A Segunda Guerra Civil, ou o próximo colapso dos Estados Unidos

Por Valentin Katasonov

Embora a mídia estadunidense prefira considerar os últimos acontecimentos dos EUA “agitações sociais”, uma série de previsões e profecias têm sido publicadas sobre o colapso iminente da América enquanto potência mundial – algumas delas apontam o ano de 2020 como o início desse processo.

Dezenas de livros e centenas de artigos têm sido escritos, desde o final do séc. XX, em que são anunciados o fim da época dourada dos Estados Unidos e o início de acontecimentos graves.

Patrick Buchanan, em seu famoso livro “The death of the West: how dying populations and immigrant invasions imperil our country and civilization”, escreveu sobre a próxima “morte” dos Estados Unidos, mais precisamente sobre a crise da civilização estadunidense, sobre o declínio dos Estados Unidos como grande potência. O não menos famoso politólogo Samuel Huntington publicou o livro “Who are we? The challenges to America’s national identity” — sua perspectiva sobre o futuro dos Estados Unidos também é pessimista. Francis Fukuyama, sete anos após seu livro de 1992, “O fim da história e o útimo homem”, escreve “A grande ruptura: a natureza humana e a reconstituição da ordem social”, em que também expressa uma ansiedade oculta quanto ao futuro dos Estados Unidos.

Todos esses autores viram como ameaça particular aos Estados Unidos o fato de que a cultura anglo-saxã e protestante começou a ser rapidamente corroída por outras culturas, trazidas por imigrantes não europeus. O “crisol de culturas” em que, em última instância, os povos e os grupos étnicos se converteriam em uma nova comunidade histórica chamada “o povo estadunidense” acabou não funcionando nos Estados Unidos. Decerto, o título completo do livro de Patrick Buchanan em português seria assim: “A morte do Ocidente: como populações moribundas e invasões de imigrantes põem em perigo nosso país e nossa civilização”. Por “população moribunda” o autor estaria se referindo aos estadunidenses brancos, cuja proporção na população estadunidense total está diminuindo de maneira alarmante devido à população crescente de afro-americanos e pessoas de cor.

Segundo Huntington, os bancos e as empresas transnacionais começaram a contribuir para minar os valores culturais e religiosos da “boa e velha América”, corroendo as suas tradições. Todas essas obras foram escritas em um estilo bastante acadêmico. No entanto, hoje a atenção dos americanos não está tanto nos livros volumosos de cientistas políticos e futurólogos universitários, mas em previsões de outro tipo — aquelas em que 2020 aparece como um ponto crítico para os Estados Unidos. E existem muitas dessas previsões.

Por isso, as profecias de “Nostradamus” que já estão viajando pela internet e redes sociais dizem que em 2020 os Estados Unidos “chegarão ao fim”.

As profecias do profeta adormecido Edgar Cayce, que viveu entre 1877 e 1945, não são menos famosas. De meados de 1943 a meados de 1944, Cayce conduziu mais de 1.500 sessões com “informantes” misteriosos, deixando milhares de respostas estenográficas (chamadas de “leituras”) para uma ampla variedade de perguntas. Todas as “revelações” foram recebidas por Cayce em um estado de sonho semelhante a um transe (daí o apelido “O Profeta Adormecido”). Então, ele disse que o 44º presidente dos Estados Unidos seria o último. Segundo dados oficiais, Barack Obama foi o 44º presidente na linha de presidentes dos EUA, com dois mandatos na Casa Branca (de 20 de janeiro de 2009 a 20 de janeiro de 2017). E Donald Trump, que o substituiu, seria o número 45. No entanto, os especialistas calcularam que Trump ainda é o 44º presidente, já que houve o presidente Stephen Grover Cleveland na história dos Estados Unidos, que foi contado duas vezes, o que está errado. Se contado corretamente, Donald Trump é o 44º presidente dos Estados Unidos. Os conselheiros de Trump estão cientes da previsão de Edgar Cayce e a usam ativamente na campanha eleitoral (1). Se Trump for reeleito, ele permanecerá o 44º. Se Joe Biden vencer, isso significará “o fim da América”. E o “começo do fim” pode ser 3 de novembro de 2020.

Edgar Cayce não citou a data de 2020 em suas profecias. Ele falou apenas do 44º presidente dos Estados Unidos. No entanto, conheço duas previsões cujos autores citam nominalmente 2020. A crise nos Estados Unidos, segundo essas projeções, não deve começar mais cedo ou mais tarde, ou seja, deve acontecer em 2020.

Já escrevi sobre outra previsão e seu autor (2). Este é o renomado sociólogo norueguês Johan Vincent Galtung, de 90 anos. Em 1980, ele previu com precisão o colapso da União Soviética. Ele também previu com bastante precisão o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 em Nova York. Galtung é um especialista em geopolítica. Por suas previsões precisas, ele foi apelidado de profeta norueguês. No início do século 21, Galtung disse que os Estados Unidos desapareceriam como um império. Seu declínio começará em 2020 e em 2025 ela perderá completamente seu status de superpotência. O norueguês argumentou que a perda de prestígio internacional dos Estados Unidos seria acompanhada por um “aumento dos sentimentos fascistas” neste país.

E agora quero citar outro profeta que considerou 2020 um ano crítico para a história dos Estados Unidos. Este é Thomas W. Chittum, nascido em 1947. Escritor americano, pesquisador e analista independente, programador profissional.

Durante a primeira metade de sua vida, nosso herói foi um soldado e um mercenário militar. Aos 18 anos foi mobilizado na Guerra do Vietnã: serviu como soldado de primeira classe na 173ª Brigada Aerotransportada do Exército dos Estados Unidos na Indochina, participou de inúmeras operações militares. Na década de 1970, serviu sob contrato nas Forças Armadas do Zimbábue (então Rodésia do Sul), guardando a fronteira. No início dos anos 90 acabou na Europa como mercenário, durante a guerra da ex-Iugoslávia, onde serviu no exército croata.

Ao retornar da Europa em 1993, T. Chittum começou uma vida civil. Com habilidades destacadas, ele se dedicou a ser um programador profissional. E decidiu resumir suas observações acumuladas, durante um quarto de século de serviço militar em diferentes partes do mundo, por meio de atividades analíticas e escritas. Ele é autor de três livros.

Seu trabalho mais famoso foi o primeiro livro que escreveu em 1994-1995, publicado em 1996: “Civil War II: America’s coming collapse”. De acordo com T. Chittum, as tendências que estão ocorrendo nos Estados Unidos são ameaçadoras. A maior ameaça é a mudança na composição etnocultural da população do país. Estamos falando de uma diminuição do número total de residentes americanos na proporção dos chamados “americanos brancos”, portadores de uma cultura que o autor às vezes chama de “cristã”, às vezes “protestante” (com aumento da proporção de portadores de outras culturas).

Mesmo aqueles afro-americanos que nasceram nos Estados Unidos (e cujos ancestrais nasceram nos Estados Unidos) não se tornaram parte da cultura protestante. Eles continuaram a atacar os americanos brancos mesmo depois que as últimas restrições raciais foram levantadas em 1964 e a igualdade total entre americanos brancos e afro-americanos foi proclamada.

A enxurrada de emigrantes de todo o mundo para os Estados Unidos continuou. As leis de imigração dos EUA eram muito liberais e a fronteira estatal dos EUA estava cheia de buracos, especialmente do lado mexicano. Todos os anos, centenas de milhares de imigrantes ilegais entram no país pela fronteira sul. Em vez de um “caldeirão” da América, foi obtido um “caldeirão” em que a pressão foi agravada por contradições étnicas e culturais. T. Chittum advertiu que esse “caldeirão” poderia explodir. Patrick Buchanan, Samuel Huntington, Francis Fukuyama escreveram sobre a mesma coisa, mas as estimativas e previsões de T. Chittum são mais específicas.

Primeiramente, sua linguagem é mais compreensível para o leitor comum. T. Chittum entende de guerra mais que cientistas políticos profissionais e futurólogos em Washington. Em segundo lugar, as previsões desses cientistas políticos e futurólogos são dadas sem datas específicas, enquanto T. Chittum diz tudo muito concretamente: a segunda guerra civil na América começará em 2020.

O estudo de T. Chittum contém um conjunto de indicadores que o autor propôs para monitorar os cidadãos comuns e as autoridades federais a fim de avaliar a velocidade de aproximação de uma catástrofe. A lista de indicadores de Chittum consiste de 36 itens. Aqui estão apenas as primeiras posições dessa lista (eu dou um resumo):

° Aplicação de “tatuagens raciais”: indicação da nacionalidade nos bilhetes de identidade e outros documentos.

º Outorgar aos imigrantes (incluindo imigrantes ilegais) o direito de votar nas eleições.

° Primeiro a restrição, depois a eliminação do direito de porte de armas (destruição do potencial militar da classe trabalhadora branca).

° Divisão racial do júri (os jurados passam a defender e justificar seus companheiros de tribo).

É claro que os outros itens da lista são igualmente importantes. Por exemplo, o parágrafo 16: surgimento e crescimento de áreas proibidas à polícia nas cidades, ou seja, áreas que a polícia deixou de controlar e onde as gangues de rua dominam. Item 20: a expansão dos bairros murados, timidamente chamados de “comunidades fechadas” (fortalezas para a população branca). Ponto 28: queda do dólar em relação a outras moedas importantes. Cláusula 32: mudança no equilíbrio da migração dos Estados Unidos e Canadá (giro de 180 graus no fluxo de migrantes).

O establishment americano desconfiava das previsões de T. Chittum. Sua metodologia de monitoramento de ameaças crescentes foi ignorada. As previsões do veterano de guerra foram descritas como alarmistas, capazes de desestabilizar a situação no país. O autor foi chamado de paranóico, depois foi silenciado. Uma conspiração de silêncio foi organizada em torno de Thomas Chittum e seu livro.

Na Rússia, o nome de T. Chittum é mais conhecido do que nos Estados Unidos; o livro do veterano militar americano foi traduzido para o russo e publicado duas vezes (editora “Knizhnyy mir”). A primeira vez em 2010, a segunda no atual 2020. Na capa da edição de 2010, após o título aparece em letras grandes: “2020”. De vez em quando, a mídia russa entrevista T. Chittum.

Entre as muitas profecias e previsões sobre o destino dos Estados Unidos, as previsões de T. Chittam são as mais fortes e precisas. E elas estão se tornando realidade diante de nossos olhos.

A mídia americana prefere chamar os eventos dos últimos meses nos Estados Unidos de agitação social, mas isso não é verdade. O que está acontecendo tem todos os sinais de uma guerra civil. Um quarto de século atrás, um veterano militar americano advertiu.

Notas
1. https://www.fondsk.ru/news/2020/10/27/amerikanskaya-anomalia-52132.html
2. https://www.fondsk.ru/news/2020/04/06/norvezhskij-prorok-o-skorom-padenii-pax-americana-50549.html

Fonte: Geopolitica.RU

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