As metamorfoses da Esquerda no século XXI, segundo Alexander Dugin

Por Juan Gabriel Caro Rivera

Conforme observamos na teoria de Dugin, o embate entre as três grandes teorias políticas da modernidade se encerra com a vitória do liberalismo. No entanto, comunismo e fascismo possuem histórias e destinos distintos quando de suas derrotas. Enquanto o fascismo foi massacrado e marginalizado, o socialismo/comunismo procurou formas de se manter relevante no cenário político mundial. Dugin então separa esses distintos momentos da “esquerda” em três grandes blocos: A velha esquerda, o nacional-comunismo, e a famigerada “Nova Esquerda”.

De todas as ideologias que existiram na Modernidade, nenhuma chegou a exercer influência e poder semelhantes à Segunda Teoria Política na disputa com o liberalismo pelo legado Iluminista. A esquerda em todas as suas variantes, chegou inclusive a converter-se numa “ideologia de reserva” no Ocidente moderno. No entanto, com o colapso do socialismo real, a desintegração da URSS e a adoção de um socialismo de mercado que introduziu no interior dos sistemas socialistas, práticas e medidas capitalistas ao estilo chinês, o mesmo comunismo perdeu a batalha pela Modernidade, fragmentando-se em uma série de movimentos contraditórios que hoje compõe a paisagem deveras heteróclita das esquerdas modernas. A derrota da esquerda no final do século XX se converteu em uma prova de fogo que causou a destruição de boa parte do seu prestígio histórico, sem falar da própria reavaliação de seus fundamentos filosóficos e econômicos que, sob o ataque das ideias neoliberais da direita e do pós-modernismo esquerdista, provocou uma crise sistemática de seu próprio modelo interpretativo da realidade. O comunismo tampouco foi uma ideologia uniforme e no seu interior existiram correntes muito contraditórias, que por vezes estiveram em conflito entre si. Da mesma forma, muitas das teorias da STP tampouco lograram explicar de forma fundamental a realidade social ou as revoluções políticas dos próprios países comunistas. Com o “fim da História”, a luta das ideologias políticas cessou, e a própria esquerda se retirou à posições fundamentalmente relacionadas à cultura, o conhecimento e a identidade que pouco tinham relação com a luta política real do mundo moderno.

Neste caso, quando Dugin aborda o problema do comunismo e sua evolução a partir dos séculos XIX e XX, ele diferencia três grandes famílias da esquerda que, de uma forma ou outra, estão relacionadas entre si, mas diferem fundamentalmente em muitos dos seus aspectos e programas ideológicos. Neste sentido, a STP revela uma multiplicidade de conceitos e conteúdos, muitas vezes encobertos por um uso demasiadamente geral desses mesmos conceitos, os quais tendem a horizontalizar as diferentes matizes que uma mesma palavra pode possuir. Não obstante, o convite para compreender as diferentes famílias da esquerda pode ser relevante na medida em que nos permite reavaliar nossas posições críticas e compreender qual foi a evolução dessas mesmas famílias ao longo do tempo. De acordo com Dugin, para melhor compreender este fenômeno, é necessário dividir a esquerda em três grandes categorias que compõe, em definitivo, as múltiplas faces do comunismo tal e como se apresenta na realidade política concreta. Estas três grandes divisões seriam: a Velha Esquerda, o nacional-comunismo e a Nova Esquerda. As duas primeiras apareceram ao final do século XIX, enquanto a última dessas correntes nasce em meados do século XX, devido às profundas mudanças históricas produzidas no mundo do pós-guerra.

As divisões da Velha Esquerda

Agora, seguindo estas categorias, a Velha Esquerda seria um conjunto de correntes que, partindo das teses marxistas, teria desenvolvido seus pressupostos críticos permanecendo em uma espécie de ortodoxia congelada, segundo a qual o comunismo é uma explicação da exploração social por meio do capitalismo. Para a Velha Esquerda, o comunismo seria um estado superior do desenvolvimento social, explicável por meio do materialismo dialético, único método científico capaz de analisar a evolução da sociedade. Deste modo, a teoria marxista sustentada pela Velha Esquerda é caracterizada pela denúncia da exploração social burguesa, a realidade social da luta de classes, o destino do proletariado como sujeito revolucionário da sociedade e a busca por uma auto-organização dos trabalhadores, visando impor um mundo igualitário através de uma ditadura. Esta visão ortodoxa da STP sofreu uma série de revisões e transformações distintas à medida que os pressupostos teóricos de Marx e Engels se mostraram insuficientes para analisar as lutas sociais e a evolução do capitalismo nos anos posteriores. As brilhantes intuições do jovem Marx sobre a aparição de um “domínio real do Capital” que substituía o “domínio formal do Capital”, a mecanização dos processos produtivos, a evolução do sistema financeiro, assim como suas análises de maturidade sobre a transição ao socialismo desde estruturas agrárias arcaicas (isto é, dos remanescentes de um comunismo primitivo, como o Mir russo, ou os alódios europeus) por meio dos quais se poderia saltar etapas históricas, enquanto compreendida a estrutura social das sociedades analisadas, foram ignoradas sistematicamente por essa corrente. A Velha Esquerda se caracterizou por converter o materialismo histórico em um dogma, e reduzir a totalidade das análises sobre a realidade a sistemas econômicos que, durante a segunda revolução industrial, tiveram uma grande capacidade prognóstica e um poder de prever muitos comportamentos capitalistas até o ponto de descifrar alguns de seus fenômenos mais complexos. No entanto, à medida que o mesmo capitalismo e a sociedade mudavam, sua capacidade de análise perdeu grande parte do seu potencial explicativo. Nas análises da Velha Esquerda não existe uma avaliação crítica sobre o aparecimento da sociedade de informação (sociedade pós-industrial), da dissolução proletária na classe média, a ascensão do comunismo ou as mutações do capitalismo e do liberalismo pós-guerra.

A maioria dos representantes mais ortodoxos da Velha Esquerda podem ser encontrados nos círculos políticos de partidos comunistas ainda existentes no primeiro mundo (países onde uma revolução comunista jamais foi realizada) e se caracterizam pela defesa de uma versão suave do marxismo. Grosso modo, renunciaram a ideia de uma revolução violenta e contentam-se com o jogo democrático, convertendo-se em aliados de fato das correntes políticas de centro-esquerda. Também se caracterizam por rechaçar a experiência soviética, que percebem como uma espécie de desvio histórico das ideias presentes na esquerda, e como a instauração de um capitalismo de Estado, segundo as ideias da Quarta Internacional inspirada por Trotsky. Entre os seguidores dessa corrente também desapareceu a fé nas profecias de Marx, e continuam realizando sua defesa da exploração aos desamparados, pobre e demais grupos sociais por inercia.

Outra corrente pertencente à Velha Esquerda é a social-democracia. Devemos entender por social-democracia o conjunto de teorias produzidas por pensadores comunistas baseados no revisionismo de Eduard Berstein, quem defendia um comunismo renunciante da luta de classes, para defender um “socialismo espiritual”, isto é, democrático, inspirado em Kant por um lado, e no desenvolvimento da classe média que, conforme Berstein, deveria converter-se no principal sujeito de transição ao comunismo. Desde a época de Karl Kautsky, discípulo de Engels, a social-democracia se caracterizou pela formação de muitos partidos políticos participantes dos processos democráticos modernos, sobretudo insistindo na socialização dos meios produtivos, mas deixando de lado qualquer tentativa de revolução violenta. Os social-democratas chegaram a se converter na principal corrente marxista ocidental, inclusive determinando o curso socioeconômico da Europa e da América do Norte (principalmente durante o New Deal de Roosevelt). Essa corrente caracterizou-se pela defesa de um imposto progressivo, a nacionalização dos grandes monopólios, a ampliação da responsabilidade estatal nos setores sociais (controle do crescimento populacional, subsídios econômicos e taxas de desemprego, etc.) e gratuidade de serviços médicos, educação e aposentadoria.

Além disso, os social-democratas terminaram por defender todo o tipo de slogans liberais. Entre eles: a legalização de drogas leves; a defesa das minorias (sexuais, culturais, raciais e religiosas); a ampliação de direitos individuais e liberdades civis; o desenvolvimento das instituições da sociedade civil; promoção do ecologismo e abrandamento dos códigos penais (abolição da pena de morte). Nessa corrente podemos encontrar uma defesa ao ultraje progressista, a promoção da ciência e cultura ao lado da luta contra os preconceitos religiosos e sociais. Em geral, a social-democracia se caracteriza por polemizar contra a direita liberal em questões econômicas e contra os conservadores nacionais nos valores sociais, defendendo com firmeza o internacionalismo, multiculturalismo e os direitos humanos.

Finalmente, entre a Velha Esquerda existe ainda uma corrente nova, nascida do colapso soviético, que se chamaria de Terceira Via ou extremo centro (como se autodenominam). Esta corrente da esquerda nasceu a partir das ideias do sociólogo inglês Anthony Giddens, e pode ser caracterizada como uma variação da social-democracia, na qual passam a aceitar as teses neoliberais sobre a economia, enquanto que o neoliberalismo aceite as ideias da esquerda sobre o desenvolvimento cultural e científico do mundo moderno. Esta corrente política pode ser qualificada como socialismo fabiano, isto é, uma forma de socialismo moderado estatal que combina uma economia de direita capitalista com uma esquerda social e cultural forte. Ademais, caracterizam-se por uma posição muito favorável à política externa dos Estados Unidos e o abandono das ideias esquerdistas sobre imperialismo, o que diferencia os seguidores de extremo centro dos marxistas ortodoxos ou dos social-democratas clássicos. A Terceira Via tornou-se dominante em muitos países, incluindo Estados Unidos, Grã-Bretanha e Espanha, além de influir em países periféricos como Colômbia, Argentina e México. Entre seus principais representantes, estão Bill Clinton, Tony Blair e Juan Manuel Santos.

O nacional-comunismo como milenarismo escatológico

Entre todas as correntes da esquerda, o nacional-comunismo é sem dúvida alguma uma das mais mal interpretadas e difíceis de avaliar. O próprio Dugin assinala que a maioria de seus representantes se consideram simplesmente como marxistas ortodoxos, seguidores das ideias de Marx, as quais põe em prática. Esta asserção faz com que os representantes do nacional-comunismo terminem por ignorar ou desconhecer, de forma velada, grande parte deste fenômeno combinado, onde a parte comunista de suas ideias permanece como dominante, enquanto sua parte nacionalista permanece oculta. Desde sua aparição, o nacional-comunismo tem sido uma corrente muito paradoxal, e a maioria dos seus representantes ignoram ou desconhecem de forma sistemática as contradições teóricas e práticas de suas próprias experiências revolucionárias. Isto se deve, segundo Dugin, à própria incapacidade do comunismo em compreender-se corretamente, já que as correntes marxistas ortodoxas, expostas anteriormente, foram o principal impedimento de uma reavaliação sistemática das próprias ideias comunistas. No entanto, muitos movimento nacional-comunistas obtiveram êxito em tentativas de tomar o poder com métodos revolucionários, e conseguiram instaurar poderes dominantes em seus respectivos países. A maioria dos movimentos nacional-comunistas pertencem a regiões ou países periféricos que nada tem a ver com a teoria marxista, pois nos países capitalistas – onde podemos encontrar uma indústria pesada poderosa, uma classe urbana majoritária e bem organizada, possuidores de amplos recursos financeiros e sistemas bancários, etc. –, fora a efêmera República Soviética da Baviera, nunca se manifestaram revoluções comunistas em grande escala. Ao contrário, como acertadamente assinala o economista húngaro János Kornai, em seu livro O Sistema Socialista, as características políticas, econômicas e sociais que apresentavam esta série de países antes do advento socialista, eram caracterizadas por:

• Pobreza e subdesenvolvimento;
• Economia agrícola com alto percentual de campesinato e pessoas que careciam de propriedade;
• Baixo desenvolvimento industrial;
• Relações sociais e formas de propriedade de característica pré-capitalista;
• Existência de grandes desigualdades na distribuição de renda;
• Inexistência de um sistema político parlamentar e democrático;
• Países parcial ou totalmente dependentes de outros países.

Como mostra Kornai, as primeiras quatro características entram em conflito com a interpretação marxista da história, especialmente se levarmos em conta que países como Rússia, Albânia, Iugoslávia, China, Vietnã, Cuba, Congo, Somália, Etiópia e Nicarágua se caracterizaram por baixos níveis de desenvolvimento capitalista. Na maioria dos casos, as respostas dadas pelos marxistas têm sido bem evasivas, especialmente se considerarmos que o desenvolvimento desigual e combinado (explicação clássica do Trotskismo) ou a teoria imperialista (Leninismo) entraram diversas vezes em choque com a realidade elementar das próprias revoluções comunistas.

Não obstante, conforme afirma Dugin, muitos observadores críticos ou simpatizantes das revoluções comunistas anteriormente enumeradas têm apontado os componentes nacionais e milenares ocultos por trás destas revoluções. Estes observadores, que na maioria das vezes se afastaram das teorias econômicas comuns, enfatizam os aspectos religiosos e arcaicos das revoluções comunistas. Os filósofos neoliberais demonstraram, por meio de sua crítica teórica, que muitas ideias marxistas não estavam ancoradas em ideias Iluministas e que, pelo contrário, expressavam melhor uma série de reivindicações que poderiam ser relacionadas a ideias gnósticas ou heresias religiosas opostas à ortodoxia cristã. Então, o comunismo expressaria, de forma velada, uma tentativa de oposição à Modernidade ocidental desde um ponto de vista herético. “O próprio marxismo não era um desenvolvimento do pensamento ocidental, mas um retorno regressivo (“slogans modernistas”) à época feudal de revoltas escatológicas e cultos milenaristas. Os neoliberais provaram isso pela crítica sistemática do filósofo conservador alemão, Hegel, bem como através de referências à experiência totalitária soviética” (A Quarta Teoria Política, pág. 341-342). Entre os principais expoentes críticos desta tese podemos encontrar Karl Popper, Frederik Hayek, Ludwig von Mises, Murray Rothbard, Norman Cohn, Eric Voegelin, Samuel Huntington e Raymond Aron, para os quais o comunismo e o anarquismo foram na realidade movimentos religiosos heterodoxos que, uma vez colapsada a realidade social tradicional (ortodoxa), emergiram com suma violência e tentaram impor sua interpretação milenarista da história como um retorno às comunidades primitivas que estavam sendo destruídas pelos processos alienantes produzidos pelo capitalismo.

Para os filósofos neoliberais, assim como para os simpatizantes do nacional-comunismo, o marxismo não é, de modo algum, uma teoria científica positiva do mundo, mas uma “sociologia holística mítica” que explica o mundo por meio de um grande relato religioso. «Como um mito, o marxismo nos narra a história de um estado paradisíaco original (“comunismo primitivo”), o qual é gradualmente perdido (“a divisão primitiva do trabalho e a estratificação da sociedade primitiva”). Então, as contradições aumentaram, chegando ao ponto em que, no fim do mundo, elas foram reencarnadas na forma mais paradigmaticamente pura do confronto entre Trabalho e Capital. O capital – a burguesia e a democracia liberal – personificava o mal global, exploração, alienação, mentiras e violência. O trabalho incorporava um grande sonho e uma antiga memória do “bem comum”». Mas no confronto entre estes dois inimigos, o Trabalho finalmente venceria o Capital e reestabeleceria a verdade ao transformar o passado (a comuna original) no futuro (o comunismo científico): «Mas este não será o “comunismo inicial de origens naturais”, mas um tipo artificial, científico, no qual o diferencial, acumulado por séculos e milênios de alienação, servirá à “comuna”, à “comunidade”» (Ibíd., pág. 81-82).

Portanto, o comunismo expressaria uma opção herética, ainda que tradicional, de uma forma milenar: seria a restauração da comunidade sagrada que existia antes de sua desintegração em uma sociedade a ser atravessada por múltiplas divisões e alienações (separação entre o profano e o sagrado, a política e a religião, o privado e o público, etc.). Desse ponto de vista, muitos simpatizantes do nacional-comunismo russo proclamaram que a revolução russa não era um evento social fortuito, mas justiça divina que punha fim a uma realidade alienada e dominada por forças obscuras. O bolchevismo foi, então, uma solução totalitária e agressiva do eslavismo revolucionário, do pan-eslavismo eterno da alma eslava. Continuação do eterno ódio da Igreja Oriental e dos cátaros contra Roma, do ódio de seus monges, hierarcas, políticos e humanistas contra o Ocidente que consideravam anticristão e materialista. A mutação bolchevique retraduziu temporalmente este ódio atávico, como o novo Reino de Satã, manifesto na exploração capitalista dos trabalhadores nas economias Ocidentais. O primeiro a compreender isto foi Georges Sorel e, pouco depois, Nikolai Ustrialov, Piort Savitsky, Karl Otto Paetel, Heinrich Lauffenburg, Ernst Niekisch e Fritz Wolffheim. Para todos eles, o nacional-comunismo «consiste na mobilização de bases arcaicas (locais, via de regra) de modo a liberá-las na superfície e realizá-las na criatividade social e política. Aqui entra a teoria socialista que serve como um tipo de “interface” para estas energias, as quais sem o Socialismo permanecem como um fenômeno local; e graças ao Marxismo – ainda que entendido e interpretado de uma maneira específica – estas energias tem uma oportunidade de intercomunicação com fenômenos substancialmente similares, ainda que estruturalmente diferentes e até mesmo reivindicar universalidade e escopo planetário, transformando o Nacionalismo, aquecido pela racionalidade socialista, em um projeto messiânico» (Ibíd., pág. 311).

Portanto, Dugin aponta aqui a importância de uma leitura de Marx a partir da Direita, isto é, ver o marxismo como a última corrente moderna que herdou a patogênese invasiva e recorrente das essências budistas e extratos zoroastrianos, que desde o arcaico culto gnóstico de Manes ou Mani, brotam na inteligência ocidental sob a forma de diferentes heresias – bogomilistas, cátaros, albigenses, patarinos, publicanos e outros perfecti – difundido com mística sublime a agonia iminente do mundo e sua inutilidade, sua mensagem consoladora de negação e renúncia, frente à cultura da vontade e da criação da humanidade característica do Ocidente iluminista. Para Dugin, o nacional-comunismo seguirá sendo uma corrente importante “na medida em que a maior parte dos segmentos humanos ainda não esgotaram suas energias arcaicas, étnicas e religiosas, diferentemente dos cidadãos do Ocidente modernista, iluminado e racional” (Ibíd., pág. 313).

A Nova Esquerda como face da Pós-modernidade

A última corrente da esquerda a aparecer no curso da história moderna foi a Nova Esquerda. Essa corrente de pensamento nasce como uma revisão teórica completa, sistemática e total de todos os pressupostos, conceitos e ideias da Modernidade, intencionando fundar um novo paradigma interpretativo da realidade, da sociedade e do mundo. O principal argumento pós-moderno é de ordem filosófica e procura responder a pergunta: existe a verdade? E se existe, como é possível afirmá-la? A Nova Esquerda tenta responder isto desde uma interpretação esquerdista não ortodoxa de Marx, que foi revisado e confrontado com outros autores similares, entre Freud e Nietzsche, além das teses existencialistas de Heidegger e o estudo das estruturas linguísticas e simbólicas realizado por Ferdinand de Saussure e Claude Levi-Strauss. A principal tese da Nova Esquerda é que, por trás da fachada democrática e liberal da Modernidade, esconde-se um grande e emaranhado nó de poder, opressão total, preconceitos e formas de repressão que alienam os sujeitos por completo. A Nova Esquerda explica este processo afirmando a existência de uma superestrutura (representada pela razão, ideologia, valores, estado, etc.) que reprime a infraestrutura (o inconsciente, relações econômicas, vontade de poder, etc.) e desta forma cria uma espécie de mal-estar cultural que reemerge constantemente como violência, repressão massiva contra a população civil, guerras mundiais, genocídios, além de problemas psicológicos graves entre indivíduos e populações, o que demonstraria que, em si, o Iluminismo e seus ideais de progressos teria sido incapaz de cumprir suas promessas. Portanto, a pós-modernidade seria uma revisão crítica dos pressupostos da Modernidade, intencionando clarificar seus próprios objetivos e levá-los além.

Em si, a Nova Esquerda tem como programa a liberação das estruturas do inconsciente social de todas as formas de opressão que foram criadas pela razão, por isso que seu programa social e político tem como fundamento uma crítica radical da cultura, os sistemas de valor e a própria concepção de lugar do indivíduo no mundo. Para a pós-modernidade, a Modernidade é o ponto culminante de um paradigma racista, patriarcal, capitalista e homogêneo de exploração da natureza e da sociedade. A prática para superar este paradigma chegou a ser reconhecida como “desconstrução”, que pode ser definida do seguinte modo: se o poder constrói os indivíduos, isso significa que a única forma pela qual eu sou capaz de desconstruir os “dispositivos de submissão” que me são impostos, é tentar não fazer o que eles esperam de mim, rechaçar suas normas que esperam que eu aceite, inverter a relação dominador-dominado. Por exemplo, eu não sou obrigado a ser curado pelo Estado, a manter a boa saúde, posso fazer com meu corpo o que eu quiser, posso me drogar, posso ter relações sadomasoquistas, procurar várias fontes de prazer sexual em vez de submeter-me ao regime conjugal e a família tradicional… Cada um deve ser único e o único não pode ser definido, é uma plastilina que podemos modelar conforme nossos anseios. É uma passagem da crítica sobre a exploração, do pode exercido sobre os explorados, a uma crítica das normas de vida coletiva, o que logicamente conduz a uma busca frenética pela singularidade, uma espécie de êxodo em que se foge de qualquer obrigação. O indivíduo deve se “desterritorializar” constantemente, converte-se em multitude, em rizoma, “esquizomassa” em constante delírio coletivo. Assim pode ser resumido o programa político e social da Nova Esquerda.

Resumidamente, a Nova Esquerda se caracteriza por um rechaço taxativo da razão (Deleuze e Guattari celebram abertamente a esquizofrenia); a destruição do homem como medida de todas as coisas (a “morte do autor” de Barthes, a “morte do homem” de Foucault); a superação de todos os tabus sexuais (liberdade para eleger a orientação sexual livremente, anulação sobre o tabu do incesto, promoção de perversões sexuais, etc.); legalização de todos os tipos de drogas (inclusive as pesadas); a passagem para novas formas espontâneas e esporádicas de ser (o rizoma, a esquizomassa, etc.); a destruição de qualquer forma estruturada de Estado ou governo e a proclamação de comunas anárquicas livres ou TAZ (Temporal Autonomous Zones, ou Zonas Autônomas Temporárias). Com este programa, a Nova Esquerda propõe o retorno às sociedade tribais (interpretadas pela chave libertária e pós-moderna), onde os indivíduos viviam livres de qualquer opressão econômica ou social, praticando o livre intercâmbio da dádiva (no sentido antropológico de Marcel Mauss) e a liberdade sexual (psicoanalisada por meio de Freud e Lacan). As propostas práticas da Nova Esquerda podem ser observadas em muitos movimentos sociais e políticos em todo o mundo. Por exemplo, podemos percebê-las no Foro de São Paulo ou no movimento Occupy Wall Street, nas marchas do orgulho gay, legalização das drogas ou na defesa das minorias (imigrantes, homossexuais, etc.) ao redor de todas as capitais mundiais. Em geral, os movimentos da Nova Esquerda impulsionam qualquer coisa que possam parecer com um carnaval, como meio de romper com o cotidiano. O objetivo da pós-modernidade, como disse Dugin ao comentar a tese de Michael Hardt e Negri, é conscientizar as multidões de que “o globalismo cria as condições para a “revolução das multidões” planetária e universal, a qual usando o globalismo universal e suas oportunidades de comunicação e difundindo conhecimento aberto criará uma rede de sabotagem global – para passar do humano (que age como sujeito e objeto de violência, relações hierárquicas, exploração e “estratégias disciplinares”) ao pós- humano (mutante, ciborg, clone, virtual), que pode escolher sexo, aparência e racionalidade individual a sua própria maneira e por qualquer período de tempo” (Ibíd., pág. 321).

A pós-modernidade exerce um grande impacto na estética, cultura e tecnologia. O domínio da arte é copiado pelo desconstrucionismo por meio de performances que são praticamente dominantes em todas as esferas da estética moderna, enquanto as ideias de brincar livremente com a forma (impulsionadas pela arte abstrata e objetivismo) praticamente fizeram a própria ideia de pintura desaparecer. Exemplos similares podem ser percebidos na arquitetura, escultura, cinema, literatura e teatro. No campo cultural, a Nova Esquerda domina de forma definitiva todas as academias e universidades, já que muitos de seus autores são constantemente citados. Quanto à tecnologia, a Nova Esquerda inspira muitos dos desenvolvimentos modernos, especialmente quando levamos em conta suas reflexões sobre a virtualidade, o simulacro, a digitalização do mundo, etc. Muitos dos dispositivos eletrônicos e redes sociais modernas, são inspirados nos laboratórios ideológicos da pós-modernidade ocidental, que recebem sua influência passivamente, sem tradução crítica das invenções tecnológicas quanto às necessidades básicas das sociedades.

Por fim, o próprio Dugin avalia de forma crítica a pós-modernidade e o legado da Nova Esquerda. Para Dugin, a pós-modernidade pode ser dividida em duas partes: a medida que a crítica pós-moderna “desconstrói” as bases e fundamentos da Modernidade e do liberalismo, denunciando sua essência racista, opressora e totalitária, a mesma pós-modernidade pode converter-se em um instrumento da Quarta Teoria Política na luta contra o Ocidente. No entanto, o mesmo Dugin rechaça toda a sua vertente moral, que é uma radicalização dos próprios pressupostos da Modernidade. Essencialmente, Dugin afirma que devemos dirigir o processo de desconstrução pós-modernista para a Modernidade política ocidental, sem compartilhar de suas posições morais destinadas a declamar a magnificência, no espírito de Deleuze e Guattari, das massas esquizofrênicas e da sociedade anti-edípica fundada sobre a abolição de toda forma de proibição. Esta parte desviante da pós-modernidade deve ser negada sem qualquer apelo, ao mesmo tempo que devemos aceitar e dominar sua parte desconstrucionista. Desse modo, a Quarta Teoria Política será uma síntese entre tudo que é pré-moderno e pós-moderno, isto é, tudo o que não é moderno, com o objetivo de criar uma contestação radical ao mundo atual.

Fonte: Geopolitica.ru

Tradução: Augusto Fleck

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