Sobre o liberalismo e Ciro Gomes

A distinção entre liberalismo político e econômico é artificial. Ambos são aplicação do mesmo conjunto de princípios — de viés filosófico, antropológico e sociológico — a recortes diferentes das relações humanas contemporâneas, mas que, no mundo real, estão profundamente imbricados.

A maneira como se organizam as instituições, leis, poderes e ‘regras’ de uma sociedade estão vinculadas também ao modo como essa sociedade vai produzir, trocar mercadorias e distribuir riqueza. A estrutura produtiva anda de mãos dadas com o arcabouço jurídico.

E ambos derivam, antes de tudo, de uma série de pressupostos, horizontes, de uma narrativa sobre o mundo que é centrada na existência e valor basilar do indivíduo humano, encarado como livre para realizar seus desejos e interagir com outros indivíduos em busca de interesses comuns.

O liberalismo é uma totalidade, portanto. E inclui uma noção própria de justiça, de ética etc. Um todo que não admite outra situação senão sua hegemonia completa sobre o tecido social, com a eliminação ou marginalização completa de qualquer outra teoria ou filosofia concorrente.

Qualquer pessoa que jure existir uma distinção rígida, ferrenha, explícita entre liberalismo político e econômico está tão somente manifestando a própria ignorância. Se não for ignorante, está mentindo por alguma razão — em geral, enganar a patuleia para fins propagandísticos.

Minha dúvida sobre Ciro Gomes é saber se ele é um liberal que flerta com pautas do nacionalismo latino-americano para tentar construir uma sociedade liberal [a tal “Suécia Tropical”]; ou se ele é um nacionalista latino-americano que flerta com o discurso liberal por saber que ele é hegemônico na política partidária aceita pelos poderes instituídos.

No primeiro caso, ele é só mais uma face do velho inimigo de sempre, mais um herdeiro das elites apátridas desejando copiar modelos estrangeiros e dar continuidade à opressão histórica de nossas populações. No segundo caso, ele é um político do qual se pode esperar um compromisso mais profundo e duradouro com a Pátria, que não pode ser abstraída do imaginário dos brasileiros como se significasse apenas ”recursos naturais” e outras miudezas materiais, que são importantes, mas não o principal.

Antes de terminar, eu gostaria de lembrar que Getúlio Vargas era antiliberal. Antiliberal de berço, desde a fazenda castilhista de Seu Manuel Vargas; criado no antiliberal Rio Grande do Sul, que possuía Constituição castilhista; ideologicamente antiliberal, que derrubou uma ordem constitucional liberal para implementar uma ditadura da qual se orgulhava, e preparar o caminho para um regime novo, que se pretendia superação tanto do liberalismo quanto do socialismo. E que, quando eleito em 1950, fez questão de dizer que se filiava à democracia social, não à democracia liberal.

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