Coronavírus: “A mídia empreende uma campanha de desinformação contra a Rússia”

Escrito por Costantino Ceoldo
Apesar de ser o 4º país no mundo com maior número de casos, a Rússia tem tido um bom desempenho no combate ao coronavírus. Em termos proporcionais, é o 42º país com mais mortes no mundo. Para tentar esclarecer um pouco mais sobre o desempenho russo nessa pandemia, traduzimos essa entrevista feita com o analista geopolítico russo Leonid Savin.

A epidemia do coronavírus tem tido um impacto cruel na Itália. O vírus atingiu duramente, aniquilando vidas, anulando projetos, destruindo futuros.  E não da mesma forma em todo o nosso infeliz país. Embora as regiões central e sul tenham sido afetadas aparentemente de forma mais leve, é no Norte que temos visto um tal aumento da mortalidade que não só os governos locais, mas também os governos nacionais entraram facilmente em pânico. A Lombardia tem sido flagelada pela COVID-19 de tal forma que tem lançado hospitais no caos e jogado médicos e enfermeiros no desespero porque eles viram dezenas, depois centenas, depois milhares de pacientes morrerem rapidamente. Duvido que as profundas razões desta abismal discrepância entre a Lombardia e o resto da nação sejam alguma vez investigadas. Na verdade, elas tocam interesses enormes: primeiro os das multinacionais farmacêuticas, com suas lavagens passadas como vacinas salvíficas, mas depois também os da mera sobrevivência de uma classe política (direita ou esquerda, pouco importa) cada vez mais inadequada para guiar o país e em todo caso expressão de um povo italiano que ainda confia nela e se sente representado por ela porque rapidamente evolui rumo à primitividade. O neobárbaro, ou seja, privado de memória histórica e, portanto, incapaz de enfrentar desafios e problemas pelo recurso à experiência daqueles que vieram antes. Assim nos lembra Maurizio Blondet, citando o filósofo espanhol Ortega y Gasset.

Diante dos olhos de todos está a situação que produziu o falatório dos governos. Com seus decretos, lives no Facebook, suas promessas de medidas econômicas difíceis ou impossíveis dei mplementar.

Quanta diferença em relação à Alemanha habitual de Angela Merkel, que se valeu de recursos econômicos que ela aparentemente não teria tido se tivesse realmente aplicado aquelas regras econômicas de austeridade e severidade que sempre exigiu dos outros, antes de tudo da Grécia, mas também da Itália. Há dois pesos e duas medidas nesta Europa, e só a esquerda italiana não quer ver isso, felizmente seguida por aqueles que votam por ela até a destruição final.

A epidemia é uma pandemia e, portanto, é razoável imaginar como outros países enfrentaram este desafio mortal.

No que diz respeito à Rússia, afetada em sua totalidade de forma não comparável nem remotamente com a Lombardia italiana, Leonid Savin, do Movimento Eurasiático, nos responde.

Sr. Savin, você pode lembrar aos leitores como o governo russo agiu no início da pandemia da COVID-19?

A questão é o que se entende por “começo”. O lockdown em Moscou e em muitas regiões da Rússia começou em 26 de março. Muitos acham que já era tarde demais para impedir a propagação do vírus. As máscaras sanitárias não eram obrigatórias (apenas recomendadas) até o final do mês de maio. Mas as restrições de viagem foram impostas em abril. O fato interessante é que a Rússia tem enviado assistência a outros países, como Itália, Sérvia, etc. E nós recebemos assistência da China. Houve também uma clara “separação” dentro do processo de tomada de decisão. Nenhuma situação de emergência foi anunciada e todas as ordens vieram de governadores e prefeitos (mais o conselho federal especial). Moscou foi a mais atingida e aqui temos metade de todos os casos infectados (e fatais) na Rússia.

As medidas sanitárias tomadas têm sido eficazes para conter a propagação da epidemia?

Eu acho que os hospitais estavam bem preparados, mas a questão diz respeito ao sistema de saúde em geral. Nos últimos anos, ele passou por reformas e as pessoas comuns não gostam disso. Além disso, muitas pessoas não gostam do novo tipo de sistema de “controle social”. Se você foi infectado com COVID-19 mas seu status está OK e você não precisa estar no hospital ou se você tem algum tipo de gripe ou infecção por vírus similar, você deve ficar confortável em casa e baixar um aplicativo especial em seu telefone celular. Mas ele não funciona tão bem, há muitas falhas técnicas e as pessoas têm recebido multas (de 4000 rublos e mais). Não é bom para a imagem das autoridades. E não se trata de um verdadeiro cuidado com a saúde. Eu não sei exatamente o que acontece nos hospitais. Como não há vacinas, complexos de certos medicamentos e vitaminas são usados para curar. A situação também depende da imunidade. A mídia ocidental iniciou uma espécie de campanha de desinformação contra a Rússia e perguntou por que um número tão pequeno de casos fatais na Rússia. Eu acho que é também porque muitos russos não usam as vacinas antigripais que o Ocidente exporta anualmente. Há alguns anos, o médico distrital da clínica me ofereceu a vacina [contra a gripe], mas eu recusei. Na verdade, eu só recebi este tipo de vacina contra a gripe uma vez na minha vida há cerca de 15 anos. É claro que não recuso a vacinação como um todo, pois existem muitas vacinas obrigatórias, especialmente para crianças. Entretanto, a vacina contra a gripe me parece um oximoro, por causa das mutações que a gripe sofre a cada ano. Há cerca de uma semana, o governo de Moscou anunciou testes gratuitos para aqueles que querem verificar se têm anticorpos para COVID (uma amostragem aleatória da população de Moscou – uma proposta enviada por SMS e aqueles que a recebem podem ou não ir para a clínica distrital). Alguns milhares de pessoas visitaram as clínicas.

Do ponto de vista econômico, o Estado tem ajudado pessoas e empresas em dificuldades devido à quarentena?

No começo só havia apoio para famílias com filhos e para desempregados oficiais (os que perderam seus empregos durante a primeira fase do lockdown). Após um mês, o governo prometeu devolver os impostos de 2019 às pequenas e grandes empresas. Foi adotada uma nova lei sobre a locação de espaços comerciais (de mercado) em shopping centers. Algumas empresas estatais e privadas já receberam doações do orçamento e outras pediram apoio. Grupos especiais de assistentes sociais também têm sido organizados para fornecer alimentos e remédios aos idosos e àqueles que não podem sair de casa e comer sozinhos.

Qual é a situação atual da saúde na Rússia? A população está cansada de medidas restritivas?

A maioria das pessoas se incomoda com as restrições – por exemplo, se elas podem usar o transporte público com uma distância de 1,5 metros porque não podem ir aos parques para caminhar nas mesmas condições? Há também teorias conspiratórias sobre as ligações da COVID com as tecnologias 5G até os interesses globais da Big Pharma e a política malthusiana do governo mundial. Mas algumas regiões já começaram a levantar as proibições. Oficialmente, a situação com o coronavírus está agora melhor. Há menos pessoas infectadas em toda a Rússia.

Você poderia nos dizer sua opinião sobre a origem deste coronavírus que forçou o planeta inteiro a uma quarentena?

Resumidamente, tudo está nas mãos de Deus. As discussões sobre laboratórios e modificações genéticas já começaram, mas há sempre raízes naturais para todas essas manipulações. A maioria dos vírus são de origem natural e passam por mutações. Às vezes os humanos ajudam os vírus a serem mais fortes, direta ou indiretamente. Por exemplo, quando usamos antibióticos para a indústria da carne, após algum tempo, um certo equilíbrio será destruído e os consumidores de carne ficarão mais vulneráveis. Mas os produtos químicos também são utilizados na produção de hortaliças. É um ciclo fechado. E a China sempre foi o lugar natural para muitos vírus (como a região do Equador ao redor do mundo, especialmente onde o clima tropical está localizado). Eu acho que o laboratório de Wuhan não tem nada a ver com esta pandemia.

Como você acha que a geopolítica do mundo vai mudar após o coronavírus?

Nos últimos meses vemos como o mundo tem se tornado mais fechado. A tendência à desglobalização é evidente. Por outro lado, alguns conhecidos globalistas que são proprietários de empresas como a Amazon, etc., ganharam mais receita. Há um salto tecnológico no ciberespaço. As pessoas passaram a utilizar ferramentas e programas específicos que não necessitam de contatos diretos, visitas e viagens. A ideologia do conectivismo e do netismo será mais influente. Por causa das cadeias produtivas, muitos Estados estão agora procurando por alternativas e por autarquias. Isso levará à autoconfiança. Nesta situação, muitos parasitas serão derrotados. Mas eu acho que a batalha ainda não acabou. No último artigo, Richard Haas falou sobre os lados negativos e positivos da globalização. É claro que há. Temos que separar os elementos realmente bons (compartilhamento de informações, velocidade de solidariedade, comunicações) dos maus, como a ganância das corporações multinacionais, o controle total, o monopolismo e o turbocapitalismo sem nenhuma teleologia quando se fala de existência humana.

Fonte: Geopolitica.ru

Leonid Savin

Leonid Savin é escritor e analista geopolítico, sendo editor-chefe do Geopolitica.ru, editor-chefe do Journal of Eurasian Affairs, diretor administrativo do Movimento Eurasiano e membro da sociedade científico-militar do Ministério da Defesa da Rússia.

Deixe uma resposta