Ocidente cria uma OTAN exclusiva para a China

Parlamentares de oito países se uniram para criar a “Inter-Parliamentary Alliance on China (IPAC)”, um projeto de coalizão global de nações alinhadas contra a China. Criada oficialmente no dia 5 de junho, a IPAC pretende empreender medidas contra o avanço chinês em meio ao franco crescimento econômico do país asiático e à guerra comercial estabelecida entre Washington e Pequim.

A IPAC reúne, até o presente momento, parlamentares dos EUA, Reino Unido, Japão, Canadá, Noruega, Suécia, Alemanha e Austrália, além de membros do Parlamento Europeu. O grupo surgiu com a ideia comum de que a China representa uma ameaça real ao Ocidente e aos principais valores ocidentais, como democracia, direitos humanos e liberalismo. No site da organização, é possível ler: “Developing a coherent response to the rise of the People’s Republic of China (PRC) as led by the Chinese Communist Party is a defining challenge for the world’s democratic states. This challenge will outlast individual governments and administrations; its scope transcends party politics and traditional divides between foreign and domestic policy. The assumptions that once underpinned our engagement with Beijing no longer correspond to the reality. The Chinese Communist Party repeatedly and explicitly states its intention to expand its global influence. As a direct result, democratic values and practices have come under increasing pressure”.

A Aliança parece ter surgido com bastante força. Em seus primeiros dias de existência, a IPAC foi capaz de unir membros de partidos rivais no Parlamento Britânico. A organização é co-presidido pela trabalhista Helena Kennedy e pelo conservador Duncan Smith. O grupo é aberto à filiação de parlamentares do mundo todo, mediante inscrição mediante instruções disponíveis no site.

Segundo a página da aliança, os parlamentares irão atuar contra a China nos campos dos direitos humanos, comércio, segurança, integridade nacional e direito internacional. Especificamente sobre os temas da segurança e da integridade nacional, o grupo informa: “Democracies must develop complementary security strategies to address challenges presented by the PRC; The PRC must not be permitted to compromise the sovereignty or institutions of any developed or emerging markets through lending, investment, or by any other means”.

O trecho nos traz algumas reflexões importantes: em que nível pretende a IPAC organizar um esquema global de segurança e defesa da integridade nacional? A nova organização cogita se armar contra a China? Caso a IPAC pretenda assumir uma dimensão militar, o que isto significaria para a segurança internacional?

É impossível não associar o surgimento da IPAC e de suas pretensões de “segurança” ao contexto de guerra comercial entre EUA e China. Tudo indica que esta guerra tende a não ser mais apenas comercial, mas a assumir escalas cada vez maiores de violência. Aparentemente, o Ocidente está se preparando para criar uma nova aliança internacional para a defesa de seus interesses, semelhantemente à OTAN, porém, adaptado às necessidades do mundo contemporâneo, onde a guerra possui uma natureza híbrida e multifacetada.

A escolha por um grupo aparentemente pacífico e formando por parlamentares, em vez de generais, é extremamente estratégica: os países envolvidos não querem transparecer qualquer projeto de criação de uma aliança militar, então a revestem com estratégia jurídica e comercial – sendo estes meios verdadeiras armas de guerra híbrida. Na prática, podemos lembrar do contexto do surgimento da OTAN e dos interesses envolvidos em sua criação, em 1949, quando o principal medo dos EUA era o crescimento do bloco comunista e da influência soviética no mundo bipolar. Agora, o medo dos americanos é a China. Ainda que nossa realidade contemporânea divirja completamente da realidade do mundo bipolar, o temor do Ocidente de perder seu status hegemônico global permanece o mesmo e, contra cada inimigo desta hegemonia, os governos ocidentais criarão estratégias específicas de combate.

O atual cenário internacional é extremamente complexo e especialmente tenso: EUA e China acirram uma guerra comercial; EUA acusam formalmente a China de ser responsável pela pandemia do novo coronavírus; China inicia uma longa jornada de conquista marítima, se aproximando das zonas de controle americano; Índia e China acirram suas disputas e ameaçam a segurança internacional no continente asiático. Em meio a exte caos, a criação da IPAC é um ato terrível e desesperado do Ocidente de tentar preservar seu status hegemônico.

Ainda, o grupo pode vir a crescer na própria Ásia e ganhar apoio em possíveis insurreições pró-Ocidente, como os protestos em Hong Kong, fornecendo apoio de base para grupos envolvidos em tais manifestações – que compõem o projeto das “operações de mudança de regime” das forças de defesa americanas.

Sob todos os pontos de vista, o pior cenário que pode surgir é a militarização da IPAC, pois este processo atribuiria à organização um poder gigantesco na defesa dos interesses ocidentais. Ainda, a China pode vir a considerar o ato como uma provocação e convocar seus principais aliados globais para uma futura coalizão, o que significa uma militarização completa da globalização.

Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

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