A Questão Racial no Brasil

Muitos protestos estão ocorrendo nos Estados Unidos por causa do assassinato de um preto chamado George Floyd por um policial branco em Minneapolis. É um bom momento para enfatizar o erro do movimento negro brasileiro, muito influenciado por conceitos ianques, ao comparar as relações raciais norte-americanas com as brasileiras.

Existe uma distância imensa entre os conceitos e as interações raciais nos EUA e no Brasil, é impossível reduzi-las aos mesmos parâmetros ou estabelecer políticas comuns baseadas nesses reducionismos.

Desejando combater a ideologia da mestiçagem, o movimento negro influenciado por conceitos ianques atirou fora a figura do ”mestiço”, que é uma maneira genérica e estatisticamente útil de se referir a realidades orgânicas de diversas regiões da América Portuguesa: crioulos, mulatos, caipiras, sertanejos, gaúchos, cafuzos, caboclos etc.

As Américas diferem profundamente em seu projeto civilizacional por causa, dentre outras coisas, da perspectiva de suas matrizes religiosas e dos povos que interagiram em seu território. Os tupis não tinham problema em engolirem o outro e o vincularem a seu sistema de parentesco e afinidade. E os católico-romanos acreditavam na cristianização de indígenas e africanos.

Nesse ponto, o protestantismo de matriz calvinista e puritana que permeou a mentalidade ianque era muito mais exclusivista, baseado em uma versão judaizante do mito de eleição e da terra prometida, que tornava a integração e a mestiçagem [cultural e física] extremamente mal vista.

Enquanto isso, o catolicismo popular ibérico permitiu a emergência de elites que se orgulhavam descender de Caramuru e João Ramalho, europeus que se indianizaram, adotaram a cultura tupi, casaram com índias e procriaram brasilíndios a rodo.

Só para dar um exemplo, os Reinóis do século XVIII chamavam a elite do Rio de Janeiro de ”tapuias grosseirões” não por acaso, e toda paulistolândia foi marcada pelos bandeirantes, herdeiros diretos de luso-tupis, assim como o nascimento do Rio Grande está vinculado á cultura luso-guarani.

Óbvio que esse processo era tenso e envolvia múltiplas formas de violência, mas antes de ser uma ”ideologia” instrumentalizada no século XX, a mestiçagem, inculturação, sobreposição étnica e gestação de povos novos era uma realidade sócio-cultural em nosso território, muito distinto da conquista da América do Norte pelos calvinistas.

Um exemplo a mais pode esclarecer ainda mais as distinções fundamentais entre esses processos: eu disse semana passada que a elite do Rio de Janeiro se via como ”nobreza imemorial” fundamentada na conquista do Recôncavo da Guanabara. Ora, parte considerável do poder dessa elite se devia às relações que criava com a sociedade de pretos, mulatos, livres e forros do Rio de Janeiro.

Essas relações se baseavam, principalmente, na capacidade criar laços de parentesco ritual que, por sua vez, se desdobravam em uma rede de clientelismo. O parentesco ritual advinha do batismo católico-romano, que vinculava os senhores não só com a escravaria [que era pequena em relação a grandes comerciantes reinóis estabelecidos no Rio no século XVIII], mas com homens livres da cidade.

Era todo um complexo e denso sistema de COMPADRIO que unia ”casas” da nobreza local com outros grupos sociais, e também uniam esses grupos sociais de clientes uns com os outros.

Essas redes de clientela igualmente parecem ecoar heranças da sociedade de dádivas e afinidades tupis, bem como ideias africanas de paternidade espiritual/social, e aparentava todos esses grupos.

Em outro artigo, darei exemplo de um poderoso senhor de homens e almas no Rio de Janeiro que havia sido escravo, evidenciando que a instituição da escravidão, que conformou as hierarquias sociais brasileiras, não tinha por fundamento principal a ideia de raça.

Ou seja: os senhores podiam ser também mulatos, caboclos, caipiras, pretos, indígenas, sertanejos etc.

André Luiz

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

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