O que resta na Rússia da memória do escritor nacional-revolucionário Eduard Limonov

Escrito por Sasha Cepparulo
Na primeira metade deste ano faleceu Eduard Limonov, um dos principais escritores russos do século XX e líder do mais polêmico partido político de oposição daquele país: o Partido Nacional-Bolchevique (mais tarde rebatizado como A Outra Rússia). Limonov deixa um legado literário de inúmeras obras excepcionais, dotadas de imenso lirismo, e uma linha política verdadeiramente radical e avessa aos compromissos e conciliações.

Eduard Limonov: socialista e nacionalista, primeiro vagabundo em Nova Iorque e depois escritor de sucesso, punk rebelde e nostálgico do regime soviético. Após sua morte em 17 de março deste ano, no cenário cultural e político russo, há aqueles que, por um lado, recordam apenas o poeta, tentando reduzir sua ação política incendiária ao lirismo de suas obras e há aqueles que, por outro lado, exaltam apenas o político, ressaltando que ele nunca foi um político profissional, mas um militante incansável e excêntrico cuja ação pode ser compreendida graças a suas obras, destinadas a ser uma espécie de Vade Mecum em estilo literário. De fato, uma personalidade como a de Eduard Limonov dificilmente se inclina para qualquer abordagem unilateral. O poeta e o político Limonov continuam sendo dois pólos que, embora não sejam opostos mas profundamente interdependentes, não podem ser reduzidos um ao outro.

O D’Annunzio Russo

Muito frequentemente associado e comparado a D’Annunzio, certamente Eduard Limonov por muitos aspectos biográficos recobre o papel do Vate no imaginário coletivo russo: espontâneo, forte, ferozmente livre e incansável, ele espetaculariza sua vida ao transformando-a em um romance. Viaja na França, na Itália, vive nos Estados Unidos da América onde escreve seu primeiro romance “I am Eddy” que a princípio ele não consegue que seja publicado por nenhuma editora.

De volta à Rússia no início dos anos 90, em 1993, juntamente com Aleksandr Dugin e “Egor” Letov fundou o Partido Nacional-Bolchevique (mais tarde declarado ilegal). Isto não impede Limonov que, durante a guerra na Iugoslávia, vai à Sérvia e participa ativamente dos combates. Firmemente convicto de que o norte do Cazaquistão era uma região historicamente russa, em 1999 ele é preso acusado de estar planejando uma insurreição armada para anexar aquela região. Em 2010 ele funda o partido “A Outra Rússia”, cujo registro oficial foi recusado várias vezes pelas autoridades russas.

A atividade política de “A Outra Rússia” se distingue por ter apoiado ativamente os protestos que levaram à anexação da Crimea pela Rússia. Em 2020 os “limonianos” rebatizaram este partido chamando-o, em homenagem ao seu mais importante criador e ideólogo, “A Outra Rússia de E. V. Limonov”.

De um ponto de vista estritamente político-ideológico, porém, a comparação com D’Annunzio é muito fraca. O traço essencial e incontroverso que distingue a ação política e a ideologia de D’Annunzio (assumindo que ele teve realmente uma) é o elitismo. Esta característica está absolutamente ausente em Limonov. Os rocambolescos eventos de sua vida e sua copiosa produção literária certamente o elevam ao status de “líder”, mas isto não deve ser entendido como qualquer tipo de “super-homem” que, do alto de sua originalidade e criatividade, estaria destinado a liderar aristocraticamente as massas. O legado do Limonov político está impregnado de socialismo e, para usar um termo muito em voga hoje em dia, populismo. Limonov representa perfeitamente aquela combinação tipicamente russa de socialismo e nacionalismo que está longe de ter desaparecido.

O último livro

Mesmo com relação a seu legado literário, os debates ainda estão longe de ter terminado. Duas semanas antes de sua morte, Limonov se encontrou com um dos mais importantes editores da editora russa “Individuum”, Feliks Sandalov. O motivo da reunião dizia respeito à publicação de seu último livro “O Velho que viaja” (“Starik putešestvuet”). Neste livro, o autor reconstrói e descreve em grande detalhe os acontecimentos mais importantes de sua vida, a partir de sua infância. Segundo Sandalov, a análise de Limonov de suas memórias neste trabalho não tem um propósito puramente descritivo-autobiográfico: considerado pelo primeiro um exemplo de “diário de viagem”, é impregnado por uma atmosfera “alucinógena” da qual brota sua qualidade poética. Sandalov prossegue dizendo que a intenção de Limonov de se reconciliar com seu próprio passado é evidente: resumir a soma da sua própria existência, dada sua turbulência, é uma tarefa muito difícil, pode-se ao menos tentar compreender mais profundamente alguns dos eventos mais importantes. Além disso, este encontro é muito importante por outro motivo. Limonov dá a Sandalov os livros (infelizmente ainda não traduzidos) que ele considera seu testamento espiritual: “Filosofia da Proeza” (Filosofija podviga), “O Partido dos Mortos” (Partija mёrtvych) e “Haverá um líder afetuoso” (Budet laskovyj vožd’).

O fato de que o último livro de Limonov tem sua vida como tema principal não é insignificante. No panorama cultural russo atual, o debate sobre o moderno e o pós-moderno é muito acalorado, e Limonov é assim configurado como um “exemplo muito claro do patrimônio moderno”: biografia e arte, vida e história estão inextricavelmente ligadas.

Fonte: Barbadillo

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