O Governo Bolsonaro, a Estratégia de Confronto e os Reais Horizontes de Olavo de Carvalho

Apesar de toda a influência exercida sobre as nomeações e rumos do governo Bolsonaro, Olavo de Carvalho ainda é bastante subestimado. Pior, existe a tendência a achar que ele é tolo, ou que o fato de que sua orientação leva o país ao caso é alguma espécie de acidente ou deficiência. A realidade, é que toda a estratégia de tensão dirigida por Olavo aponta para o caso e para empurrar o país na direção de uma guerra civil.

Muita gente fica se perguntando por que Bozó não recua de sua posição de confronto e se concentra em governar de fato o país e levar adiante seu programa. Ora, há de se entender o ponto de vista bozólouco, o verdadeiro projeto por trás dos rascunhos mal feitos e apresentados na campanha eleitoral de 2018.

A cabeça desse pessoal foi formatada pra acreditar que o Brasil é dominado por comunistas. Olavo de Carvalho usa esse tipo de paranoia pra vender seu peixe de destruição de todas as instituições brasileiras.

O pseudo-guru ensina que o Brasil está todo tomado pelo comunismo, que se infiltrou até nas fronhas do Palácio do Planalto. Universidades, grandes jornais, partidos políticos, entidades empresariais, Forças Armadas, teria ido tudo pra cucuia.

O comunismo para Olavo não é apenas uma ”ideologia”, mas a interface de uma agência satânica levada à frente por grupos diabólicos no sentido pleno do termo. São adoradores do capeta que não se dedicam apenas à conquista do poder político, mas penetram na mentalidade, na cultura, na alma dos cidadãos, como verdadeiros parasitas. O parasitismo espiritual dos demonhos, que possuem a psique de pecadores fragilizados, se torna, no comunismo, em parasitismo mental, cultural e social.

A meia dúzia de três que lêem essas linhas podem até achar que tudo isso é uma maluquice sem tamanho, mas devem perceber que é nessa chave que o pseudo-guru lê o mundo. Para ele, uma vez que um país tenha sido dominado pelo capeta por meio da infiltração comunista, já era, não há volta. Uma vez comunista, o país não pode mais ser recuperado por meios humanos. Só intervenção divina nesse caso. Esse é um dos ensinamentos de Olavo para membros de sua seita, um dos pilares da ação intelectual e política de seus discípulos.

A solução seria destruir tudo, se necessário por meio da guerra civil, para subordinar o povo brasileiro a determinada ala da política ianque. Para o Jim Jones da Virgínia, os Estados Unidos seriam uma trincheira de guerra espiritual e cultural, quiçá cósmica. Mas são também o ”país mais cristão da História”, segundo ele mesmo diz. Aquele que melhor instanciou as possibilidades do cristianismo em sua sociabilidade.

Claro que Olavo não avisa para seus seguidores do círculo mais exterior de discípulos que o objetivo é detonar o Brasil e entregá-lo de vez para os EUA. Ele fala apenas de combater o sistema, que teria sido tomado por comunistas. Ele faz Bozó acreditar que é um soldado numa guerra patriótica. Jair não sabe, mas ele é o ”homem do tempo” de Olavo de Carvalho, um instrumento para detonar de vez o Estado brasileiro, quem sabe partir até a nação.

Bozó não tem apego ao STF, Congresso, Mídia, Constituição etc. Seu lance não é sequer o Exército, por mais que ele tenha algum misto de admiração e ressentimento com a instituição que o educou e nutriu, e que também lhe serviu de base eleitoral durante boa parte da carreira. No entanto, ele e sua família foram ensinados pelo ”guru” que essas instituições estão comprometidas pelo comunismo.

Daí os esquemas paralelos liderados por gente de confiança do Presidente. Por exemplo, há um sistema de mídia paralela, que alimenta redes sociais e mantém a mobilização da militância. Jair confunde esse instrumento de propaganda com ”jornalismo verdadeiro”, que ele contrapõe às ”fake news”, que viriam da mídia mainstream. Os robôs criados por Carluxo seriam mais verdadeiros do que os leitores de jornais e revistas. Afinal, são todos ”robôs” em algum nível, e é melhor aquele que estaria a serviço da ”verdade” e do nosso lado da guerra.

Do mesmo modo, tem uma ”Abin do B”, também comandada pelos filhos, pra fornecer ao presidente ”informações fidedignas”, já que ele pensa que a Abin ”oficial” está aparelhada — coisa que ele afirma explicitamente no vídeo da reunião ocorrida no dia 22 de abril e que foi liberado ontem pelo Ministro Celso de Mello.

E há um exército particular: grupos paramilitares que Bozó considera ”do bem”, e que estaria disposto a usar caso o país caminhasse para uma ”ditadura”. No jargão dele, isso é sinônimo de governo comunista, não de Estado autoritário. Um autoritarismo de direita seria bem vindo, e ele gostaria de ”capitaneá-lo”, já uma democracia formal liderada por comunistas seria um tipo de totalitarismo. Há de se entender o que Bozó quer dizer com esses termos, enxergar por meio de seus olhos.

Não adianta convencer os bozóloucos de que milícias são infames, que oprimem a população, que eles estão cometendo crimes segundo a legislação brasileira. Eles se consideram em uma guerra do bem contra o mal. Só que eles não percebem também tudo o que implica o ”bem” que pensam defender, pois a chave de todo processo está em Olavo de Carvalho.

Existem muitos sinais de que Bozó facilitou desvios de armas para grupos milicianos. Eu não duvido nada que ele delire com a possibilidade de uma guerra civil, e que esses delírios sejam alimentados por Olavo de Carvalho, que gostaria de ver o circo pegar fogo pra tentar atrair uma intervenção das Forças Armadas dos Estados Unidos.

Não se trata de teoria da conspiração: Olavo vem defendendo na última semana que, caso o Exército brasileiro não tome o lado de Bozó nesse conflito político-ideológico, a intervenção teria de vir dos militares ianques. Foi o pseudo-guru também que montou o tal acampamento de ”300 guerreiros”, que, ainda que seja inócuo do ponto de vista bélico, é um símbolo da busca por ”ucranização” do Brasil.

Eis o o cenário por trás da agência do núcleo bozólouco, que tem por principal estrategista um ocultista, líder de uma seita tradicionalista e atlantista. Quem pensa que se trata de ”teoria da conspiração” de minha parte está totalmente perdido quanto ao que essa gente imagina planejar.

E é por isso que não entendem a lógica do [des]governo: ”por que ele faz essas coisas?” Ora, porque ele acredita piamente que está em guerra contra o comunismo! Mas aquilo que pra Bozó é uma continuação de 1964, pra Olavo de Carvalho é algo ainda mais fundamental. Bozó pensa estar instrumentalizando o Centrão; o Jim Jones da Virgínia pensa que o Brasil inteiro é apenas uma peça de um jogo geopolítico-espiritual, que pode e deve ser descartada a fim de manter a hegemonia de quem realmente interessa, o Império norte-americano.

André Luiz

Historiador, mestrando em História pela UFRJ, cristão ortodoxo e membro da NR-RJ.
 

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