A Posição do Cosmos na Visão de Mundo Eurasianista

Os eurasianistas nunca foram materialistas. Nesse ponto, eles estiveram em oposição às principais correntes da ciência moderna. No entanto, para eles era ao mesmo tempo importante não só afirmar a prioridade dos elementos e princípios eternos – daí a principal tese eurasiana de ideocracia, a ideia vigente, o reinado das ideias – mas insistir na percepção do mundo, da política à economia, da religião à ciência, como permeado por ideias. Petr Savitsky insistiu no conceito de “localidade” ou “topogênese” (mestorazvitie). Trata-se da conjunção entre espaço físico e a continuidade dos significados históricos, semântica e eventos. O território é inextricavelmente conectado com a história, e a história é a continuidade de ideias revelando uma única imagem da eternidade monumental que se desdobra através da humanidade e sobre seu caminho espiritual no tempo.

Assim definimos o entendimento eurasianista sobre o cosmos. O cosmos eurasianista é o território generalizante da localidade do espírito. É a ordem espiritual que penetra todos os níveis da realidade, sutis e vulgares, da alma e do corpo, social e natural. O cosmos eurasianista é permeado com trajetórias sutis atravessadas por significados alados e ideias eternas, incandescentes. A tarefa humana é ler estas trajetórias, revelá-las e extrair significados complexos do plasma corpóreo de fenômenos fatos dispares. Para os eurasianistas, o cosmos é uma noção interior. É revelado não através da expansão, mas imersão profunda, através da concentração sobre aspectos ocultos da realidade que nos é dada aqui e agora. A consciência cósmica desdobra-se no sujeito humano em profundidade, não largura. É estar em um ponto ou outro no mundo do sujeito que faz deste ponto uma “localidade”, “topogênese”. O próprio termo grego κόσμος significa “ordem, estrutura, um todo organizado e ordenado”. O cosmos está num estado de tornar-se, desenvolvimento, tornando-se mais e mais si mesmo. O mundo como tal, como simples faculdade de ambientes, não é um cosmos. O mundo não se tornará um cosmos por si ou em si. O mundo transforma-se em cosmos graças ao sujeito, que possui mente e espírito. Somente então, quando a presença pensante é fixada, o mundo transforma-se em “localidade”. Para além, é somente no estabelecimento dos dois polos, subjetivo e objetivo, que eles poderão se mover como inseparáveis, moldando o campo do ser, especial e inteligente.

Vamos enfatizar: Eurasianistas rejeitam categoricamente o materialismo. Isso quer dizer que o homem não é um mero reflexo do mundo exterior. Ele não é criado pela natureza, mas ao contrário, é espírito e natureza em interação íntima e por vezes em oposição dialética que conjuntamente constitui o cosmos. O cosmos é impossível sem a natureza, mas também é impossível sem o homem. O homem é essencialmente bipolar, e estes polos estão fundidos através de uma rede complexa de inter-relações. Essa dramática interconexão desdobra-se como história – não simplesmente história do sujeito, mas como interação entre sujeito e objeto. O cosmos é então, um ser vivo. Em certo sentido, ele próprio é a história – não como plano de fundo ou acessório, e não como objeto isolado, mas síntese entre sujeito e objeto.

O Cosmos Russo
Todos os outros aspectos aplicados da visão Eurasianista tornam-se claros a partir de tal análise filosófica. Quando os eurasianistas insistem que a Rússia não é simplesmente um estado, um país, uma entre outras sociedades europeias periféricas, eles se baseiam precisamente nesse profundo entendimento sobre a dimensão cósmica do ser. Russos são, em essência, o sujeito. No entanto, esse sujeito não está inscrito no vazio (na realidade, nenhum vazio existe), mas em um território existencial e especial tecido primeira e principalmente por ideias, significados e eventos, também atrelado à paisagem e habitat natural. A terra russa como mundo russo constitui o polo objetivo do cosmos russo, ao ponto que sua essência é precisamente composta de ideias. O outro polo do cosmos russo é o homem russo. O cosmos russo engloba dois polos – se subtrairmos qualquer um, imediatamente destruímos sua unidade viva, luminosa e semântica, a união da sacra e piedosa Rus.

O mundo russo é a “localidade” do cosmos russo. Portanto, engloba espaço e tempo, geografia e história. É impossível dividir o povo e a natureza da Rússia, pois juntos constituem algo concreto: um conjunto espiritual-corpóreo único.

É desta posição que os eurasianistas consideraram o principal elemento de sua filosofia. Rússia-Eurásia é uma “localidade”, isto é, a expressão direta e completa do “cosmos Russo”. Ao mesmo tempo, os eurasianistas insistiam que interpretar, estudar, viver e conhecer este cosmos só é possível ao sujeito russo. Se estudarmos a paisagem russa de uma posição alemã, francesa, inglesa ou de qualquer povo europeu, então o próprio objeto de estudo se altera irrevogavelmente. Sua constituição cósmica desaparece. O objeto é arrancado do sujeito e assim perde seu sentido, significado, seu preenchimento de ideias.

O mesmo acontece se um estrangeiro tentar construir o modelo da história russa: eles só percebem nela eventos que possuem significado para sua própria subjetividade, para o critério e avaliação do cosmos europeu. Mas para os Eurasianistas, como eslavófilos ou Nikolai Danilevsky antes deles, era óbvio que civilizações ou tipos histórico-culturais são formas diversas que não podem ser reduzidas a um modelo normativo. Assim, eles insistiam que a Rússia é um continente, um mundo especial, uma civilização separada. Em outras palavras, a visão eurasianista é construída sobre o reconhecimento de um “pluralismo cósmico”.

Sobre o Difícil Caminho ao Universo
A essa altura uma questão teórica pode surgir. O Eurasianismo é construído sobre o princípio da relatividade. Mas se existem cosmos variados, a questão não se torna uma espécie de subjetivismo cultural? O esforço pela afirmação de um cosmos não é a própria e profunda vontade humana na direção da verdade superior?

Em resposta a isso, podemos dizer o seguinte: Pluralismo cósmico não exclui, de modo algum, um cosmos único. Mas esse cosmos não pode ser compreendido como mera soma de “cosmos locais”. Ademais, nenhuma civilização pode ser tomada como algo universal, assim impondo a experiência da conceitualização pessoal de “localidade” sobre outros. A noção de cosmos é extremamente sutil. Nós a abordamos no caminho que leva ao nosso interior, aos domínios da mente, alma e espírito. Lá, no centro da subjetividade – que é sempre específica e está sempre associada a ninguém menos que o mundo objetivo que nos cerca – está a chave para a compreensão do todo. Isto não é uma expansão externa, um diálogo com outros cosmos, e não é uma adição mecânica às outras visões locais, mas imersão no núcleo luminoso da Ideia – Rússia como Ideia, Europa como Ideia, China como Ideia, etc. – que nos aproxima da verdade universal. Se cada um mergulhasse em seu próprio cosmos, eles se aproximariam do sujeito e objeto – oculto, apofático – comuns e verdadeiros. Em outras palavras, quanto mais russo for o russo, mais ele se aproxima do todo humano e não vice-versa, quando perde seu lado russo na troca por algo formal e emprestado do exterior, de outros povos e culturas. O mesmo pode ser dito de qualquer representante, de qualquer cosmos. Mas a presença dessa unidade supra-cósmica não pode ser um conhecimento dado. Deve ser experimentado, praticado. O percurso completo precisa ser atravessado. Pode-se ter esperança que, ao final do caminho até as próprias raízes cósmicas, a pessoa alcance o núcleo da humanidade, a matriz do cosmos como tal, seu centro velado. Mas isso não pode ser reivindicado por antecipação. Ademais, seria um erro substituir a experiência concreta de uma cultura ao colocá-la antecipadamente como algo comum e universal. A abordagem eurasianista à pluralidade do cosmos é, então, não-relativista. É apenas uma abordagem responsável, fundada sobre profundo respeito pelas diferenças de todas as culturas e sociedades, pela parte daqueles que se esforçam na direção do universal mas que atravessam esse caminho honesta, aberta e consistentemente, evitando a todo custo, tomar o desejado como real. O filósofo Martin Heidegger disse: “A questão sobre a existência ou não de um Deus deve ser decidida pelos próprios deuses”. Apenas aqueles que atingiram o coração de seu cosmos podem emitir um juízo sólido e significativo a respeito do universal. A vontade direcionada ao todo humano é maravilhosa, mas não pode ser alcançada sem o estágio preliminar mais importante e necessário de tornar-se um russo perfeito, um humano todo-russo. Mover-se em outra direção apenas nos distancia do objetivo.

Rejeitando o Nacionalismo
Não há um único cosmos, mas múltiplos. O cosmos russo pode ser conhecido, decifrado e afirmado apenas pelo sujeito russo, do qual é parte inalienável. Não há “nacionalismo” aí. Os eurasianistas reconheceram o “pluralismo cósmico” não somente nos russos, mas em outras culturas e civilizações. Ademais, para eles, o cosmos russo em si não era uma monolito com um dominante étnico-cultural estrito. Antes, o que torna a Rússia-Eurásia especial é justamente que englobe um cosmos continental de galáxias, constelações, sistemas solares e conjuntos planetários particulares numerosos. Nikolai Trubetzkoy designou isto com o conceito não tão bem-sucedido de “nacionalismo pan-eurasiano”, que na sua interpretação significava a harmonia em multinível das constelações étnicas dentro das fronteiras comuns do unificado sistema cósmico eurasiano. Evocar o conceito político de “nação”, baseado como tal na identidade individual e emprestado da experiência histórica da burguesia europeia moderna (“New Time”), distorce o pensamento de Trubetzkoy, que tinha em mente a harmonia das constelações culturais, não uma associação mecânica de cidadãos em um sistema político imposto de cima.

A Eurásia é apenas um de muitos cosmos. Ainda sim, ele não clama universalidade, pois para além do cosmos Eurasiano existem outros, outras civilizações: a Europeia, Chinesa, Islãmica, Indiana, etc. Todas possuem sua própria “localidade”, seus modelos, contornos da conjunção sobre sujeito e objeto, pensamento humano e paisagens locais. A maior parte das civilizações humanas, ainda que convencidas de sua universalidade, admitem de facto que além de suas fronteiras há outro mundo, outro cosmos, um ainda menos conhecido, por vezes hostil, outras vezes exoticamente atrativo, as vezes indiferente. Apenas a Europa da Modernidade, assentada sobre o progresso tecnológico, ateísmo, secularismo e ciência materialista viola esse balanço pré-colombiano de civilizações que pode ser chamado de “era dos Impérios”. Eram precisamente esses impérios que representavam as expressões políticas da unidade cósmica que os Eurasianistas ensinam. A Reforma e o Iluminismo declararam guerra contra o princípio imperial e gradualmente destruíram essas estruturas cósmicas, que estavam na maioria das vezes unidas por elementos religiosos, espirituais e celestiais. Eles as destruíram primeiramente no Ocidente, depois no Oriente e no resto do Mundo. A colonização foi então um processo de destruição do “pluralismo cósmico”. No Novo Tempo, europeus passaram a estabelecer entre o resto da humanidade, por força e engodo, uma fé na noção de que apenas o cosmos científico-materialista descrito e estudado pela moderna ciência ocidental é, no fim de tudo, verdadeiro. Todas as outras visões estruturadas diferentemente da filosofia racionalista ocidental do Novo Tempo e sua ciência derivativa eram “mitos, ilusões e preconceitos”. No Novo Tempo da modernidade, o Ocidente se encarregou de “desencantar o mundo” (à la Max Weber), para dividir o sujeito do objeto e assim destruir as sutis conexões dialéticas do cosmos, que colapsaram sob esta separação antinatural. Assim, o Ocidente – com sua ciência, política, filosofia, economia e tecnologia – tornou-se uma ameaça para toda a humanidade. Onde quer que o Ocidente fosse, como administração colonial ou objeto científico, político, social, cultural ou artístico para imitação, o cosmos sofria uma quebra (entre sujeito e objeto) e, consequentemente, era abolido. Não poderia mais haver uma “Santa Rus” ou “Mundo Russo”. O império, a religião, tradição e identidade tornaram-se categorias negativas, e somente as concepções natural-científicas refletindo a história e “localidade” da Europa Ocidental Moderna eram consideradas dignas de confiança e critério do progresso.

Os Eurasianistas foram contrários a essa estratégia colonial do Ocidente moderno. Não somente o Ocidente, mas o próprio Ocidente moderno, materialista, ateu e secular era a seus olhos o principal desafio e maior inimigo. O pior deste inimigo não era tanto o fato de rejeitar o “cosmos russo” e impor sobre nós sua própria cosmologia europeia – essa seria apenas metade do problema (embora em si não seja bom), mas algo ainda pior: o Ocidente moderno se esforçou para destruir o cosmos como tal, abolir a unidade sujeito-objeto entre o homem e o mundo, a harmonia dialética entre mente e corpo. Isso não afetou apenas os russos, tendo sido objetos de constantes pretensões históricas do Ocidente. A própria civilização Ocidental destruiu seu cosmos greco-romano e o medieval depois dele, desenraizando a autoconsciência do cosmos de todos aqueles povos que terminaram sob sua influência pela força ou voluntariamente. Essa ideia foi consistentemente apresentada por Nikolai Trubetzkoy e seu estudo programático, Europa e Humanidade, que marca o ponto de partida do movimento Eurasianista como um todo. O Ocidente moderno não é simplesmente uma civilização entre outras, mas uma anomalia histórica, o resultado de uma catástrofe espiritual – cósmica. Esse Ocidente é um vírus ontológico e gnoseológico. Ele sozinho construiu uma civilização antinatural tecnológica, rejeitou suas origens e se esforçou para subverter o mesmo em todos os povos. Assim, para uma oposição a ele, não é suficiente defender um mundo, um cosmos, mesmo um tão grande e multidimensional quanto o russo, eurasiano, mas conforme Trubetzkoy acreditava, é necessário formar uma frente unida de todas as civilizações tradicionais que em uníssono defenderiam seus cosmos, diferentes de cada um e de todos, e apenas compreensíveis em suas próprias civilizações, culturas, povos e religiões, contra o Ocidente moderno.

Portanto, desde o momento de seu nascimento, o Eurasianismo não era uma mera apologia ao cosmos russo, mas um chamado para uma aliança cósmica de povos e civilizações contra a praga agressiva da modernidade ocidental anti-cósmica.

Cosmos, mas não cosmismo
Esta noção de cosmos é nuclear para a filosofia eurasianista. Isto torna-se especialmente óbvio se considerarmos o cisma entre os eurasianistas no final da década de 1920, quando a ala parisiense do movimento trouxe a filosofia do Cosmismo Russo de Nikolai Fedorov abertamente ao seu arsenal. Essa ação foi renunciada pelos fundadores e principais teóricos do movimento, nomeadamente, Trubetzkoy e Savitsky. Embora as disputas entre as duas facções orbitassem majoritariamente motivações políticas e atitudes em relação à URSS, com a qual os eurasianistas parisienses buscaram se unir sob os termos bolcheviques, o pano de fundo filosófico do lamentável “cisma de Clamart” é revelador.

A mistura entre sujeito e objeto era característica do Cosmismo Russo, reconhecendo aspectos da ciência materialista e artificialmente combinando esta com um entendimento idiossincrático e nada ortodoxo de Cristandade. Não é surpreendente que muitos “cosmistas”, como Andrey Platonov e Marietta Shaginyan, tenham se aliado inicialmente aos bolcheviques, não vendo qualquer aspecto antinatural e inaceitável no materialismo, ateísmo e progressismo. Tal postura era impossível para filósofos e intelectuais profundamente Ortodoxos como Trubetzkoy e Savitsky, assim como para a primeira onda de Eurasianistas próximos deles. O cosmos eurasianista, imbuído de significado e permeado com ideias, era visto como incomensurável em relação a:

• Os cálculos da ciência materialista, atomismo e tecnocracia (no espírito do sonho Fedoroveano de administração dos fenômenos naturais);
• Os sonhos obscuros de ressurreição dos mortos através do avanço científico;
• Uma interpretação livre e puramente herética do dogma cristão;
• Uma paixão exaltada pela natureza;
• Apologia ao fanatismo bolchevique sobre a sociedade, religião e natureza.

O cosmos do Eurasianismo ortodoxo não possui nada em comum com o Cosmismo. O cosmos eurasianista é inteiramente diferente, estruturado como linguagem (não é coincidência que Trubetzkoy tenha sido um linguista mundialmente reconhecido) e manifesto na história (a linha histórica eurasianista foi desenvolvida pelo historiador George Vernadsky e o filósofo Lev Karsavin). O cosmos eurasianista representa principalmente um horizonte existencial com uma nítida verticalidade subjetiva e mente limpa baseada na hierarquia platônica das ideias, junto de uma visão de mundo inteiramente Cristã Ortodoxa. Nesse sentido os eurasianistas eram herdeiros diretos dos eslavófilos russos. Entre eles não há sinal de fixação exaltada no “naturalismo”, menos ainda no progresso tecnológico, sendo tal uma expressão da força anti-cósmica da modernidade europeia ocidental. O cosmos russo dos eurasianistas difere ontologicamente do cosmismo russo, e o “cisma de Clamart” apenas enfatiza isso mais claramente.

O Cosmos no Neo-eurasianismo: O Destino do Grande Coração

Agora nos resta tocar na posição do cosmos no Neo-eurasianismo.

O Neo-eurasianismo expande substancialmente o aparato filosófico eurasiano em muitas direções. Aqui examinaremos apenas as direções que dizem respeito diretamente ao entendimento eurasianista do cosmos.

Em primeiro lugar, converge-se o eurasianismo com o platonismo. Apelar diretamente a Platão, o Platonismo e Neoplatonismo, incluindo o platonismo cristão das igrejas ocidentais e orientais, enriqueceu qualitativamente a filosofia eurasianista, emprestando uma base ontológica à teoria da ideocracia eurasiana. É o suficiente para decifrar a tese tipicamente eurasianista do rei-filósofo no contexto de um platonismo pleno – isto é, imaculado pela modernidade ocidental – necessário para a formação de uma elite eurasianista e a organização vertical da sociedade. Tudo isso é uma aplicação direta dos princípios presentes na República de Platão, à frente de cujo estado estão os filósofos governando à luz das Ideias. A política assume então o sentido de construir uma analogia do estado divino e eterno na Terra, que nos refere à escatologia Cristã – a descida da Jerusalém Celestial e as fundações para a teoria bizantina da sinfonia de poderes. O poder deve ser sagrado. O estado deve ser um reflexo do arquétipo eterno. A classe dominante deve consistir de idealistas e ascetas devotos à sua Pátria e povo, precisamente pelo fato de que eles, por sua vez, são portadores de uma missão sagrada.

No platonismo, o cosmos assume um importante papel de ideia divina e de ser vivo e sagrado. Assim, Neo-eurasianistas pensam no cosmos russo como a imagem viva da Ideia Russa, a máxima orientação do sujeito, política e estado russos, por profunda relação com a natureza e mundo russos de nenhum modo redutíveis à dimensão pragmática de recursos naturais e potencial econômico. Um dos significados para “cosmos” é possivelmente “beleza”, e nesse caso podemos refrasear a fórmula “a beleza salvará o mundo”, de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, como “o cosmos russo salvará o mundo”.

Ainda outro aspecto do Neo-eurasianismo é seu olhar para o Tradicionalismo (à la René Guénon, Julius Evola, Mircea Eliade) como justificação da sociedade tradicional e como uma crítica compreensível da modernidade europeia. O Tradicionalismo introduz a noção do sagrado como centro da estrutura social. A sacralidade deve determinar não somente a religião, mas a política, economia, cotidiano, e relação com a natureza. Isso também predetermina uma interpretação do cosmos: o cosmos é o domínio das forças, elementos e poderes sagrados. Ele não pode interagir com a matéria alienada e sem alma. O cosmos é o território do sagrado, e é precisamente sobre isto que devemos construir a abordagem da terra, do estado e da natureza russa.

Finalmente, a geopolítica do Neo-eurasianismo concebe a geografia russa como uma escolha cósmica. Na geopolítica a Rússia assume o papel de ninguém menos que “Coração da Terra”, isto é, o principal polo da “civilização da Terra” e “eixo da história mundial” (de acordo com o fundador da geopolítica, Halford Mackinder). Assim, a própria noção de Eurásia engloba a ideia de uma síntese entre Leste e Oeste, Europa e Ásia, o ponto onde forças antagônicas da geografia sagrada encontram equilíbrio. Em conjunção com a geografia sagrada e topologia neoplatônica (no espírito dos comentários de Proclo sobre a história de Atlântida dos diálogos platônicos Crítias e A República), a geopolítica confere ao mundo ou cosmos russo ainda outra dimensão: A Rússia não é simplesmente um mundo entre outros, mas um mundo destinado a tornar-se o espaço mais importante na história mundial, onde antíteses históricas colidem e o destino da humanidade atinge o seu cume. Esta é a missão russa, o destino de todo o “cosmos russo”, incluindo seus sujeitos (povo, estado, sociedade e cultura) e seus objetos (natureza, território, elementos e as inúmeras formas de vida presentes no abundante mundo russo).

Fonte: Eurasianist Archive
Tradução: Augusto Fleck

Aleksandr Dugin

Filósofo e cientista político, ex-docente da Universidade Estatal de Moscou, formulador das chamadas Quarta Teoria Política e Teoria do Mundo Multipolar, é um dos principais nomes da escola moderna de geopolítica russa e um dos mais importantes pensadores de nosso tempo.

Deixe uma resposta