Do Chão Farroupilha ao Céu Austral

Escrito por Carolina Marcon
O gaúcho, como outros povos tradicionais, enxerga na natureza uma manifestação do Sagrado, e a paisagem peculiar de sua região implica também uma disposição espiritual muito particular. No seu céu, brilha ATRIA, a estrela que representa o Rio Grande do Sul, uma das estrelas mais brilhantes de todo o mundo austral.

O gaúcho carrega o bucolismo de sua terra aonde quer que vá. Uma noite gélida no campo, sorvendo o mate debaixo do minuano, diz muito mais sobre o sagrado do que podemos supor. Ninguém se atreve a dizer onde começa e onde termina o cenário divino que liga o céu à terra enquanto alguém mateia no seu pampa.

Todos os elementos do tradicionalismo gaúcho remetem à natureza e sua contemplação: o chimarrão com perfume da mata; o braseiro que aquece da geada e também o cavalo com a tradição ancestral dos arreios; tem garrucha, faca, laço e boleadeira, tudo de que o peão precisa para a vida campeira.

Diz a lenda que um cacique, ao voltar de uma peleia, vendo perto a lua cheia, com a ingenuidade campeira da superstição charrua, resolveu domar a lua e atirou-lhe a boleadeira. Desde então, no céu do pago surgiram as Três Marias no meio dum fogaréu, tropereando a lo léo, sempre no rastro da lua. E a boleadeira charrua nunca mais voltou do céu.

Falando no céu do pampa, há uma constelação absolutamente perfeita, muito ao sul para ser observada pelos EUA, mas totalmente visível ao hemisfério sul, chamada Triângulo Austral (Triângulo do Sul). Um triângulo quase equilátero formado por três estrelas brilhantes: duas estrelas brancas, Beta e Gamma Trianguli Australis, e uma com características de estrela gigante, com brilho alarenjado, sete vezes maior que nosso sol, chamada ATRIA (Alpha Trianguli Australis).

O Rio Grande do Sul é representado pela estrela ATRIA na bandeira do Brasil. Metaforicamente há uma explicação para que nossa estrela seja o destaque de brilho intenso, naquela estrela de uma constelação tão ao sul, representando o gaúcho, que contempla e reconhece o sagrado, em cada cantinho do seu pago, tornando o ser humano e a natureza um só.

Quem sabe aquela boleadeira, que o índio charrua lançou na inocência, no céu dessa querência, está lá para lembrar que o nosso povo é do chão farroupilha, mas também é do céu Austral. Nenhuma bússola nos norteia, porque, como diz Joaquin Torres García: “Nosso norte é nosso Sul”.

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