Rebelião Bíblica?

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Recentemente, o blog Public Orthodoxy publicou um post de Rodoljub Kubat intitulado: “Rebellion at the Heart of the Bible”. Geralmente eu não responderia referenciando a revolta espalhada por uma terra tão longe de nossa Sérvia, mas dadas as revoltas e o tumulto acontecendo aqui na América do Norte em nome da indignação correta e justa, torna-se válido tocar nesse ponto.

Sr. Kubat afirma que, para ser fiel à tradição Bíblica, Cristãos devem ser rebeldes. Ele pergunta (retoricamente), “Se Cristãos estão silenciados ou aprovando a injustiça, estão eles no caminho do Reino dos Céus? Se eles se levantarem contra injustiça, então podem chamar isso de rebelião, uma rebelião contra a injustiça”. Logo após ele escreve, “Teologia da rebelião é profeticamente teologia. O movimento profético originado por vezes no século IX A.C. era essencialmente uma revolta contra as injustiças sociais, especialmente contra abusos de poder”. Para o Sr. Kubat, rebelião contra injustiça em nossa sociedade é como um mandato do coração cristão, se recusar a tomar parte dessa rebelião constitui como uma ausência de fé profética em Deus.

Como exemplo de tal rebelião, Sr. Kubat cita as rebeliões israelitas contra a opressão egípcia, Jonas se rebelou contra Deus e os ministros de Cristo, especialmente sua palavra nas bem-aventuranças, “Bem-aventurados são aqueles que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos Céus”. Kubat escreve, “Tanto os romanos, quanto os líderes judaicos viam Cristo como um rebelde” e “o desejo de não confessarem ao imperador como Deus”. Logo, “o movimento monástico e fuga ao deserto era uma rebelião contra um mundo governado pela injustiça… Isso é especialmente visto no exemplo do São João Crisóstomo, um grande teólogo e combatente contra injustiça”. Na visão de Kubat, a igreja era (e deveria ser) rebelde em seu núcleo, mas se tornou tão vinculada aos poderes do mundo e se provou tão infiel ao seu dever divino profético.

Não é difícil enxergar que o Sr. Kubat tem um ponto: a Igreja durante a fase Bizantina de suposta sintonia com o Império muitas vezes fazia vergonhosos compromissos com César apoiando um status quo mundial. Isso é dificilmente novo. O ponto de Kubat não é histórico, é teológico: ele afirma que nós precisamos de uma “teologia da rebelião” para “alcançar justiça no mundo”. Em particular, ele diz que é necessária a rebelião, que essa quando não é encontrada na igreja, em algum momento “pertenceu aos hippies… que se tornaram certamente os ícones da liberdade”.

Normalmente, os rebeldes na Sérvia invocariam um pequeno comentário sobre minha pessoa aqui na América do Norte. Nós da Sérvia parecemos estar sob a agonia de nossa rebelião local. Nós estamos tumultuando as ruas, nos entregando em violência e derrubando estátuas à vontade. Como todas as rebeliões, a nossa do momento também busca justificativa pela violência na injustiça percebida da sociedade em nossa volta. A injustiça pode ser real. Porém, o problema com a rebelião é que a injustiça que nós percebemos pode nos cegar à inerte injustiça em nossa própria violência, aparentando que nossa violência é justificada, porque estamos construindo um mundo novo, quando estamos apenas destruindo o mundo que possuímos. Porque raiva sempre cega aqueles que a abraçam, sendo a razão pela qual São Tiago nos lembrou “porque a ira do homem não opera a justiça de Deus” (Tiago 1:20). É tão fácil para nós imaginar que estamos seguindo os mandatos do Céu, quando nós apenas estamos sendo guiados pelo espírito da era. Os problemas que estão em qualquer rebelião violenta não deveriam ser tão difíceis de ser reconhecidos – a Revolução Comunista foi há tanto tempo?

O que falta na teologia do Sr. Kubat é uma perspectiva escatológica – também quanto de sonoridade exegese bíblica e perspicácia histórica. De fato, os israelitas não se rebelaram contra as opressões egípcias, mas esperaram até Yahweh os libertar. Como Moisés disse, “Yahweh lutará por vocês e vocês só precisam aguardar” (Exodô 14:14). A rebelião de Jonas não foi sancionada por Deus, mas repreendida e julgada por Ele – o qual era todo o ponto da história de Jonas! Cristo não aconselhou rebelião contra Roma, mas se recusava a concordar com tal rebelião, insistindo aos seus discípulos dar a César o que é de César porque seu Reino não era desse mundo. Os monges não aconselharam a rebelião contra o mundo, mas olharam a era que estava por vir como de acolhimento para se devotar mais tempo para rezar. São João Crisóstomo não aconselhou rebelião também: ele repreendeu a Imperatriz por seus pecados, mas nunca buscou retirá-la de sua ordem estabelecida – provavelmente porque ele leu Romanos 13.

É aqui que nós chegamos ao ponto crucial da questão. Como crianças de Escathon¹ e da era vindoura, nosso mandato não é a rebelião social e derrubar a ordem social estabelecida, porém testemunhá-la. Os profetas (incluindo Jonas) testemunharam a verdade de Deus e deixaram o julgamento (e possibilidade de derrubar o status quo) para Ele. Cristo testemunhou a verdade de Deus, dizendo para Pilatos, “Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade”. (João 18:37)

Ao dizer isso, Cristo deu para Igreja seu mandato: não derrubar a ordem de estabilidade, substituindo por uma nova ordem do seu próprio desejo, mas testemunhar a verdade e mostrar um caminho melhor. Aqueles que escutam e seguem a verdade podem mudar a ordem por dentro. Se nós possuirmos poder político e oportunidade de estabelecer leis divinas, assim deverá ser feito. Atualmente, as mudanças que nós desejamos não vieram de revolução ou rebelião e sim pela difusão do Evangelho. Mudanças políticas não podem nos salvar se os nossos corações continuarem inalterados. Os hippies pensavam que rebelião contra “O Homem” poderia nos salvar. Eles estavam errados.

A questão fundamental aqui é eclesiástica: a Igreja pertence primariamente ao porvir ou a esta era? Somos nós estranhos e passageiros passando por essa era, testemunhando a verdade e fazendo o bem enquanto podemos aqui? Ou somos nós cidadãos do mundo, com o mandato de mudá-lo e torná-lo um lugar melhor para viver? Essa dicotomia, claro, não é absoluta: obviamente nós devemos nos esforçar para trabalhar pela paz, justiça e ajudar aos pobres. Nós colocaremos nossos corações no Reino porvir, de toda maneira a escolha entre duas básicas orientações e duas tarefas fundamentais continuam.

Cristo não nos chama para a rebelião ou promover revolução, mas para oferecer revelação. Sendo essa a nossa mensagem revolucionária – e se a sociedade não escutar a mensagem, nós não podemos pegar em armas para a colocar sob efeito, Pedro tentou fazer isso no jardim de Getsemâni – e Cristo lhe disse para guardar sua espada de volta em sua bainha (John 18:11). Ao fazer isso, Deus tirou a espada da mão de todos os seguidores que recorreriam à rebelião para estabelecer a justiça que pode apenas vir de um coração transformado. A rebelião não é bíblica, sempre é errada. Procurando uma solução política para um problema espiritual. A solução real foi dada a Nicodemos muito antes: você deve renascer.

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