Soros e Bannon estão juntos contra a China. Por quê?

Escrito por Andrea Muratore
As narrativas mais aparentes e superficiais pintam Steve Bannon e George Soros como antíteses, opostos absolutos, inimigos essenciais, mas será realmente verdade? Tudo indica que, indo mais fundo, encontramos grandes consonâncias entre os dois, ambos representando a projeção dos interesses americanos sobre o resto do mundo, ainda que a partir de perspectivas ligeiramente distintas.

A narrativa mediática dos últimos anos identificou-os como ideólogos e inspiradores de frentes opostas, soberanistas contra globalistas, qualificando-os como inimigos irredutíveis. No entanto, Steve Bannon e George Soros são e continuam sendo compatriotas, pensam e agem com categorias políticas e ideológicas de matriz americana e têm, do outro lado do Atlântico, a força motriz de seus movimentos. Não surpreende, portanto, vê-los agora declararem-se conjuntamente preocupados com a ascensão da China e tendo a intenção de alertar os países europeus sobre a ameaça de um forte vínculo comercial e político com Pequim.

Os ataques à China de Soros e Bannon

O financista de 89 anos nascido na Hungria e o ideólogo soberano de 66 anos de idade expressaram claramente suas posições ao conversar com dois jornais italianos. Soros, entrevistado pela Repubblica, atacou a China de Xi Jinping combinando uma análise típica de seu apoio à ideologia dos direitos humanos com uma consideração “geopolítica”: “Xi Jinping é um ditador, que consolidou um regime baseado em princípios totalmente opostos aos da União Européia – ele diz -, mas isso ainda não está claro para os países da UE, nem para os círculos industriais, especialmente na Alemanha, que vêem a China como um parceiro econômico, sem perceber que fazer nossa infraestrutura depender da tecnologia chinesa nos expõe a chantagens e a condicionamentos”.

Bannon, por sua vez, conversou com o Corriere della Sera que, contatando-o para falar sobre a reabertura de sua escola política na Cartuxa di Trisulti, teve a oportunidade de confrontá-lo sobre sua visão do contexto global: Bannon define o desafio do Ocidente “judaico-cristão” à China como “a batalha contra um partido radical que não se deterá diante de nada pelo domínio mundial”. Nota-se como em Bannon retornam os tons apocalípticos e milenares que o fizeram conhecido no passado durante sua carreira como “estrategista” das forças populistas e soberanistas do Velho Continente. Bannon também tem palavras para aqueles que são considerados por ele os principais obstáculos à sua estratégia anti-chinesa na península italiana. Por um lado, o Movimento Cinco Estrelas, “que cedeu ao Partido Comunista Chinês, a uma ditadura totalitária”, por outro, o Vaticano, definido como uma “fossa de corrupção, incompetência e devassidão”.

As Duas Faces da Influência dos EUA na Europa

Poucos casos mais que a atual convergência em relação à China ajudam a entender como a suposta incompatibilidade entre Soros e Bannon é uma narrativa instrumental: os dois representam as principais manifestações da projeção através do Atlântico de interesses estratégicos norte-americanos.

Soros, por um lado, é o protagonista desde os anos 80 de assíduas campanhas de financiamento destinadas a corroer o terreno dos regimes comunistas da Europa Oriental e, por outro, é o porta-voz e líder da ala liberal-progressista do mundo das estrelas e listras. Uma ala, com seus aparatos, grupos de influência e partidos políticos, a favor da defesa do status quo e da narrativa da globalização como extremamente favoráveis à manutenção da supremacia e centralidade americana no mundo. Capaz de perseguir uma agenda ideológica (na qual a abertura das fronteiras ao livre comércio e à livre circulação de capitais são muitas vezes subestimadas em comparação com o apoio mais visível à livre circulação de pessoas) que se instalou especialmente na esquerda europeia em busca de pontos de referência após a queda do Muro e o início da globalização.

Bannon, por sua vez , relança em tom “soberanista” a narrativa que já animava a ação dos Estados Unidos nos tempos da hegemonia dos grupos neoconservadores na época de George W. Bush. Portanto: ocidentalismo desdobrado, exaltação do vínculo com aliados como Israel contra um mundo, o islâmico, considerado compacto em sua incompatibilidade com o Ocidente; crítica formal à globalização em nome da primazia do interesse americano (a famosa “America First” de Trump) sem a substancial vontade de perturbar a governança mundial; reavivamento das guerras culturais contra a suposta hegemonia da ideologia “politicamente correta”; legitimação da ideologia econômica neoliberal. Uma ideologia que Pietrangelo Buttafuoco chamou de “sopa reconsagrada dos neo-ocidentalistas”.

Soros e Bannon representam, portanto, duas almas diferentes dos aparatos de poder americanos, em certos momentos extremamente duros em seu confronto e na sua dialética (a fase atual não é exceção), mas concordantes sobre o núcleo duro do interesse nacional americano, que é a manutenção do controle geopolítico sobre a Europa e a luta contra qualquer forma de poder externo capaz de desafiar a hegemonia americana no mundo. A crítica comum à China sinaliza a firme convicção dos decisores estratégicos de Washington de que chegou o momento de começar a entender como acertar as contas com Pequim. E nesta campanha os EUA precisam da Europa como um aliado fiel, não tentados a ceder ao Império do Meio.

Os “Tios da América”.

A crítica à China, de certa forma, deixa cair o véu da hipocrisia sobre Soros e Bannon que seus partidários e críticos têm deliberadamente ignorado: os duros e puros “soberanistass” denunciavam Soros como o arquiteto de cada trama e o apoiador de uma suposta “invasão” de migrantes, enquanto a esquerda liberal sempre via em Bannon uma espécie de Nosferatu, um guru anti-europeu. Em ambos os casos, deliberadamente, falta a afirmação mais importante, ou seja, a natureza externa dos centros propulsores da ação de Soros e de Bannon.

Falando de Bannon, o ex-presidente do Parlamento Europeu e vice-presidente do Forza Italia Antonio Tajani disse, comentando sobre a aproximação da Lega e do Fratelli d’Italia a Bannon: “Como podemos ser soberanistas italianos se um americano vem e nos diz que devemos ser soberanistas americanos?” Uma frase como essa também poderia se aplicar, por outro lado, aos partidários de Soros, cada vez mais parecidos com o estereótipo da New Left americana, incapazes de criticar os problemas econômicos e sociais do sistema por causa de seu expoente orgânico.

Soros e Bannon são os “tios da América” que ofereceram ao mundo político europeu fundos, propulsão ideológica e organização para estruturar uma nova dialética. No caso de Bannon, o resultado foi ainda mais enraizado, pois o ex-conselheiro de Donald Trump conseguiu implantar na Europa uma ideologia que tem, em suas prioridades, diversas consonâncias com o interesse nacional da administração norte-americana: recebe, de fato, do soberanismo, a desestabilização da União Européia, na ótica do divide et impera, uma aproximação ao eixo construído no Oriente Médio com Israel e com a Arábia Saudita e, agora, a dura e profunda crítica à China. Compartilhado por Soros, que na gradual evolução da globalização na direção de Pequim perderia influência junto com sua ala política do outro lado do Atlântico.

O problema subjacente é a fraqueza política da Europa: um continente incapaz de produzir impulsos ideológicos ou políticos, desenvolvimentos inovadores ou idéias para trazer para o grande debate mundial, mas também de exercer a mínima influência sobre os decisores da ordem mundial. Seja Soros ou Trump, Bannon ou Xi, a Europa é sempre vista como o objeto, e não o sujeito, da dinâmica internacional. E isto certifica mais do que qualquer outra consideração o declínio do Velho Continente.

Fonte: InsideOver

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