A Síncope de João Gilberto

A nova ”Onda que se levantou do Mar” nos meus contatos de Facebook é falar um tanto sobre música. Como bom carioca, vou pegar um jacaré e dar pitacos também.

Dugin está correto ao apontar que a Bossa Nova contém o ”código cultural da civilização brasileira”, que tem um fundo ”místico-religioso”, e que se constitui de fato num ”realismo mágico” com motivos ao mesmo tempo apolíneos e dionisíacos.

É evidente que a Bossa Nova e certa MPB — como Chico Buarque — foi a ponte que permitiu ao russo falar com precisão de certos aspectos muito importantes do nosso Logos.

Mas faltou na análise de Dugin exemplos ainda mais originários. É verdade que Tom Jobim foi a principal fonte melódica e imagética, um tanto impressionista que, como uma aquarela mergulhada em Debussy, manifestava duzentos anos de experiência brasileira por meio de seu piano. E que Vinícius de Moraes foi o espírito crepuscular, ao mesmo tempo português e Zé Pelintra, que sintetizou poeticamente Dioniso com a contemplação do Mar.

Mas a Bossa Nova não pode ser compreendida sem seu grande gênio criador: João Gilberto.

Após a segunda guerra mundial, as nossas rádios foram tomadas por ritmos latinos, como o bolero e o tango, com grande ênfase nos arroubos e expansão sentimental, música de orquestra e temática romântico-depressiva de ”dor de cotovelo”. Uma excelente tradição musical que ficou registrada em maravilhosos sambas-canções, diga-se de passagem.

Mas João rompeu com essa tendência. E diferente do que dizia Tinhorão, ele não o fez a partir de um diálogo com a ”música americana”, e sim mergulhando nas fontes da própria música e cancioneiro brasileiro.

Tanto assim que ele se ria do próprio epíteto de ”bossa nova”, avisando que, na verdade, ele fazia samba.

Discussões acadêmicas prosseguem até hoje pra decidir se a batida inventada por João remontava mais aos sambas de roda da Bahia ou às baterias africanizadas do samba do Estácio, nascido no Rio de Janeiro — um detalhe, dada a continuidade explícita entre ambos os subgêneros.

Mais importante é perceber que essa forma particular de samba trazida por João não permite… sambar! Eis um dos sinais que apontam pro grande mistério por trás de João Gilberto. Ele ”esfria o samba”, seca a música de qualquer sentimentalidade ou expansão emocional.

Seu estilo é de uma autocontenção radical, estoica, que pode ser descrita como uma ”arte cavalheiresca do arqueiro zen”. Ele reduz o samba ao que tem de essencial por meio de uma simples batida de violão acompanhada de uma nova maneira de expor a voz.

O canto de João evita o modelo operístico, do bel canto, ou qualquer vibrato. Embora tenha precursores na forma declamatória de um Mário Reis, ele se aproxima ainda mais da fala, de modo que gera toda uma profusão de novos timbres.

[Muito do que se interpretava como ”chatice” de João em sua exigência por um equipamento perfeito de som vinha de sua plena consciência sobre os timbres que deviam ser alcançados por uma articulação específica de voz e violão.]

Uma vez que o experimento de ”redução à essência” se completa, e que o ”chi” ou energia originária da tradição de síncope e de canto brasileira é atingida em uma perfeita impassibilidade sonora, João se sente livre para recriar todas as músicas que interpreta.

A divisão rítmica é ”atravessada” por um deslocamento ”métrico” realizado por um nova relação entre voz e violão, e uma forma singular de emitir vogais.

O deslocamento ritmo-melódico parece uma ideia simples, mas sua execução é tão complexa e difícil que praticamente reinventa a música brasileira a partir de suas próprias raízes, expondo novas possibilidades temporais a partir de suas bases essenciais.

Podemos dizer que João sincopa a síncope por meio dessa arte do deslocamento ”métrico” da música.

Com isso, ele não apenas impactou a música pátria, mas fez dela o eixo de uma revolução capaz de inverter a relação entre a arte de nosso país e a do restante do mundo. Dos EUA ao extremo oriente, passando pela Europa e pela Rússia, todos tiveram de se adaptar a fim de imitar e reproduzir a música brasileira, que naquela ”base de uma nota só” era capaz de parir mundos inteiros.

André Luiz

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

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