Quem decidirá o futuro de Bolsonaro em 2021?

Quem decidirá o futuro de Bolsonaro em 2021 não são os militares, mas o humor do povo, o único anteparo que ele tem, o único escudo que evita sua queda.

Bozó declarou que “quem decide se um povo vai viver na democracia ou na ditadura são as suas Forças Armadas”.

A frase é só parcialmente verdadeira, pois entende que a força das armas é suficiente para garantir o poder político durante o tempo que quiser. Em se tratando de instituições militares dentro de um país, não é o que se observa.

A sociedade tem múltiplos agentes, que concentram e exercem poder uns sobre os outros de diversas maneiras. As Forças Armadas são atores muito importantes na história brasileira, mas raramente hegemônicos ao ponto fantasiado por Bozó, o de ser a instância decisória de um regime político.

Aliás, seria interessante imaginar um cenário em que as Forças Armadas decidam consensualmente estabelecer uma ditadura e tomar o poder sem que tenham adesão do empresariado, do mercado financeiro, legitimidade internacional, apoio dos partidos políticos, apoio da grande mídia de massas, apoio da maior parte da população. Dificilmente a ditadura duraria muito.

Supondo que os oficiais superiores das Forças Armadas amassem Bozó, ainda assim se renderiam ao realismo de equilíbrio de forças dentro do país. Se notassem não possuir poder pra implantar um regime como esse, não seguiriam na aventura.

Um fator que tem de ser levado em consideração por todos os atores nos jogos de poder, inclusive aqueles que atuam nos patamares superiores, é a perspectiva e a legitimidade conferida pela população a determinado status quo. Isso era assim no Império Romano e no Império Chinês. E é mais verdade ainda em sociedades industriais de massas.

Mas claro, não há consenso algum entre os oficiais superiores a respeito de Bozó e do melhor regime político para o Brasil. As Forças Armadas não são um bloco monolítico.

Sendo assim, a frase de Bozó é um afago em alguns dos militares que carregam esse tipo de crença, uma massagem no ego deles. Por ser iliberal, arrepia os cabelos dos apoiadores do sistema da Nova República.

Mas quem decide o futuro de Bozó em 2021 não são os militares. É o humor da sua massa popular. Esse é o único anteparo que ele tem, o único escudo que evita sua queda, pois outras instituições já estão perdidas ou em vias de serem perdidas.

[ps.: há de se perceber que as massas também não são onipotentes, ou então Temer teria caído.]

André Luiz

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

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