Spengler sobre a Religiosidade Militante

por Thomas F. Bertonneau

O historiador e filósofo alemão Oswald Spengler (1880 – 1936) devota um conjunto de três capítulos (7, 8 e 9) no segundo volume de seu A Decadência do Ocidente ao que ele define como “Os Problemas da Cultura Árabe”. O terceiro destes capítulos, “Pitágoras, Maomé, Cromwell”, explora os paralelos que, na visão de Spengler, fazem dessas figuras “contemporâneos” (no seu uso da palavra) um do outro. O mesmo capítulo também contém a análise Spengleriana do Puritanismo, mas não restrito ao sentido da doutrina Calvinista, ainda que ele inclua o Calvinismo no debate. Spengler vê o Puritanismo como uma fase inevitável da religião, de endurecimento doutrinário e literalismo, em que predomina o impulso totalitário. O Puritanismo se manifesta nas Grandes Culturas das quais Spengler fala, como a Chinesa, a Clássica e a Gótica. Ao dizer “Problemas da Cultura Árabe”, Spengler não se limita à história do Monofisismo ou Islã, ainda que estas entrem nesses três capítulos. Spengler subsume a “Cultura Árabe” sob a categoria maior de “Cultura Magiana”, que abarca tanto Arabia Felix quanto Arabia Deserta, mas vai além delas em aspectos das sociedades tardias, Persa e Siríaca, ao Helenismo Alexandríaco, e até aos séculos Iconoclásticos de Bizâncio. O termo “magiano” também remonta aos estágios finais da sociedade mesopotâmica. Para Spengler, Santo Agostinho partilha mais ideias com a teologia islâmica do que, digamos, com São Tomás e os Escolásticos. Para Spengler, a Hagia Sophia de Constantinopla antecipa a mesquita. No entanto, para compreender a sequência de capítulos sobre “Os Problemas da Cultura Árabe”, é necessário que os pronunciamentos ora chocantes e contraintuitivos de Spengler, como o mencionado, tomem seu lugar entre as suposições gerais da obra.

Em sua primeira leitura, a opus de Spengler passa a impressão de uma improvisação colossal. Sua erudição e falta de forma aparente desanimam potenciais exploradores. Não obstante, as proposições básicas de Spengler se prestam a um resumo. Spengler rejeita a ideia de uma história universal. Ele não reconhece uma história singular, mas uma variedade de histórias (no plural), cada uma peculiar à sua própria Grande Cultura. Assim, a Cultura Clássica ou Mediterrânea se inicia nos reinos de palácios da Grécia Micênica e se encerra na Dinastia Severa entre o fim do século II e começo do século III. A Cultura Indiana começa nos Vedas e se encerra no Budismo. A Cultura Ocidental ou “Faustiana” cintila primeiramente no Século VIII, mas só salta para a existência após o ano 1000. A Cultura Ocidental preserva um profundo reconhecimento da Cultura Clássica, mas esse reconhecimento não implica, para Spengler, em continuidade. Cada Grande Cultura se constitui hermeticamente como um todo orgânico sem débito a culturas adjacentes ou precursoras. Empréstimos nunca são essenciais, mas ornamentais. Spengler enfatiza o caráter orgânico da cultura. Ele trata cada Grande Cultura como um ente vivo, cuja mortalidade paira sobre ela desde seu nascimento. Cada Grande Cultura segue o mesmo ciclo de vida sazonal – uma primavera vivaz e criativa, um verão produtivo, um outono afligido por crises, e um inverno cada vez mais inflexível. Spengler também distingue cultura de civilização. A cultura floresce na fase vital; a civilização toma o lugar da fase mecânica, mais e mais rígida até a máquina parar.

Cada Grande Cultura se expressa primeiro numa explosão primaveril religiosa. O panteão clássico e cultos associados já existem na Micênia tardia. Homero e Hesíodo significam uma transformação letrada de uma visão Apolínea preexistente, como Spengler a chama. No tempo de Sétimo Severo (193 – 211), a religião Clássica torna-se um Henoteísmo, com um deus e numerosos aspectos, complementado por uma estrutura casada com o estado. Enquanto que o paganismo primaveril nada sabia sobre preconceitos, o henoteísmo sincrético se codifica num sistema de dogmas compulsórios. Spengler distingue uma Cristandade Gótica da Magiana, que tem pouco, se não nada, a ver uma com a outra. A primeira aparece com a construção das Igrejas de Nossa Senhora e a explosão de uma polifonia sagrada. Quando chega o período Barroco, no entanto, o Catolicismo torna-se uma contraparte do Henoteísmo sincrético. Não mais uma entidade viva, a Igreja se distingue tão radicalmente quanto possível das instituições seculares. Já a Cristandade Magiana, Spengler classifica como um de muitos movimentos apocalípticos que participam da mesma visão mundial. Essas repartições aparecem inicialmente no período das campanhas Alexandrinas. No capítulo 8 desse segundo volume, Spengler escreve como “o mundo, tal como se desdobra diante da vigilância Magiana, possui uma espécie de extensão que pode ser qualificada de caverna”. Um “dualismo primário” governa o mundo-caverna dessa revelação: “A luz penetra na caverna, reagindo contra as trevas”. A cultura Magiana chega a sua fase final e ossificada quando Maomé publica seu Alcorão inalterável e inicia sua missão coercitiva.

Se o rigor mortis social, espiritual e intelectual pertencem aos capítulos outonal e hibernal do ciclo de vida cultural, isso não significa que os capítulos anteriores não exibem um prenúncio de endurecimento. Espasmos de Puritanismo ocorrem no Verão, mas se mostram facilmente suprimidos pelo ambiente ainda vivaz onde emergem. O primeiro nome no título do terceiro capítulo sobre os problemas da cultura Árabe é o de Pitágoras, que será familiar para a maioria dos leitores através de uma associação ao teorema do triângulo. A vida de Pitágoras engloba boa parte do Século VI antes de Cristo, com nascimento aproximadamente em 570, e morte por volta de 495. O mito prevalecente trata Pitágoras de forma anódina. Filósofo, místico, matemático, vegetariano, descobridor da harmonia cósmica, e defensor dos animais. Pitágoras conquistou admiração dos humanistas Florentinos e também dos Simbolistas Franceses como idealista e altruísta. A verdade coloca Pitágoras sob uma luz bem diversa. “Pitágoras não era um filósofo, ” escreve Spengler; mas sim “um santo, profeta e fundador de uma sociedade fanaticamente religiosa, que forçou suas verdades sobre o povo ao seu redor, por todos os meios políticos e militares”. Crotone, a colônia grega ao Sul da Itália onde Pitágoras residiu durante parte da vida, criou um exército sob seu regime que “no amargo cumprimento do [seu] evangelho do dever matou sibaritas e marcou Síbaris para sempre como uma cidade sem moral”. O que era esse “evangelho”? Ele consistia de “entusiasmos pela sobriedade do espírito, fria intensidade, misticismo seco e êxtase pedante”.

O Pitagorismo cai na categoria de Puritanismo. Spengler define o Puritanismo como o sintoma de uma velhice severa: “Lhe falta o sorriso que iluminava a religião da Primavera… os momentos de profunda alegria de viver, o humor da vida”. A destruição de Síbaris, por volta de 510 a.C, encontra confirmação tanto na história quanto na arqueologia; a cidade sofreu tamanha violência que seus sobreviventes a abandonaram para residir em outro lugar, como em Túrios. A ira jogada contra Síbaris ficou alocada na memória coletiva, especula Spengler, “porque se trata do clímax de uma guerra religiosa… uma explosão do mesmo ódio que viu Carlos I e seus cavaleiros não como mero erro doutrinário, mas como uma disposição mundana que deve ser destruída da raiz ao galho”. Para além, “Um mito purificado e conceitualmente fortificado, combinado de preceitos éticos rigorosos, armou os pitagóricos com a convicção de que atingiriam a salvação antes dos outros homens”. As cidades sul italianas que estavam sob o domínio do entusiasmo coletivo acabaram achando o furor exagerado. Inspirado em Spengler, o estudioso Kurt von Fritz publicou seu livro Políticas Pitagóricas no Sul Italiano, em 1940. Von Fritz conecta revoltas citadinas simultâneas no espaço de alguns dias, que infligiram vingança sobre comitês pitagóricos, queimaram suas hospedagens e suprimiram uma porção fanática de seus seguidores. Spengler nota que os escritos pitagóricos, como os “Versos Dourados”, prometiam deificação aos aderentes. Tal grau de autossatisfação e justiça só poderiam – e logo – atrair uma reação condigna.

Esta exposição deixará o tratamento de Spengler a Maomé e o Islã por último. O terceiro nome do título que Spengler dá ao capítulo é o de Oliver Cromwell (1599 – 1658), “Chanceler de Ferro”, “Lorde Protetor” da Revolução Puritana e executor de Carlos I. Como Spengler pratica história comparada, seu tratamento a Pitágoras, Maomé e Cromwell tende ao entrelaçamento, como na citação anterior. Enfatizando seu tópico sobre Puritanismo, Spengler junta suas três personae e seus movimentos: “No Alcorão não encontramos nada da silenciosa felicidade que na Primavera Magiana brilha tão constantemente nas histórias sobre a infância de Cristo, ou em Gregório de Nazianzo, nada da alegria palpável nas canções de São Francisco em Milton” que, conforme aponta Spengler, serviu Cromwell, como Secretário de Estado. Na mesma linha, Spengler escreve, “Uma seriedade mortal paira sobre os espíritos jansenistas de Port-Royal e sobre as reuniões das “cabeças redondas”, de trajes negros, e que em poucos anos aniquilaram a merry old England de Shakespeare, outra Síbaris”. A panfletagem puritana é para Spengler “triste e amarga” como a “doutrina do dever Islâmica”. Spengler invoca uma “necessidade da alma por libertação do seu passado” como uma das fontes do Puritanismo. Assim, sob a agitação reformista “música e pinturas, cartas e memórias, de modos descritivos tornam-se autodenúncia, penitência e confissão irrestrita”. O presente só pode realizar sua purificação ao apagar o passado. A execução de Carlos I participa desse processo, pois o que é a monarquia, se não continuidade genealógica, o passado estendido ao presente?

O passado informa e enriquece o presente. Um presente que se livra do passado se torna pobre. “Em toda a poesia puritana”, Spengler escreve, “o lugar das antigas visões Góticas é tomado por um desenfreado espírito, ainda que jejune, de alegoria”. O Pilgrim’s Progress (1678) de John Bunyan certamente transcende as limitações alegóricas, mas a alegoria em si permanece um modo simplista de pensamento. Nela, uma coisa toma o lugar de outra; falta à alegoria então a sutileza do símbolo e da metáfora, enquanto se presta a um estado de espírito dogmático. Cromwell, Spengler aponta, caracterizava seus oponentes como filisteus e amaleques, tabus pelos quais uma coisa poderia substituir outra, e a coisa primária ser apagada em favor de um nome amaldiçoado. Nesse processo de impor um conceito vazio numa realidade viva, Spengler percebe uma essência: “Na consciência desperta desses ascetas o conceito é o único poder real”. De fato, Spengler vislumbra uma linha entre o Puritanismo e o Racionalismo – e mais além, com o Iluminismo, assim chamado, como uma continuação do puritanismo. “Bruxas eram queimadas porque existiam provas”, escreve Spengler, “os juristas Protestantes usavam o martelo das bruxas Dominicano porque era construído sobre conceitos”. O que assume o nome de “jornalismo” no contexto de 2020 é uma nova alegoria. Termos como racismo, sexismo, islamofobia, e privilégio branco funcionam como conceitos donde a prova deriva e sobre os quais a turba ensandecida justifica suas ações. A descrição Spengleriana dos trajes negros, referência aos homens armados de Cromwell, pode ser perfeitamente aplicada aos bandidos de rua contemporâneos.

Spengler impele seus leitores: “Temos que nos emancipar das superfícies históricas – e, especialmente, deixar de lado as cercas artificiais nas quais a metodologia das ciências Ocidentais as fecharam – antes de vermos que Pitágoras, Maomé e Cromwell incorporam um e o mesmo movimento em três Culturas”. Pitágoras surge da polis, não do campo; Cromwell, no labirinto cidade Londrino do século XVII. A mente Puritana, argumenta Spengler, surge não do meio rural, mas exclusivamente do meio urbano. “O Islão não era mais uma religião do deserto… do que a fé de Zuínglio uma religião das montanhas”. A Península Arábica no tempo de Maomé havia se tornado uma região de cidades-estado dirigidas para dentro, cristãs, judaicas e pagãs. “é um incidente, e nada mais”, argumenta Spengler, “que o movimento Puritano para o qual o mundo Magiano estava preparado procedesse de Meca e não de um monofisita ou judeu”. As religiões peninsulares haviam enxugado até a moralidade morta e ritualística. Nesse sentido, “O Islã era uma nova religião no mesmo sentido em que o Luteranismo era.” Enclausuramento nas cidades amplifica a característica Magiana fundamental de enxergar o mundo como uma caverna onde a Luz batalha perpetuamente com a Escuridão. O Monofisismo, solo mais provável do Islã, exibia traços de um dualismo gnóstico e, como todas as heresias cristãs, desprezava veementemente todo tipo de Cristianismo que não o seu. O Islã concentrava a convicção de que todos os dualistas eram “eleitos de Deus”. Spengler sugere que a rápida disseminação do Islã está correlacionada com a aproximação do credo de Maomé a credos como o Monofisismo e Zoroastrismo.

No oitavo capítulo, “A Alma Magiana”, Spengler declara que: “Enquanto que o homem faustiano é um “Eu” que como último recurso tira conclusões a respeito do infinito… o homem Magiano, com seu modo espiritual, é apenas uma parte do Nós pneumático que, descendendo do que está acima, é um e o mesmo em todos os fiéis.” A visão de mundo Magiana assume a forma de um “consenso que, como emanação de Deus, exclui o erro, mas também exclui toda a possibilidade de um Ego auto-assertivo”. Dentro da caverna, só há submissão. O conceito Magiano de deidade é de “um Poder indefinido e enigmático do alto que derrama sua Ira ou sua Graça, [e] descende na escuridão ou eleva a alma até a luz como achar melhor”. Aquilo que exclui tematicamente o erro se põe como verdade. A religião Magiana requer, no entanto, um “texto sagrado”, onde a verdade “torna-se visivelmente evidente” na “forma sensível de sons e especialmente de letras”. Spengler compara o Alcorão de Maomé ao Resumo da Lei Justiniano e “aos Gathas de Avesta”, com o endurecimento do Zoroastrismo. “Tal é o Alcorão por sua própria natureza”, escreve Spengler, “incondicionalmente correto, e assim inalterável e incapaz de melhoras”. Em A Decadência do Ocidente, no capítulo 9, Spengler utiliza um paradoxo que ele considera especial para os seus três reformistas: “Toda filosofia tardia contém um protesto crítico à intuitividade acrítica da Primavera”; e acrescenta que, “esse criticismo do intelecto que está certo de sua superioridade afeta também a própria fé e evoca a grande criação no campo religioso que é peculiar ao período tardio – todos os períodos tardios, o Puritanismo”. O puritanismo rejeita a vida como peregrinação de autoconhecimento enquanto busca por Deus e a reformula como Jihad.

A década de 2010 viu um crescimento no Puritanismo contemporâneo, na definição de Spengler. A última década trouxe um novo Iconoclasmo na derrubada de estátuas e figuras históricas, o renomeio de ruas e instituições, e o leilão de pinturas. Ao mesmo tempo, a mente Puritana contemporânea se submete completamente, ajoelha-se a conceitos, ou seu curto alcance, que domina palestras de professores renomados nas ciências humanas e a detestável prosa jornalística, seja impressa ou em vídeo. Tal prosa ignora o intelecto e fala diretamente com o sistema endócrino. Ela gera consenso, palavra que palestrantes e jornalistas usam sem qualquer vergonha, como no “consenso sobre aquecimento global”. A confiança irracional em slogans – “a diversidade é nossa força” – enfatiza a rebelião contra o intelecto e o espírito e a elevação sobre eles do afeto concentrado na moderna falta de pensamento puritano. A referência de Spengler aos “entusiasmos pela sobriedade do espírito, fria intensidade, misticismo seco e êxtase pedante” precisa ser repetida. O puritanismo contemporâneo pode tomar a forma de uma jungfru sueca de 16 anos que prega a multidões de adultos bajuladores, ou de um “Antifa” de 25 anos, vestido com roupas pretas, cercando um cinegrafista em uma rua inflamada por protestos, anunciando que trabalha para o Black Lives Matter, e exigindo que o cinegrafista se ajoelhe e pronuncie o que for obrigado. Ambos se baseiam em ameaças. No caso da jungfru, é a ameaça de represália indireta: “Concorde comigo ou sua bolsa de fundação será revogada”. No caso “Antifa” é a ameaça de violência imediata: “Faça o que eu digo ou te colocamos em coma”.

Fonte: The Orthosphere

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