Carta de um professor peronista a seus alunos que apoiam o aborto

Por que a esquerda anti-imperialista apoia o aborto? Considerando que figuras como Juan Domingo Perón, Eva Perón, Hugo Chávez, Rafael Correa, Eduardo Galeano e vários outros anti-imperialistas de renome inquestionável apontavam para o aborto como parte de um projeto de poder da Sinarquia Global, por que os jovens supostamente “anti-imperialistas” do século XXI apoiam Soros, Rockefeller e Bill Gates?

Meus queridos Manuel, Sofía, Adílio, Telma, Federico, Nicolás, Carolina… hoje vocês desqualificam – e classificam como conservadores, retrógrados, nacionalistas católicos e até fascistas – aqueles que se opõem ao aborto.

Permitam-me, com grande respeito e pelo carinho que tenho por vocês, fazer-lhes algumas perguntas: Não lhes causa impacto, não lhes diz nada que Perón, Evita, Carrillo, Kirchner, Chávez e Correa fossem contra o aborto e que Kissinger, Rockefeller, Soros, Bill Gates e muitos dos grandes meios de comunicação social que vocês tanto criticam são a favor?

Se isso lhes impacta – se não, não vale a pena continuar a ler esta carta – podemos rever em conjunto as opiniões sobre o aborto daqueles que construíram a nossa grande história.

Antes de fazermos essa revisão, embora seja antiquado falar sobre a doutrina peronista, deixem-me lembrar-vos que, quando se trata da defesa da vida humana, essa doutrina é contundente. Para o médico Ramón Carrillo, o maior sanitarista da história da América Latina, o aborto constitui um crime que deve ser punido, não tanto na mulher que abortava, mas nos profissionais e enfermeiros que se prestaram à sua implementação. Foi Ramón Carrillo quem ordenou que, nos livros onde a doutrina peronista foi difundida, se escrevesse “convencido de que o aborto criminoso constitui uma prática amoral e delituosa, mesmo quando é realizado por profissionais na arte de curar, (é que o Estado) dirigiu os seus esforços para o objetivo de bani-lo para sempre do nosso meio”.

Sabeis que no dia 12 de Dezembro de 1950 a nossa Evita, com aquela força que lhe vinha da alma, gritou, tremendamente zangada, a um grupo de enfermeiras que tinha ajudado alguns médicos reacionários da pequena burguesia de Buenos Aires a acabar com a vida das crianças por nascer: “Camaradas, o aborto é um capricho reacionário e burguês… camaradas, todo o aborto que permitam é um serviço às potências coloniais…”.

Já refletiram calmamente sobre o fato histórico de, em 1974, na Conferência de Bucareste, Kissinger ter sido o principal promotor da instauração mundial do aborto e Perón o principal opositor dessa iniciativa? Sabiam que Perón planejou cuidadosamente durante meses o seu confronto com Kissinger, o estrategista geopolítico mais importante da estrutura hegemônica do poder mundial?

Devo recordar-vos que Perón foi surpreendido pela morte antes da Conferência, mas o embaixador argentino, com coragem e inteligência, seguindo as instruções precisas de Perón, frustrou em Bucareste a instauração mundial do aborto proposto por Kissinger. Como se pode compreender que muitos de vós que se sentem nacionais e populares, entre Kissinger e Perón, tenham hoje escolhido Kissinger? Vocês ainda têm dúvidas? Acham que estou a exagerar? Por favor leiam, então, o livro do camarada Paulo Ares intitulado Perón versus Kissinger.

Alguns jovens formados no progressismo relativista perguntam-me: será que Eva ou Perón pensariam o mesmo hoje em dia? E volto a perguntar-lhes: porque haveriam de mudar? O mal deixa de ser maléfico simplesmente por causa da passagem do tempo? Há alguma nova evidência científica que contradiga a afirmação de Ramón Carrillo de que quando uma mulher está grávida no seu ventre bate o coração de uma vida – e não um “fenômeno” como sustenta Ginés Gonzales García – e que o aborto, como consequência lógica, é homicídio?

Aproximando-nos um pouco mais dos nossos dias, lembram-se da admiração que Néstor Kirchner tinha por Ramón Carrillo. Sabem que a 26 de Novembro de 2004, fiel ao seu estilo frontal, um enfurecido Presidente Kirchner jogou em uma lata de lixo o projeto de lei de legalização do aborto que Ginés González García lhe tinha apresentado. Quando questionado sobre este episódio, Néstor declarou com raiva aos meios de comunicação social: “A minha rejeição ao aborto sempre foi clara!”.

Hugo Chávez não foi menos enfático no debate que teve com Henrique Capriles, quando este último se declarou a favor do aborto em casos de crianças com síndrome de Down. Nessa ocasião, a 15 de Setembro de 2012 se a minha memória não me falha, Chávez disse a Capriles: “Em outros lugares eles aplicam o aborto. Me acusem de conservador, mas não concordo com o aborto para interromper o parto. A criança nasceu simplesmente com um problema, agora temos de lhe dar amor”. Ele falou em amor e introduziu a palavra-chave que deve ser introduzida neste debate que nos foi imposto pela oligarquia financeira internacional. Nós pregamos uma doutrina de amor, de amor pelos mais indefesos, por isso nos opomos ao aborto, porque já vimos como com as suas mãozinhas e seus pezinhos o bebê se defende da pinça que quer despedaçá-lo. É por isso que Rafael Correa, quando o parlamento equatoriano se preparava para legalizar o aborto a 14 de Outubro de 2013, afirmou categoricamente: “Nunca aprovarei a descriminalização do aborto”.

Pergunto-vos agora, com o coração na mão, se Nestor Kirchner, Hugo Chávez ou Rafael Correa eram conservadores de direita reacionários que se opunham aos direitos das mulheres?

Podemos seguir com outras perguntas. Vocês sabiam que a esquerda latino-americana, quando não vivia do dinheiro das ONG financiadas por Soros, se opunha ao aborto em bloco? É por isso que Eduardo Galeano escreveu no seu famoso livro As Veias Abertas da América Latina: “O que é que os herdeiros de Malthus se propõem fazer senão matar todos os próximos mendigos antes de nascerem? (…) O Banco Mundial dará prioridade nos seus empréstimos ao controlo de natalidade”.

Se me permitem, penso que também é apropriado recordar-lhes o pensamento de um homem da esquerda europeia, que creio que ninguém no seu perfeito juízo poderia acusar de fascista, refiro-me a Pier Paolo Passolini, que, quando se discutiu a legalização do aborto em Itália, afirmou dolorosamente: “Estou traumatizado com a legalização do aborto porque, como muitos, considero-a como uma legalização do homicídio… Que a vida é sagrada, isso é óbvio: é um princípio ainda mais forte do que o da democracia, e é inútil repeti-lo”.

Vocês se perguntarão, e muitos já me perguntaram, se para mim o aborto é uma questão religiosa. E estou pronto a responder-vos. Para mim o aborto é um crime, é homicídio, o mais vil de todos, a fé católica tem como pedra angular da sua doutrina o amor ao próximo, o aborto é um ataque ao ser mais indefeso, aquele que não pode gritar, aquele que não se pode defender, aquele cujo batimento cardíaco é tirado. Mas essa é também uma questão religiosa, porque por detrás do aborto há também ódio ao cristianismo e ao que este representa.

Vou dar-vos mais um argumento – para aqueles que não têm fé ou não partilham da minha fé – de um ponto de vista estritamente geopolítico: ficou provado que a legalização do aborto sempre conduziu a uma catástrofe demográfica, e para um país com grandes extensões e escassa população aprovar o aborto é equivalente a cometer suicídio geopolítico. O que acabo de dizer é tão verdadeiro que em 1936 as autoridades soviéticas, quando se aperceberam da catástrofe demográfica causada pela legalização do aborto após a revolução bolchevique, decidiram considerar legalmente o aborto como crime e como ato contrarrevolucionário.

Perón sabia que precisávamos povoar o país para sermos soberanos e termos um mercado interno importante, e por isso se opôs ao aborto e a qualquer tentativa de controlar a taxa de natalidade. É por isso que os inimigos da pátria querem reduzir os nascimentos. Para nos entregar mais facilmente àqueles que cobiçam a nossa riqueza. Desculpem, talvez “pátria” seja uma palavra muito fascista ou politicamente incorreta.

Vocês se sentem jovens nacionais e populares e eu sei, porque os conheço, que esse sentimento é sincero, mas vocês estão apoiando o aborto promovido pelos donos das finanças mundiais e financiado pelos mesmos usurários que condenam o povo argentino à escravidão do pagamento da dívida externa. Vocês não vêem nenhuma contradição nesse fato? Leiam os livros dos camaradas José Arturo Quarracino e Pablo Yurman que comprovam cientificamente que o aborto é uma ordem dos donos das finanças mundiais. Finalmente, permitam-me lembrar o que tenho dito com freqüência em minhas aulas: a oligarquia financeira internacional, que é hoje o grande ator nas relações internacionais, promove tanto o neoliberalismo quanto o progressismo, que são as duas faces da mesma moeda, como ideologias de colonização e subjugação. O neoliberalismo pulveriza nossas fábricas e o progressismo aniquila nossas famílias. Sem fábricas não há trabalho, sem famílias não há nação. Sem trabalho e sem família, os trabalhadores, nossos “cabecinhas negras”, nossos “gordinhos”, como Evita os chamava carinhosamente, estão sozinhos diante do poder mundial, sozinhos diante dos abutres do capital financeiro internacional. Por favor, voltemos ao pensamento de Perón e Evita, porque Perón é o futuro, porque em seu pensamento estão as chaves para que voemos em direção uma Grande Pátria e um Povo Feliz. Eu lhe envio um abraço peronista muito forte.

Fonte: Infobae

Marcelo Gullo

Doutor em Ciência Política pela Universidade do Salvador. Mestre em Relações Internacionais pelo Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais da Universidade de Genebra. Graduado em Estudos Internacionais pela Escola Diplomática de Madri. Licenciado em Ciência Política pela Universidade Nacional de Rosário. Professor da Universidade Nacional de Lanús e da Escola Superior de Guerra.

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