da democracia”.

Os países mais livres são a Noruega, a Suécia e a Finlândia, todos com 100 em 100 pontos. Não muito atrás está a Estônia, com 94 pontos… e suas categorias de não cidadãos entre a população nativa. A Letônia, que tem as mesmas medidas discriminatórias, marcou 89 pontos.

O relatório afirma que 45 países assistiram a um declínio significativo das liberdades democráticas. Entre os países destacados estão Belarus, Argélia, Hong Kong, Etiópia, Índia e Venezuela.

Nos próprios Estados Unidos, o nível de democracia caiu 11 pontos, de 94 para 83. Os autores do relatório colocam a culpa por isso na administração Trump. Eles associam o declínio à corrupção política e aos conflitos de interesse, à falta de transparência no governo e ao aperto das políticas de imigração.

A pandemia do coronavírus também teve um impacto nos níveis de liberdade. Isto diz respeito à Hungria, Polônia, Argélia, Egito, Espanha, Grã-Bretanha, Índia, China, Canadá, Argentina, Brasil, Venezuela, Colômbia, Irã, Tailândia e Filipinas. Por alguma razão, El Salvador é destacado, onde a polícia dispersou à força os manifestantes antibloqueio.

Esta foi claramente uma escolha, uma vez que os protestos antibloqueio em massa também foram dispersos à força pela polícia na Itália e Alemanha, Holanda e França, e em vários outros países.

O estilo totalitário e hipócrita do relatório é particularmente marcante.

“Os inimigos da liberdade promoveram a falsa narrativa de que a democracia está em declínio porque ela é incapaz de atender às necessidades das pessoas. Na verdade, a democracia está em declínio porque seus exemplos mais proeminentes não estão fazendo o suficiente para protegê-la. A liderança global e a solidariedade dos Estados democráticos são urgentemente necessárias. Os governos que compreendem o valor da democracia, incluindo a nova administração em Washington, têm a responsabilidade de se unir para obter seus benefícios, combater seus adversários e apoiar seus defensores”, afirma o relatório.

Desde os dias de Platão, entretanto, a democracia tem sido considerada como uma das piores formas de governo. A pior é a timocracia – ou seja, uma oligarquia – mas se olharmos para o papel do capital no processo eleitoral americano, então o elemento democrático neste país é bastante arbitrário. O sistema de triângulos de ferro, ou seja, a relação entre corporações, lobistas e órgãos governamentais, é o que constitui a base do Estado americano. E o que exatamente significa fazer o suficiente para proteger a democracia? Bombardear a Iugoslávia e invadir o Iraque sob o falso pretexto de que ele tinha armas de destruição em massa? Apoiar ditaduras brutais em países considerados aliados, como o Bahrein, onde a Quinta Frota dos Estados Unidos está estacionada e onde os protestos pacíficos foram violentamente reprimidos há dez anos durante a Primavera Árabe?

Mesmo pelos padrões americanos, o relatório pode ser considerado tendencioso. Por exemplo, o relatório foi escrito por duas mulheres, Sarah Repucci e Amy Slipowitz. Portanto, pode-se argumentar imediatamente que existe um desequilíbrio de gênero. Por que nenhum homem foi envolvido no relatório? Também não havia pessoas negras. Isso é justo?

Mas pondo este tipo de trollagem de lado e encarando o relatório seriamente, até que ponto esperamos que os EUA sejam justos?

Em 11 de fevereiro, por volta da mesma época em que o relatório da Freedom House foi publicado, o Escritório do Diretor de Inteligência Nacional dos EUA divulgou um relatório especial sobre o papel do governo saudita no assassinato do jornalista Jamal Khashoggi. O relatório foi desclassificado em 25 de fevereiro e imediatamente tornado público. Ele declara expressamente que o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman sancionou a operação em Istambul para capturar e matar o jornalista saudita, mas os EUA não impuseram nenhuma sanção específica contra ele. Quando questionado por jornalistas durante um briefing no Departamento de Estado dos EUA em 26 de fevereiro, Antony Blinken disse que o Departamento do Tesouro está sancionando o ex-chefe adjunto da inteligência geral saudita Ahmad al-Asiri. Sanções referidas como “Khashoggi Ban” também estão sendo impostas contra 76 indivíduos sauditas, mas nenhuma medida desse tipo está sendo tomada contra o principal culpado. Contra quem, exatamente, estas sanções estão sendo impostas permanece um segredo, um segredo que já está começando a levantar questões nos EUA.

Portanto, não importa o quanto a Freedom House escreve sobre países não livres (incluindo a Arábia Saudita), isso não tem absolutamente nenhum impacto sobre a política externa dos EUA. O Departamento de Estado e a Casa Branca operam com base em outros princípios. Os vassalos leais podem fazer qualquer coisa, mesmo que isso signifique realizar uma limpeza étnica ou cometer outros crimes contra seu próprio povo. Mas as observações sobre outros “países não livres”, como Rússia, China e Irã, são perfeitas para serem regurgitadas vezes sem conta na mídia controlada pelo Estado e nos briefings do governo, porque esses países perseguem políticas independentes dos EUA. O governo dos EUA até paga a Freedom House para moldar a opinião pública na direção certa (mais de 70% de seu financiamento vem do governo). A propósito, a organização também é dirigida por ex-funcionários do governo – seu presidente atual é Michael Chertoff, que foi diretor de segurança interna entre 2005 e 2009 e, antes disso, atuou como juiz federal. Outros altos funcionários da Freedom House têm registros de serviços similares. É este tipo de rotação no sistema de timocracia dos EUA, ou seja, o sistema de triângulos de ferro, que garante a “objetividade” necessária em relação aos direitos e liberdades em todo o mundo.

Fonte: Oriental Review

Leonid Savin

Leonid Savin é escritor e analista geopolítico, sendo editor-chefe do Geopolitica.ru, editor-chefe do Journal of Eurasian Affairs, diretor administrativo do Movimento Eurasiano e membro da sociedade científico-militar do Ministério da Defesa da Rússia.

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