O Grande Reset e o Grande Despertar

Entrevista por Alexander Markovics
Um tema domina as discussões em fóruns de líderes e influenciadores globais: o Grande Reset. As elites prometem uma “nova era” em que não teremos absolutamente nada, mas “seremos felizes”. A pandemia foi o álibi perfeito para dar início a esses planos. Mas qual é o fundamento filosófico do Grande Reset? O que está oculto por trás do projeto globalista? É isso que o filósofo russo Aleksandr Dugin responde aqui.

Na entrevista seguinte feita com o filósofo russo Alexander Dugin, em 2 de janeiro de 2021, realizada para a revista alemã Deutsche Stimme (“Voz Alemã”), estávamos discutindo a nova estratégia globalista chamada “o Grande Reset”. Como ela está inserida na estrutura política do liberalismo, também discutimos sua estrutura filosófica, bem como a ontologia orientada a objetos e as mais recentes teorias filosóficas do Professor Dugin a respeito do sujeito radical.

Prezado Professor Dugin, a elite global está discutindo uma estratégia chamada “O Grande Reset”, que exige uma reestruturação do capitalismo e do sistema pós-liberal após seu fracasso durante a crise do Corona. Para este fim, o capitalismo deve ser tornado mais sustentável a fim de manter a Sociedade Aberta viva, mas também mais repressiva, a fim de ganhar ainda mais controle sobre a vida cotidiana, e instalar um sistema de vigilância de massa. O que você pensa sobre este novo projeto, que visa salvar o globalismo?

Penso que não se trata precisamente de uma nova estratégia, mas de um novo termo dos globalistas. Na história da globalização, o termo reset é um conceito muito interessante. O conteúdo é o mesmo da Nova Ordem Mundial, globalização, Um Mundo, Fim da História, a promoção de valores ultraliberais. O conteúdo do Grande Reset não difere muito do conteúdo da globalização, mas precisamos entender que a globalização não é apenas um processo tecnológico, geopolítico ou político, mas também um processo ideológico que une diferentes níveis. Por exemplo, isto significa que cada país e cada sociedade é transformada no Ocidente. Isso é muito importante.

A ocidentalização foi uma grande parte desta globalização – porque esta é uma projeção dos valores ocidentais e da sociedade ocidental sobre toda a humanidade. Portanto, na globalização, o Ocidente é tomado como um exemplo. O segundo nível da globalização é uma projeção da modernização sobre a ocidentalização. Isso significa que é uma versão cada vez mais atualizada dos valores ocidentais – não os mesmos valores ocidentais de ontem. Este é um processo contínuo de alguma transformação especial, uma mudança dos valores e paradigmas ocidentais. E isto é importante – é um processo duplo para atualizar o próprio Ocidente e projetar uma versão atualizada. Esta é uma espécie de combinação pós-moderna do Ocidente e do moderno.

A modernização não deve ser aplicada apenas às sociedades não ocidentais, mas a modernização é também um processo doméstico no Ocidente. Portanto, a globalização também é modernização. O próximo nível deve ser uma mudança ideológica dentro da globalização liberal, porque o liberalismo também é um processo. Não é apenas uma crença em algo eternamente estável, mas é a idéia de liberar o indivíduo de todas as formas de identidade coletiva.

Do que o indivíduo deve ser liberado?

Esse é um processo histórico. Ele começou com a libertação em relação à Igreja Católica. Depois disso, foi a libertação em relação aos estamentos e à pertença a alguma sociedade da Idade Média, e depois disso foi a libertação em relação ao Estado-nação e a todos os tipos de identidades coletivas artificiais no século 20. E após a derrota do nazismo e do comunismo seguiu-se o próximo passo – a libertação do homem em relação à identidade coletiva de gênero. Essa foi a marca da transição para um novo tipo de liberalismo. Portanto, a política de gênero é essencial. Ela não é apenas secundária – é algo essencialmente embutido nesta lógica de desenvolvimento do liberalismo.

Portanto, o globalismo está essencialmente e naturalmente associado à política de gênero. Isso é extremamente importante. Isso é parte desta modernização da própria sociedade liberal. E o ponto seguinte é o intercâmbio da identidade coletiva humana com a identidade coletiva pós-humana. Essa é a agenda política de amanhã que começa hoje; essa é a principal lógica da globalização; não é apenas a abertura das fronteiras. Esse é um processo de globalização muito profundo e multifacetado.

Mas o que há de novo na ideia do Grande Reset?

Novo é o fato de que as etapas anteriores criaram oposições de diferentes tipos nas sociedades não-ocidentais, especialmente nas sociedades não tão ocidentais, não tão modernizadas da Rússia e da China. Alguns aspectos das características conservadoras destas sociedades reagiram contra a globalização, e a defesa de sua soberania indica que a grande potência nuclear Rússia e a grande potência econômica China se tornaram obstáculos neste processo. Ao mesmo tempo, surgiram civilizações que tentaram reagir contra a imposição de valores liberais, modernistas e pós-modernistas. Essa foi uma reação orgânica e natural da civilização contra essa agenda ideológica.

Ao mesmo tempo, houve alguns erros econômicos e derrotas estratégicas na geopolítica, como na criação do projeto “Grande Oriente Médio” e na promoção de revoluções coloridas no mundo árabe, que não produziram os resultados bem sucedidos que os globalistas esperavam. Portanto, essa foi uma cadeia de fracassos – fracasso após fracasso, e o último fracasso foi o aparecimento do Trump.

Então, foi a revolta da sociedade americana que rejeitou esta agenda. Por exemplo, eles expressaram sua vontade de permanecer com a versão de ontem da modernidade, do liberalismo, da democracia. Eles rejeitaram o processo de modernização e atualização em curso. Então isso foi uma espécie de desafio de dentro – não de Putin, não do crescimento do populismo na Europa, mas de uma espécie de cisão na própria sociedade americana.

Tudo isso colocou os globalistas em uma posição muito especial. Eles tentaram promover sua agenda, que estava baseada na libertação do indivíduo em relação a todo tipo de identidade coletiva. Eles ainda queriam projetar a ocidentalização; eles ainda queriam alcançar uma modernização cada vez mais forte e, assim, conseguir a destruição de todo tipo de identidade no Ocidente. Mas eles encontraram tantos obstáculos que não puderam proceder de maneira normal, de modo que esta é uma espécie de sinal de emergência que disparou porque houve um acúmulo de poderes e atores alternativos de diferentes camadas – civilizações, assim como elementos soberanos, ideológicos, culturais, geopolíticos, econômicos, mas também políticos, que criaram uma espécie de frente representada por Trump, Putin, o crescente Islã, Irã, China e de maneira econômica a Iniciativa Cinturão e Rota, a onda de populismo na Europa, uma espécie de cisão dentro da OTAN, desencadeada pela política independente e soberana de Erdogan.

Tudo saiu fora de controle. E houve uma espécie de crescimento de todos esses obstáculos no caminho da globalização. Portanto, isso foi um desastre, uma catástrofe no decorrer das duas últimas décadas, a partir do ano 2000. Isto levou ao fim do momento unipolar e a uma derrota crescente. Os globalistas perderam suas posições em todos os lugares, em todos os campos, e o golpe final foi dado por Trump. Assim, o povo americano se juntou a esta batalha contra a agenda global.

Então, Donald Trump foi um desastre do ponto de vista dos globalistas?

Sim. Agora eles estão em uma posição crítica. Quando eles falam em reset, isso significa o retorno drástico e violento à continuação de sua agenda. Mas não é, como parece, algum tipo de processo natural de desenvolvimento do progresso. Tudo parecia quase garantido há vinte anos, e agora eles têm que lutar por cada elemento desta estratégia porque em todos os lugares eles encontram uma resistência crescente. Portanto, os globalistas não podem mais implementar sua estratégia com os mesmos meios e os mesmos métodos. E com isso, eles significam três palavras: “Construir de volta melhor”. Este é um tipo de slogan, uma palavra-chave. Construir de volta – de volta a antes do momento antiglobalista – voltar aos anos 90 e estar em uma posição melhor do que naquela época.

Então eles querem voltar no tempo a fim de corrigir os erros cometidos no caminho rumo à Nova Ordem Mundial?

Sim. Esta é uma espécie de chamada às armas para mobilizar todas as forças globalistas a fim de vencer a última batalha em todas as frentes, a fim de irromper em todos os lugares. Derrotar Trump é o primeiro objetivo. Eles querem destruir Putin, matar Xi Jinping, mudar o governo no Irã, envenenar Erdogan, desacreditar todas as variedades do populismo europeu, acabar com a resistência islâmica, destruir todas as tendências antiglobalistas na América Latina! Não de forma pacífica, mas atacando com meios totalitários.

Portanto, o Reset enquanto conceito tem o mesmo conteúdo, mas pressupõe ferramentas totalmente novas para implementar a agenda, e eu acho que as ferramentas são agora abertamente totalitárias. Eles tentam impor censura, tentam impor pressão política, medidas policiais concretas contra todos os que estão do outro lado. O Grande Reset é a continuação (uma espécie de continuação desesperada) da estratégia globalista fracassada contra todo este acúmulo de obstáculos. Eles não puderam aceitar seu fracasso. É a agonia de um dragão ferido que vai morrer, mas que ainda pode matar porque ainda está vivo. BBB – Build Back Better – esse é o último grito do dragão. “Matem todos os inimigos da Sociedade Aberta. Os inimigos da Sociedade Aberta devem ser mortos – torturados se vencerem através do processo democrático. Devemos abolir a democracia”, ruge este dragão. “Destruir todos os obstáculos. Humanidade – vamos destruí-la. Vamos envenenar as vacinas. Vamos fazer isso”! Esse é o tipo de luta escatológica – a última batalha da globalização.

E agora vemos que eles utilizam no Grande Reset todos os meios que eram impensáveis na etapa anterior. Então, para finalmente responder à pergunta “O que é o Grande Reset?” – não é nada de novo. É a mesma agenda da globalização, a mesma ideologia, os mesmos valores, o mesmo processo, mas com meios totalmente novos. Agora é clara e abertamente totalitário. Censura, repressão política, matança, luta, demonização do inimigo, denunciando todos aqueles que são contra isso como fascistas, como maníacos, como terroristas e lidando com eles precisamente dessa maneira.

Primeiro de tudo, eles vêem todos os seus inimigos como fascistas. Depois disso, eles começam a matá-los porque são fascistas. Ninguém investiga nada. Isso é apenas bolchevismo, assim como na Revolução Bolchevique ou na Revolução Francesa. Todos os que são declarados inimigos da revolução devem ser exterminados. Isso é extermínio, e vemos nos Estados Unidos da América os primeiros estágios deste Grande Reset. “Os globalistas perderam as eleições? Vamos destruir as eleições! Matem todos os manifestantes! Vejamos todos esses milhões de pessoas protestando como uma pequena turba de maníacos e fascistas”! Assim, eles destroem todo tipo de verificação da realidade. Chega de verificações da realidade. Bem-vindos ao totalitarismo do Grande Reset!

Durante os protestos no Capitólio em Washington, você usou o termo “Grande Despertar” como uma antítese para o Grande Reset. O que você quer dizer com isso?

O Grande Despertar é um termo usado espontaneamente pelos manifestantes americanos, com Alex Jones e todos os outros. Esse foi um conceito que nasceu recentemente, quando o povo americano se tornou mais consciente da verdadeira natureza demoníaca dos globalistas. Isso diz respeito em primeiro lugar aos americanos que estavam sob a ilusão de que tudo estava indo mais ou menos bem, e que os democratas e republicanos dentro dos Estados Unidos representavam duas asas da mesma democracia liberal. O Grande Despertar para eles foi a descoberta de que por trás da máscara do Partido Democrata estava algo totalmente diferente – uma espécie de golpe de estado orquestrado por globalistas, maníacos e terroristas.

Eles estão prontos para aplicar todos os tipos de medidas totalitárias contra o povo americano. Isso havia sido inconcebível e impossível antes. Começou com Trump durante os quatro anos de sua presidência e culminou na fraude eleitoral – a eleição roubada, que era uma imagem clara do que é o Grande Despertar. É a compreensão da real natureza do Reset, dos globalistas. O povo americano estava escondido dentro do sistema americano, e agora há duas coisas completamente diferentes – a população americana (trumpistsa, ou americanos normais) e a América globalista. E essa é exatamente a linha divisória entre o Grande Reset e o Grande Despertar.

O Grande Despertar tem significado apenas para os patriotas americanos ou também para nós?

Enquanto se trata principalmente de patriotas americanos na onda dos crescentes protestos nos Estados Unidos, poderíamos comparar o significado universal do Grande Reset com um possível significado universal do Grande Despertar, porque o Grande Reset é o resumo de muitas tendências civilizacionais que tinham sido preparadas nos séculos anteriores. Não é apenas a má vontade de algum grupo de idiotas – não, é o acúmulo de resultados negativos e estágios de modernidade. Isso é a negação da natureza humana: a criação de ferramentas técnicas que se tornam passo a passo os mestres, e deixam de ser ferramentas. Então, quando a ferramenta se torna o mestre, isso muda tudo; esse é o momento da singularidade – essa alienação e a perda das identidades humanas passo a passo, a começar pela identidade religiosa, com esse nominalismo contínuo, que pretende destruir todo tipo de identidade coletiva. Agora está se aproximando da perda da identidade humana. Ainda é permitido ser humano; é opcional. Amanhã, ser humano significará o mesmo que ser trumpista ou fascista, e assim por diante. Este é um processo muito sério, e este é o Grande Reset.

O Grande Despertar deve ser tão universal quanto o Grande Reset. Não deveria ser apenas uma reação do povo americano, finalmente compreendendo a identidade cultural das elites dirigentes democratas e dos globalistas em seu país, porque se o conteúdo do Grande Despertar é tão rico de significado, se está inscrito no que é chamado de Seinsgeschichte por Heidegger, e o destino da história – o aspecto ontológico da história – o Grande Despertar deveria ser uma alternativa. Mas deveria estar no mesmo nível e não ser superficial. Somos atacados por algo que é a globalização, e o globalismo com algo muito profundo metafisicamente. Ele técnico, que é liberal, que é o moderno e pós-moderno. Existe uma filosofia por trás dos globalistas, e para combater esta filosofia – que é quase cumprida em escala global, mas experimentando cada vez mais problemas e fracassos – precisamos capitalizar sobre a alternativa. Por exemplo, precisamos rever as relações do Ocidente contra o Oriente, ou do Ocidente contra o resto. Precisamos consolidar o resto da Ásia à Europa contra a dominação deste Ocidente único. Será a mudança da unipolaridade para a multipolaridade, e o Ocidente deve encontrar seu lugar dentro desta estrutura multipolar.

Precisamos destruir esta atitude eurocêntrica/ocidentocêntrica. Precisamos aceitar a pluralidade de civilizações, e essa será uma das muitas características do Grande Despertar. Em segundo lugar, precisamos revisar a geopolítica. Precisamos elaborar uma geopolítica multipolar. Não apenas o poder marítimo ocidental contra o poder terrestre oriental, mas precisamos identificar o poder marítimo e o poder terrestre também no Ocidente. Os Estados Unidos da América são um exemplo claro desta nova geopolítica. Quando há a potência terrestre representada pelos estados vermelhos e pelos trumpistas republicanos, há zonas costeiras que representam a potência marítima. Isso é uma mudança completa da visão geopolítica. Mais do que isso, não precisamos apenas combater a política de gênero ou a desumanização, o pós-humanismo ou o pós-modernismo. Precisamos revisar, retornar ao que perdemos no início da modernidade. Precisamos nos reapropriar do tesouro filosófico desses autores e filósofos e metafísicos e escolas de pensamento que abandonamos, e deixar para trás a modernidade. Penso que esta é também uma característica do Grande Despertar – o retorno a Platão; o retorno à Antiguidade; o retorno à Idade Média; o retorno a Aristóteles; o retorno ao Cristianismo; o retorno às religiões tradicionais – todas as religiões tradicionais. Isso é tradicionalismo.

O Grande Despertar deve ser também uma compreensão do que perdemos com a modernidade. Portanto, não deve ser apenas uma continuação da modernidade ou da pós-modernidade. Deveria ser uma revisão da modernidade, uma revisão crítica da esquerda e da direita. Precisamos de uma revisão completa da própria modernidade. O Grande Despertar é uma espécie de programa filosófico e metafísico – um manifesto que lida com o Grande Reset como um mal absoluto. É uma cristalização de valor oposto. Não é apenas uma defesa dos republicanos contra os democratas nos Estados Unidos. É um conceito muito mais profundo e acho que somos desafiados agora a criar a frente global comum do Grande Despertar, onde os manifestantes americanos serão uma ala e os populistas europeus serão a outra ala. A Rússia em geral será a terceira; essa será uma entidade angélica com muitas asas – uma ala chinesa, uma ala islâmica, uma ala paquistanesa, uma ala xiita, uma ala africana e uma ala latino-americana.

Portanto, precisamos organizar este Grande Despertar, não baseando-o apenas em um dogma. O próximo passo, identidades diferentes, e precisamos encontrar um lugar para elas. Esta escatologia do Grande Despertar que encontramos na tradição cristã. Encontramos algumas figuras especiais para aquele segundo retorno de Cristo para uma luta apocalíptica contra o Anticristo. O mesmo acontece na tradição xiita do Islã, o mesmo acontece na tradição sunita do Islã, e há a tradição indiana do Kali Yuga, a narrativa sobre o fim do Kali Yuga e a luta do Décimo Avatar contra o Demônio do Tempo Pervertido.

Portanto, precisamos de outra tradição, outro entendimento, outra figura e outras imagens para este Grande Despertar, e tudo coincide agora. Não deveria ser apenas uma rejeição política ou econômica do Grande Reset. Precisamos entender o Grande Reset como o maior desafio. O Grande Reset é uma espécie de carruagem conceitual do Anticristo e, para lutar contra ele, precisamos ter uma arma espiritual, não apenas técnica. Material também, mas antes de tudo espiritual. Penso que o Grande Despertar deveria ser um despertar do espírito, um despertar do pensamento, um despertar da cultura, um despertar de nossas raízes quase perdidas, de nossa tradição européia, eurasiática, asiática ou islâmica. Assim, entendo o Grande Despertar, que acaba de começar, como o processo de formação, criação e manifestação desta nova compreensão espiritual da história, do presente e do futuro, bem como a organização da crítica radical contra toda modernidade, contra o ocidentocentrismo, contra o progresso tecnológico e pela revisão do conceito de tempo.

Você mencionou o importante tópico do transumanismo, e também escreveu muitos artigos sobre a ontologia orientada ao objeto de Reza Negarestani. Onde você vê o perigo resultante destes desenvolvimentos?

Eu acho que a ontologia orientada ao objeto é antes uma circunscrição, uma revelação e uma manifestação do verdadeiro objetivo da modernidade. É uma espécie de ponto terminal final antes do qual a modernidade agia em nome do homem, e com a ontologia orientada ao objeto chegamos ao ponto da realidade do objetivo real, que não era a libertação da humanidade, mas a aniquilação da realidade, a destruição do homem, porque depois da morte de Deus seguiu-se logicamente a morte do homem, e essa foi a agenda oculta que agora é evidente na ontologia orientada ao objeto. Assim, Reza Negarestani, Nick Land e Miaso e Harman, nos convidam a desistir, a abandonar a humanidade para chegarmos às coisas em si, ao objeto sem os sujeitos. Esta é mais ou menos a verdadeira agenda do materialismo. Assim, o materialismo foi inspirado por esta ontologia orientada ao objeto que apareceu no final do materialismo, não em seu início. Esta é a conseqüência lógica que eles poderiam ter recebido mais cedo, mas as coisas são como são, e na história de Dasein, na história da filosofia, a ontologia orientada ao objeto chegou por último.

E assim este é precisamente o convite, como diz Nick Land, para destruir toda a humanidade e a vida na Terra. Antes, essa era apenas uma caricatura negra dos tradicionalistas contra os progressistas, porque o progresso sempre afirmou que estamos lutando pela libertação da humanidade, pela vida na Terra, ou pelos seres humanos e pela liberdade. Agora aparece um grupo de pensadores mais progressistas, mais modernizados, mais futuristas. “Não, de modo algum. Ser humano é fascismo. Ser humano é impor os sujeitos sobre os objetos”. Precisamos libertar os objetos dos sujeitos, da humanidade, e, o que é mais interessante, explorar as coisas como elas são sem o homem, sem serem uma ferramenta do homem, sem estarem à mão, na terminologia heideggeriana.

Eles chegaram ao outro lado do objeto. Onde, supostamente, deveria haver o vazio do nada, eles estão descobrindo outro sujeito. Eles são chamados de os deuses idiotas de Lovecraft – os Antigos – as figuras que estão além dos objetos, mas ao mesmo tempo dentro deles. Assim, os objetos são liberados do sujeito humano, da humanidade, e eles abrem sua dimensão oculta, que é o verdadeiro Diabo. A ontologia orientada aos objetos é uma espécie de premonição ou previsão do advento do Diabo filosófico. Assim, o Diabo filosófico está aqui do outro lado dos objetos, e ele aparece pouco a pouco na academia, nos estudos de gênero, e esse é o próximo passo após a filosofia analítica que preparou o território para esse modo de pensar não-humano – inteligência artificial que poderia existir sem humanos e sem vida na Terra.

Assim, com a ontologia orientada a objetos, estamos lidando com a verdade real, não com uma mentira. Pela primeira vez, a modernidade disse a verdade sobre si mesma. O que era antes era uma mentira da modernidade. A modernidade mentiu para todos. “Oh, nós somos a favor da humanidade. Somos a favor da vida. Estamos tentando libertar o ser humano e a natureza do Deus fascista transcendental”. Isso era uma mentira e não a favor da humanidade, mas contra a humanidade e Deus. A idéia principal era liberar o Diabo das correntes com as quais ele foi fixado no Inferno. Esta era a libertação do Diabo, não do homem, e agora chega o momento de libertar o Diabo da humanidade e da vida. E isso é a ontologia orientada ao objeto que afirma claramente, abertamente, explicitamente, e eles são filósofos orientados ao objeto. Eles estão mais próximos de nós, tradicionalistas, porque sempre vimos na modernidade este aspecto diabólico e demoníaco.

Assim, para os tradicionalistas, a modernidade não era neutra. A modernidade desde o início era uma criação satânica, e essa é a principal linha tradicional. Agora aparecem entre as escolas de pensamento filósofos mais progressistas que dizem o mesmo, mas a favor de Satanás. Não é Aleister Crowley ou missas negras ou LaVey – a verdadeira magia negra é a ciência moderna e a cultura moderna. A civilização moderna é uma espécie de preparação para o advento do Anticristo, e a tradição islâmica a identifica como o Dajjal. Os cristãos a vêem como o Anticristo. Penso que este apelo a Lovecraft, à magia negra e ao extermínio do homem e da natureza é revelado por Nick Land como a verdadeira natureza da ciência e da modernidade também, e é por isso que isso serve ao Grande Despertar.

A ontologia orientada aos objetos é o outro lado do Grande Despertar, quando nossa consciência é despertada para o fato daquilo que o progresso realmente é. Ela mobiliza nosso poder espiritual, que desperta o resto de nossa dignidade humana, e essa é a verdadeira luta. Mas é muito melhor lidar com pessoas que dizem a verdade sobre seus propósitos e princípios negativos do que com mentirosos. Assim, dentro da mentira, aparece a verdade mais radical sobre a vida. É por isso que eu não poderia condená-la da mesma forma que odeio a filosofia analítica, o positivismo ou as ciências naturais de Newton ou Galileu, que foram uma pura catástrofe e uma mentira sobre a natureza e a humanidade. Por exemplo, odeio Biden e Kamala Harris, mas não poderia odiar Reza Negarestani ou Nick Land ou Harman que são satanistas reais e conscientes.

Portanto, é melhor lidar com a realidade como ela é do que com todas essas mentiras. Se, por exemplo, um progressista nos Estados Unidos declarasse que eles servem a Satanás, e Satanás deveria voltar, é muito mais fácil para nós lidarmos com ele. Portanto, sempre prefiro a verdade, mesmo quando a verdade é muito escura e muito terrível, sempre prefiro a verdade à mentira confortável que tenta infiltrar-se em nossos pensamentos. O mal ajuda a despertar porque é terrível, e eu acho que o que os americanos estão vivendo agora com Kamala Harris e os Democratas é o verdadeiro horror. Quanto mais horror, melhor, penso eu.

Isto nos leva à conferência que você organizou recentemente, chamada Wozu Philosophen in dürftiger Zeit? (Para que servem os filósofos em um tempo indigente?) Aí você apresentou o conceito do sujeito radical, que nasceu do pensamento de Aristóteles e Johannes Tauler. Por favor, explique aos nossos leitores do que se trata.

Este é o ponto mais importante porque na radicalização do Grande Reset contra o Grande Despertar, o conceito do sujeito está no centro da batalha. Os conservadores estão tentando salvar o sujeito humano, e os progressistas estão agora tentando abertamente destruí-lo em favor da inteligência artificial pós-humana/não-humana, do ciberespaço tecnológico – da ciberontologia. Portanto, o problema do sujeito está no centro, porque os partidários do objeto radical não estão mais satisfeitos em definir os seres humanos como senhores de seus corpos. Eles tentam considerar o homem como medida. É por isso que eles tentam decifrar o genoma, por isso que eles tentam melhorar o DNA. Eles tratam os seres humanos como medida. Isso é a medicina moderna, as vacinas modernas, a tecnologia moderna e assim por diante.

Este é o ponto principal – o homem é uma espécie de medida, e ele não é a medida perfeita. E o ponto principal desta conferência foi que o eu radical é precisamente a idéia que não poderíamos salvar e defender se aceitássemos a maneira como foi entendida e apresentada, durante a era moderna e a filosofia moderna. Já se tratava de um sujeito mutilado, que era um sujeito insuficiente. O sujeito cortado de sua raiz, e para salvar o sujeito periférico secundário, precisamos restaurar este sujeito – devolvê-lo às suas raízes. O que não estava dentro, mas ainda mais dentro do mundo interior – é uma espécie de transcendência interior onde devemos chegar para salvar o sujeito que foi abandonado e destruído completamente. Portanto, isso é uma coisa muito importante que esquecemos.

Esquecemos um dos segmentos deste caminho dentro de nós mesmos para considerar o que é mais íntimo – o homo intimus em latim. Consideramos nosso intelecto como algo que Aristóteles considerava como inteligência passiva. Esquecemos nosso intelecto ativo, a partir da Idade Média com a tradição escolástica. Minha idéia – um retorno a este sujeito radical, ou restaurá-lo. Isso é importante. Este intelecto ativo, a fim de lutar radicalmente contra todos aqueles que desafiam todos os sujeitos. Na minha opinião, não poderíamos defender e salvar o sujeito não-radical, que ainda está aqui, sem a restauração do sujeito radical que desapareceu há muitos séculos do campo da filosofia.

Portanto, a redescoberta da inteligência ativa dentro de nossas almas e dentro de nosso coração é muito semelhante a uma redescoberta do espírito absoluto em Hegel e Schelling, ou Fichte, com o “eu absoluto”. Penso que esta é a maneira de decifrar – através da filosofia clássica alemã, que foi pervertida pelo hegelianismo de esquerda, pelo marxismo e algumas outras aplicações do mesmo. Precisamos redescobrir a dignidade da filosofia enquanto tal com Heidegger, antes de mais nada, assim como com outros filósofos alemães. Devemos redescobrir Aristóteles usando métodos fenomenológicos. Precisamos reavaliar a modernidade da filosofia como as etapas da perda deste sujeito radical, começando por anexar este exemplo de imagem em Santo Agostinho, Dietrich von Freiberg e filósofos como Tauler, Meister Eckardt ou von Suso, assim como Paracelsus e Jakob Böhme. Todos eles tinham uma clara compreensão e experiência deste eu radical, e eu acho que isto não é apenas um ramo especial da filosofia, não é algo arbitrário. Ele está no centro, é inevitável, é o principal problema.

Portanto, o principal problema, para salvar a humanidade, é salvar o sujeito radical que foi, por muitas centenas de anos, esquecido e marginalizado na filosofia. Somente com esta reabilitação do intelecto ativo poderíamos estar preparados para levar a batalha final à filosofia orientada ao objeto e ao progressismo. Portanto, a principal arma teórica dos trumpistas no Grande Despertar deveria ser a filosofia. Filosofia alemã, filosofia grega, filosofia tradicional ocidental – eles estão lutando pelo Ocidente. Eles estão lutando pela cultura indo-européia. Portanto, eles devem conhecer os princípios da mesma. Caso contrário, a luta está perdida desde o início. Portanto, penso que sem esta camada de radicalidade, não poderíamos sonhar com a vitória.

Fonte: Arktos

Aleksandr Dugin

Filósofo e cientista político, ex-docente da Universidade Estatal de Moscou, formulador das chamadas Quarta Teoria Política e Teoria do Mundo Multipolar, é um dos principais nomes da escola moderna de geopolítica russa e um dos mais importantes pensadores de nosso tempo.

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