A Quenelle: Saudação Neonazista ou Símbolo de Resistência?

Recentemente instaurou-se um pânico moral em meios esquerdistas, em uma paranóia antifascista descabida. Um dos motivos seriam fotos com a quenelle, um gesto que determinados “influencers” antifas dizem que é neonazista. Será verdade? Falamos aqui sobre a história e significado da quenelle, gesto popularizado por Alain Soral e Dieudonné.

A “polêmica” da quenelle chegou ao Brasil, com uns 5 anos de atraso em relação à própria chegada do gesto, introduzido por este escritor em nosso país, quando da vinda do sociólogo, escritor e polemista Alain Soral para o Encontro Evoliano de São Paulo em 2014.

Coloco “polêmica” entre aspas porque o meio em que esse gesto é polemizado é uma bolha bastante limitada, habitada por antifas, anarquistas e feministas. Não obstante, algum pânico moral escorreu para setores da esquerda mais ingênuos e desinformados, que ainda caem nas armadilhas das acusações descontextualizadas de nazi-fascismo.

A quenelle propriamente dita é um item da culinária francesa, um bolinho geralmente recheado de peixe, cozido e servido gratinado. Como um aparte, é uma iguaria particularmente saborosa.

A forma oblonga do bolinho, porém, inspirou o comediante franco-camaronês (evidentemente negro) Dieudonné M’bala M’bala a fazer uma piada em uma apresentação pública[1], lá para 2005, em que ele, comparando a quenelle a um supositório, falava sobre “enfiar uma quenelle”, com um gestuário reminiscente do “fisting” (para quem não sabe do que se trata, não recomendamos pesquisar).

Vulgar e escrachado, mas assim é o humor popular. Tanto no Brasil como na França. O gesto em si, realizado por Dieudonné no stand-up de 2005, era estender um braço para baixo, e com o outro braço (com a palma para cima ou para baixo) encostar no ombro ou na parte superior do braço estendido.

Simbolizando uma sodomização simbólica, o chiste agradou tanto o público que o gesto virou uma espécie de marca registrada de Dieudonné (literalmente, o gesto foi patenteado por ele), sendo usado incansavelmente pelo comediante desde então.

Se inicialmente o gesto não tinha conotação política (a sketch comédica em questão era sobre secularismo na França, e o gesto foi usado para dar a entender o quanto eles estavam “fodidos”, a mão no ombro do braço oposto servindo para indicar até onde o governo “meteria” no povo), ele se tornou parte integral do discurso político patriótico e antissionista de Dieudonné, usado tanto para criticar o governo e determinadas instituições e organizações, como para indicar o que os usuários pretendiam fazer, simbolicamente, a seus inimigos.

Essa virada política da quenelle se dá em 2009, quando Dieudonné cria a Lista Antissionista[2], uma frente partidária ad hoc fundada para disputar as eleições europeias do mesmo ano. Além do próprio Dieudonné e de alguns ex-membros da Frente Nacional, participavam da aliança Alain Soral, Yahia Gouasmi, um xiita argelino que era a principal figura pública xiita da França, Ginette Skandrani, uma importante militante antifascista que integrou o FLN argelino e fundou o Partido Verde, Thierry Meyssan, famoso escritor anti-imperialista franco-libanês, e Shmiel Mordche Borreman, judeu antissionista membro do Neturei Karta. Não nos parece a lista de membros da SS. A quenelle foi um dos principais símbolos da campanha eleitoral dessa aliança.

Alain Soral, talvez o mais notório usuário da quenelle depois de Dieudonné, e talvez o principal responsável por popularizar o gesto em meios nacionalistas, usa o gesto no mesmo contexto, como em uma ocasião, por exemplo, em que Soral, falando sobre determinadas reformas neoliberais do presidente François Hollande, afirma que “a mudança é no seu cu”, sinalizando rapidamente a quenelle. Um discurso que nos recorda o já clássico “Tudo que pinta de novo, pinta no rabo do povo”, do falecido jornalista e radialista Luiz Alborghetti.

Graças a Dieudonné e Soral, a quenelle se espalhou rápido entre a juventude francesa, sendo realizada em festas de formatura, em casamentos, por torcidas de futebol, diante de monumentos históricos, ou em espaços públicos em geral, como um gesto provocador anti-sistema e patriótico, mas não necessariamente afiliado a qualquer ideologia ou partido específicos[3].

A polêmica persecutória, iniciada pelo lobby sionista francês, começa porque algumas pessoas, ocasionalmente, passaram a tirar fotos fazendo a quenelle diante de alguma sinagoga ou no Museu do Holocausto[4]. O que se pretendia dizer com isso não é possível adivinhar, afinal, a quenelle é, essencialmente, uma provocação, um insulto e um desafio, tudo ao mesmo tempo. A LICRA, principal organização do lobby sionista na França, peticionou ao governo pedindo a proibição desse gesto (!) afirmando que ele seria uma “saudação nazista disfarçada”, usada para simbolizar a sodomização das vítimas do Holocausto[5].

Puro delírio vitimista.

Desde então, apesar do gesto nunca ter sido proibido legalmente pelo governo francês, houve alguns processos e condenações de legalidade duvidosa contra pessoas que fizeram a quenelle, geralmente em contextos muito específicos interpretados como injuriosos em relação a judeus (como se fosse possível ofender qualquer um na França, menos o “povo eleito”)[6]. Há, porém, projetos de lei que visam incluir a quenelle em uma “lista de gestos proibidos” (sim, o país da liberdade, da igualdade e fraternidade, possui um “Index Gestum Prohibitorum”), iniciativas naturalmente questionadas por opositores do governo, entre nacionalistas e alguns comunistas, que questionam o enfoque excessivo dado a gesticulações ofensivas diante dos problemas mais graves da sociedade francesa[7].

A estratégia de Dieudonné e Soral para espalhar a quenelle foi brilhante. Adolescentes aproveitavam entrevistas de rua para aparecer atrás dos entrevistados fazendo a quenelle. Iam em festas e eventos importantes de todo tipo, e usavam a quenelle como um “photobombing”. Não raro, pediam para tirar fotos com celebridades e as instavam a fazer a quenelle.

A quenelle se espalhou como gesto de rebelião da juventude francesa, emancipado de Dieudonné, mas sempre vinculado a ele. Dieudonné começou a realizar, anualmente, o “Baile das Quenelles”, mistura de festa, apresentação humorística e comício político. Ele também inventou a “Quenelle de Ouro”, premiação dada anualmente a figuras antissionistas ou simplesmente anti-sistema da França ou do mundo francófono[8].

Central para a popularização mundial da quenelle foi sua adoção por esportistas famosos, o principal tendo sido Nicolas Anelka, ex-jogador de futebol de origem caribenha, campeão do mundo em 1998. Em dezembro de 2013, enquanto jogava pelo clube inglês West Brom, Anelka comemorou um gol com a quenelle, em homenagem e solidariedade a Dieudonné, que na época era réu em uma das muitas perseguições judiciais que o comediante já sofreu[9].

O escândalo mundial foi imediato, os jornais ingleses e franceses foram impiedosos, patrocinadores ameaçaram o jogador, Dieudonné foi banido de colocar os pés na Inglaterra, e “quenelle” se tornou uma das palavras mais buscadas no Google.

Outros esportistas se seguiram, como os jogadores de futebol Mamadou Sakho e Mathieu Deplagne, o jogador de basquete Tony Parker, o velocista Pascal Mancini, o judoka Teddy Riner, o jogador de handball Nikola Karabatic e o tenista Yannick Noah.

Segundo os defensores da proibição, esse simples gesto é uma saudação nazista e racista e em sua “incansável luta contra o racismo” o governo neoliberal francês já prendeu o negro Dieudonné meia dúzia de vezes. A propaganda é tão vil que o lobby sionista inventou que toda vez que Dieudonné fala em “banqueiros” ou “escravistas” ele está, na verdade, falando em judeus, e com base nisso Dieudonné sofreu uma de suas muitas prisões[10].

Desde então, como não poderia deixar de ser, a quenelle se tornou parte do repertório de protesto dos Gilet Jaunes (Coletes Amarelos), que desde 2018 têm realizado incessantes protestos contra o governo liberal-libertário de Emmanuel Macron[11].

No Brasil, a quenelle foi introduzida por este que vos fala para comemorar a vinda de Alain Soral ao Brasil, sob muita polêmica e sob denúncias do lobby sionista e seus agentes. Posteriormente, quando fundamos a Nova Resistência em 2015, o gesto se tornou parte do repertório comum de nossa organização, como símbolo jocoso de resistência ao imperialismo e ao sionismo.

Com isso, cai por terra a noção delirante de que esta seria algum tipo de “saudação neonazista”, narrativa de tanta credibilidade quanto a das “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein, das “atrocidades” de Assad, ou dos “envenenamentos” de Putin, que, por coincidência, costumam sair todas elas das mesmas fontes.

A quenelle é um símbolo jovem, despreocupado e ousado. É um “não me importo!” e um “vá se foder!” com conotações políticas anti-sistema. Ofensivo, de gosto duvidoso, mas engraçado.

E desagrada exatamente as pessoas que queremos desagradar.

Notas

[1] – https://www.lefigaro.fr/actualite-france/2013/12/30/01016-20131230ARTFIG00404-d-o-vient-la-quenelle-de-dieudonne.php
[2] – https://www.liberation.fr/france/2009/05/09/dieudonne-fait-parader-sa-troupe-antisioniste_556920
[3] – https://www.sudouest.fr/2013/10/11/la-quenelle-le-geste-sulfureux-de-dieudonne-aux-idees-subliminales-1195240-710.php
[4] – http://www.slate.fr/france/77484/quenelle-militaire-dieudonne-synagogue
[5] – https://www.lesinrocks.com/2013/12/04/actualite/actualite/quenelle-le-bras-arme-de-dieudonne/
[6] – https://www.lefigaro.fr/flash-actu/2016/02/18/97001-20160218FILWWW00194-quenelle-au-memorial-de-la-shoah-amende-reduite-a-5000-euros-pour-soral.php
[7] – https://www.mediapart.fr/journal/france/150619/surveiller-et-punir-l-ultra-droite-ce-que-preconisent-les-deputes
[8] – http://www.lefigaro.fr/actualite-france/2013/12/16/01016-20131216ARTFIG00533-la-viralite-de-la-quenelle-de-dieudonne-continue-d-inquieter.php
[9] – https://www.independent.co.uk/sport/football/news-and-comment/what-is-the-quenelle-nicolas-anelka-banned-for-five-matches-for-performing-gesture-in-premier-league-9158322.html
[10] -https://web.archive.org/web/20140108055228/http://www.numerama.com/magazine/27966-la-34quenelle34-sur-internet-argument-de-valls-pour-interdire-dieudonne.html
[11] – https://www.nouvelobs.com/politique/20181222.OBS7538/la-quenelle-antisemite-de-dieudonne-au-menu-des-gilets-jaunes.html

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