Um Balanço Geopolítico da Era Trump

Nas apologias do governo Trump frente a Biden não raro se encontra insinuações de que Trump seria isolacionista e pacifista. Nada mais longe da verdade. Se é necessário apontar as fraudes eleitorais de Biden e designá-lo como pior do que Trump, é necessário também não cair em ilusões de que Trump seria anti-imperialista. Trump é melhor precisamente por expor as contradições americanas e lançar a sede do Império Global no caos. Está na hora de apontarmos as continuidades entre o governo Trump e os governos que os precederam.

Este que vos escreve, em uma análise publicada no site da “Eurasia” algumas semanas após a eleição de Donald J. Trump tornar-se presidente dos Estados Unidos em 2016[1], propôs uma semelhança com a história da seita soloviviana dos “adoradores do buraco”, uma pseudo-religião espalhada nas estepes russas desoladas, cuja liturgia consistia em cavar um buraco na parede do izba; então, uma vez que os lábios se aproximavam, era dita a oração: “minha casa, meu buraco, salva-me e protege-me”. Solovyëv comparou este culto particular ao cristianismo humanista de inspiração tolstoiana em voga na Rússia no final do século XIX, concluindo que as duas doutrinas eram substancialmente idênticas. O cristianismo sem Cristo, segundo Solovyëv, era de fato como um lugar vazio, como um buraco em uma parede. No entanto, os “adoradores do buraco” tinham pelo menos o mérito de chamar as coisas pelo seu nome.

Se a administração Trump teve algum mérito (pelo menos inicialmente e antes do retorno ao pompeiano “mundo livre diante da tirania do comunismo chinês”), foi sem dúvida o de ter superado a retórica doentia da “responsabilidade de proteger”, ou de exportar a democracia e os direitos humanos, mostrando a verdadeira face da América.

Na verdade, Donald J. Trump não hesitou em definir a Europa como um “inimigo”[2], mostrando que qualquer forma de unificação continental européia (seja ela tecno-liberalista, comunitarista ou socialista, etc.) ainda é percebida como uma ameaça pelos Estados Unidos se não for diretamente controlada por Washington.

E o próprio Trump não hesitou em admitir que os Estados Unidos estavam ocupando o nordeste da Síria com o mero propósito de controlar os recursos petrolíferos da Síria: isto é, para evitar a reconstrução econômica do país devastado pelo conflito encomendado pelo Ocidente[3]. Motivo que impulsionou Bashar al-Assad (já alvo, como o presidente venezuelano Maduro, de um potencial assassinato direcionado primeiro negado e depois confirmado, talvez para fins eleitorais) a definir Trump como “o mais transparente entre os presidentes dos EUA”[4].

Uma opinião não distinta da do Líder Supremo da Revolução Islâmica Ali Khamenei, que em dado momento declarou: “Apreciamos Trump, porque ele fez o trabalho por nós, revelando a verdadeira face da América”.

Neste ponto, é bom sublinhar que em termos geopolíticos, apesar de uma difusão considerável (especialmente entre as fileiras colaboracionistas européias) da tese de propaganda do “Trump pacifista” (uma tese que, para dizer a verdade, não tem nenhuma contrapartida real na realidade), não houve nenhuma descontinuidade substancial entre a última administração norte-americana e aquelas que a precederam (especialmente as muito criticadas – por importantes expoentes e ideólogos do trumpismo – a administração Obama). Pelo contrário, a geopolítica trumpista, caso se analisasse de uma perspectiva essencialmente norte-americana, representou uma aceleração vertiginosa da dinâmica desencadeada durante o segundo mandato de Barack Obama.

Como o diretor da “Eurasia” Claudio Mutti apontou corretamente em uma entrevista com a revista sérvia Pečat, já em 2014, em um discurso proferido na Academia Militar de West Point, o ex-presidente norte-americano “disse que o custo das ações militares no exterior era muito alto e que aquelas empreendidas sem considerar as conseqüências redundam em desastres econômicos. Portanto, nos casos em que os Estados Unidos não estão diretamente ameaçados, a intervenção direta não é necessária, mas aliados regionais devem ser utilizados, envolvendo-os em guerras por procuração”[5].

Obama, bem antes de Trump, havia chegado à conclusão de que, em um momento de erosão progressiva do poder norte-americano, a mera força militar não poderia mais ser o único dissuasor possível da hegemonia norte-americana. Em uma versão mitigada da doutrina Cebrowski, a estratégia obamiana se concentrou (como no caso da Líbia, Síria e Iêmen) no uso de forças mercenárias e grupos terroristas diretamente ligados aos serviços de inteligência ocidentais para determinar o caos em várias áreas do continente eurasiático, desde o Levante até as fronteiras da Rússia.

A administração Trump tem continuado nesta linha. Ela explorou inteligentemente seu caprichoso aliado turco na Síria para prolongar o conflito. Nunca parou o apoio logístico para a agressão saudita no Iêmen. Ele criou um acordo fraudulento condenando o povo palestino à não-existência após reconhecer a soberania sionista sobre Jerusalém e o Golan sírio (também para devolver o favor aos muitos doadores generosos de sua campanha, Sheldon Adelson acima de tudo). Ele impôs um regime de sanções unilaterais e criminosas ao Irã usando o peso do dólar como moeda comercial internacional. (As guerras comerciais são consideradas como guerras de pleno direito desde os tempos antigos!). Ele assassinou o general Soleimani em uma missão diplomática, para evitar qualquer possível mediação entre o Irã e as monarquias do Golfo Pérsico e para perseguir seus planos estratégicos precisos: por exemplo, a assinatura dos chamados “Acordos de Abraão”, que serão discutidos em breve. Ele cancelou o “acordo nuclear” com o Irã, cujos termos, para dizer a verdade, não foram de forma alguma respeitados por seu antecessor.

Outra linha de continuidade absoluta com a presidência anterior é representada pela doutrina de contenção em relação à Rússia e à China, definida em várias ocasiões nos documentos do Departamento de Defesa como “entidades malignas”.

Sob Trump, a doutrina obamiana do “Pivot to Asia” (ligada ao deslocamento do centro do comércio global na região Indo-Pacífico) tornou-se a espinha dorsal da geopolítica norte-americana. Assim, além da crescente presença naval e militar no Mar do Sul da China (2000 operações militares somente nos primeiros seis meses de 2020), a venda maciça de armamentos a potenciais inimigos da China (Taiwan em primeiro lugar) e a desestabilização de Hong Kong e vários países que ocupam um lugar de destaque no projeto de cooperação e integração euro-asiática da Nova Rota da Seda, da Tailândia ao Quirguistão, à região de Cachemira, ao Líbano e ao sensacional caso de Belarus (sem considerar a pressão repetida em Pequim sobre Xinjiang, culminando com a recente retirada da lista de grupos terroristas do chamado Movimento Islâmico do Turquestão Oriental)[6].

Washington, de maneira especial, concentrou-se na Índia e nas relações não idílicas entre Nova Deli e Pequim para desencadear um conflito regional (entre dois dos principais países produtores do mundo) que, de fato, atrasaria muito o declínio hegemônico dos EUA.

A figura do notório vigarista Steve Bannon, que apesar de sua saída da Casa Branca, em virtude do apoio econômico garantido pelo magnata corrupto Guo Wengui, continuou a propagandear suas teses anti-chinesas, merece atenção especial.

O papel de Bannon dentro da administração passada tem sido subestimado repetidamente. De fato, o que pode ser definido voluntariamente como o verdadeiro ideólogo do trumpismo, antes de deixar seu papel de estrategista-chefe, conseguiu colocar vários homens dentro dos gânglios da administração que perseguiam abertamente aqueles que eram seus objetivos estratégicos. Um deles é certamente Randall G. Schriver: fundador junto com Richard Armitage (de orientação democrata) do think tank “Projeto 2049” e ex-assistente do Secretário de Defesa para a região do Indo-Pacífico. Na verdade, foi ele quem planejou o recente fortalecimento dos laços militares e comerciais com Taiwan de uma forma claramente anti-chinesa.

De particular interesse é também a ação da administração Trump na Europa e nas fronteiras da Rússia. Aqui Washington concentrou-se na ruptura das relações entre a Europa Ocidental e a Rússia (o caso North Stream 2) e no fortalecimento de sua presença na Europa Oriental também através do lançamento da Iniciativa “Três Mares” (outro legado da era Obama), que, unindo doze países na área desde o Mar Báltico até o Mar Negro e o Mediterrâneo sob o guarda-chuva protetor dos EUA, forma um verdadeiro cordão sanitário nas fronteiras da Rússia[7].

Se acrescentarmos a isso a atual desestabilização da região do Cáucaso, que atualmente impede a formação de um corredor Norte-Sul de Moscou até Teerã e o Oceano Índico, podemos dizer com segurança que a política de contenção da Rússia está bem avançada. E se à Iniciativa dos Três Mares forem acrescentados os Acordos de Abraão ligando Israel a certas monarquias da Península Arábica (com a exclusão temporária da Arábia Saudita, cujas relações de inteligência com Tel Aviv, entretanto, nunca foram questionadas), forma-se um bloco de oposição entre a Europa Ocidental (“jóia” do império norte-americano) e o resto da Eurásia, um bloco cujo objetivo é fazer vãos todos os planos de cooperação entre as duas partes deste vasto continente e, consequentemente, garantir a supremacia norte-americana por mais algumas décadas.

Paradoxalmente, com exceção do caso brasileiro em que foi instalado um presidente que permanecerá um aliado leal dos Estados Unidos independentemente de quem estiver no comando, é precisamente no “pátio traseiro” que a presidência agora passada registrou falhas estratégicas substanciais. O golpe boliviano sofreu um refluxo com a vitória eleitoral de Luis Arce, enquanto a estratégia de pressão e bloqueio naval sobre a Venezuela não teve (até o momento) os efeitos desejados. Mas nada impedirá que a nova administração Biden-Harris continue e intensifique seus esforços na mesma direção.

Em geral, a administração Trump, independentemente do alegado e ostensivo “isolacionismo” (poucas pessoas se lembram que o chamado isolacionismo foi a primeira manifestação de uma forma tipicamente imperialista norte-americana), tem sido propedêutica para a preparação e aceleração (especialmente após a explosão de uma crise pandêmica que gerou bastantes problemas para uma classe dominante que se mostrou inadequada na grande maioria dos países sob a influência de Washington) da estratégia geopolítica norte-americana para a próxima década. Uma estratégia que, mesmo que seja velada de novo pela retórica democrata, não mudará substancialmente em seus objetivos finais.

Notas

[1] Donald Trump, “uomo nel tempo”, www.eurasia-rivista.com.
[2] Donald Trump: European Union is a foe on trade, www.bbc.com.
[3] US troops will remain in Syria to ‘protect’ oil fields from ISIS, www.southfront.com. O petróleo sírio foi inicialmente contrabandeado pelo Estado Islâmico através da Turquia. Enquanto, em um segundo momento, com a ocupação pelas Forças Democráticas Sírias (em sua maioria de etnia curda) e pelo Exército Estadunidense, o petróleo passou a ser transportado ilegalmente através de Israel graças ao obscuro empresário Mordechai Kahana (que possuía ótimas relações com John McCain). Sobre isso, ver, Arab paper reveals Syrian Kurds oil privilege to Israeli businessman, www.farsnews.com
[4] Syria’s Assad calls Trump the “most transparent president”, www.politico.com.
[5] Trump interrompe la strategia di Obama?, intervista a Claudio Mutti sulla rivista serba Pečat, www.eurasia-rivista.com.
[6] A administração Trump (como os seus predecessores) desfrutou amiúde de diversos grupos terroristas que agem nas regiões da Ásia Central ou do Oriente Méxio e Próximo para o alcance de seus próprios objetivos estratégicos. Um relevo particular merece a grande amizade que liga Rudy Giuliani (advogado do ex-presidente) à liderança da organização terrorista do MeK (Mujaheedin e-Khalq) que busca uma mudança de regime em Teerã. Ver Rudy Giuliani calls for Iran regime change at rally linked to extreme group, www.theguardian.com.
[7] VerC. Mutti, Il cordone sanitario atlantico, “Eurasia. Rivista di studi geopolitici” 3/2017. A este projeto se liga também a recente transferência de unidades militares estadunidenses da Alemanha à Polônia.

Fonte: Eurasia Rivista

Daniele Perra

Formado em Ciência Política pela Università DI Cagliari, é colaborador da Rivista Eurasia.

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