Panorama Geopolítico da América do Sul

A atitude dos EUA em relação aos povos latinos sempre foi de dominação, imposição e imperialismo. O cerne dessa política está na própria ideologia americana, baseada na Doutrina Monroe do século XIX, que, enunciando uma “América para os americanos”, promoveu a expansão americana em direção a outras terras do Novo Mundo. Especificamente na América do Sul, a interferência externa nas políticas nacionais tornou-se ainda mais evidente com o advento das ditaduras militares do século passado, que, com a desculpa superficial de evitar uma “ameaça comunista”, promoveram longas décadas de miséria e perseguição, cujo único fim tinha sido preservar a subjugação desses países aos mandamentos de Washington durante a Guerra Fria.

O processo de redemocratização na América Latina foi falho e vulnerável. A transição de poder testemunhada pela troca das Forças Armadas por políticos civis não representou nada além dos próprios interesses dos mesmos grupos que financiaram e apoiaram a ascensão dos militares. De fato, quando os objetivos americanos legados aos militares foram alcançados, eles autorizaram a transição do poder, pacificando as políticas nacionais com a capitulação das esquerdas, que abandonara a luta armada em favor do pacto democrático.

Desde então, a interferência externa na América Latina foi desencadeada pela cooptação de facções parlamentares, alimentando gigantescas redes de corrupção que “lutam entre si” publicamente, quando, na verdade, trabalham pelos interesses da mesma potência estrangeira. É o caso dos partidos reacionários e dos grupos da nova esquerda – preocupados com a agenda “identitária” do liberalismo e omissos em relação aos problemas sociais e à soberania nacional.

Enquanto o teatro de confronto público desses grupos está funcionando, a ocupação estrangeira americana funciona perfeitamente, sem grandes desafios e ameaças. No entanto, qualquer desvio dessa realidade é entendido como uma afronta e abre espaço para o ressurgimento da interferência de Washington. Os casos mais recentes que corroboram esse fato são a tentativa frustrada de golpe contra o legítimo governo bolivariano de Caracas e o bem-sucedido golpe de Estado realizado contra o presidente boliviano Evo Morales, ambos no ano passado.

Em geral, os ataques americanos a povos independentes do Sul se intensificaram nos últimos anos. Provavelmente, isso se deve ao fato de o período anterior ao atual ter sido marcado pelo crescimento da esquerda política, que, embora subordinada à hegemonia liberal, atuou com uma agenda razoavelmente ligada às lutas sociais, adiando, mesmo que muito pouco, os planos neoliberais. Agora, esses mesmos países estão enfrentando o avanço extraordinário das direitas reacionárias, com maior ênfase no Brasil.

Um membro do BRICS, o Brasil, com todo o seu potencial para obter status de prestígio na ordem internacional, vem sofrendo o pior período de sua história recente. A ascensão de Bolsonaro traz consigo o pior do país: o crescimento da influência prejudicial dos grupos neopentecostais – cujo maior compromisso é com os interesses de Washington e Tel Aviv; as milícias armadas paramilitares que controlam o crime organizado nas regiões mais pobres do país, realmente agindo como uma máfia e; o setor empresarial como um todo, com enorme progresso no desmantelamento das leis trabalhistas e na expansão do agronegócio, com a legalização de pesticidas e a queima criminosa de florestas nativas para a formação de pastagens para gado. Além disso, o Brasil está passando por um dos piores processos de desindustrialização já testemunhados na história.

A Argentina completou recentemente esse ciclo de ascensão reacionária e agora está testemunhando um retorno da “esquerda branda”, com a retomada do Partido de Kirchner. O legado negativo de Macri não será superado tão rapidamente e a esquerda agora no poder não parece comprometida com a ruptura completa com os interesses externos, mas com a perpetuação do ciclo liberal-parlamentar.

Os casos mais impressionantes, no entanto, são os exemplos mencionados da Venezuela e da Bolívia, países vitimados com sangue pelo imperialismo. Fundamentalmente, é preciso perceber como os dois casos revelam ocorrências reais de invasão estrangeira, mesmo que camufladas com uma aparência democrática. A Venezuela percebeu as articulações da oposição como um verdadeiro caso de guerra e conseguiu controlar a situação: ativou a Guarda Nacional Bolivariana, intensificou as políticas de segurança e ignorou a pressão interna e externa da oposição. Como resultado, Maduro permanece no poder e o golpe se tornou uma piada internacional. Por outro lado, Morales não teve a mesma perspicácia e cedeu demais à oposição, caindo e sendo forçado a deixar o país e entregá-lo ao golpe de Estado.

No Chile, a recente agitação política está tendo um efeito positivo. As reclamações contra o neoliberal Piñera, realizadas por meio de protestos violentos que já deram margem para acionar Estado de Emergência, têm se mostrado bem-sucedidas e, pouco a pouco, o governo é obrigado a ceder à pressão popular.

Atualmente, o panorama da América do Sul é terrível. Com exceção da Venezuela, que está em uma crise inegável, todos os países são, de uma maneira ou de outra, reféns dos interesses americanos, com alguns sob governos que tornam essa realidade mais explícita – como o Brasil – e outros sob regimes mais camuflados. Não há dúvida sobre o ponto fundamental de que o imperialismo americano nunca foi tão agressivo na América do Sul como tem sido nos últimos anos. A razão é simples: diante do progresso na formação de um mundo multipolar, o norte geopolítico está se tornando cada vez mais reativo.

Lucas Leiroz

Ativista da NR, analista geopolítico e colunista da InfoBrics.

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