Ceresole e a Crise Venezuelana: “O processo bolivariano foi infiltrado e sabotado pelos globalistas”

Escrito por Juan Gabriel Caro Rivera
Durante os primeiros anos do governo de Hugo Chávez na Venezuela, o processo revolucionário bolivariano era extremamente promissor. Um oficial militar educado na única escola de guerra não americanizada do continente, influenciado pelo peronismo e leitor de escritores dissidentes como Alain de Benoist, Hugo Chávez começou a guiar a Venezuela na direção da ruptura com a Sinarquia. Mas contradições internas causadas pela infiltração inimiga levaram o processo bolivariano a uma situação de crise e instabilidade permanentes.

Sobre isso, é fundamental estudar o pensamento de Norberto Ceresole, sociólogo argentino, adepto do peronismo, que nos primeiros anos do governo de Chávez foi um de seus principais assessores, mas que foi expulso do país por uma conspiração do Mossad.

Hoje o nome de Norberto Ceresole talvez seja desconhecido para a maioria das pessoas que nem conhecem seu trabalho, mas este sociólogo militar e analista geopolítico foi um dos grandes teóricos da revolução bolivariana na Venezuela.

Norberto Ceresole conheceu Hugo Chávez muito antes de ele se tornar presidente, em suas primeiras viagens à Venezuela em 1995. Naquela época, o exilado argentino tentou aconselhar Chávez e convencê-lo da necessidade de uma revolução baseada em uma geopolítica continentalista e em um caudilhismo pós-democrático que se tornaria um futuro farol de liberdade para a América Latina. Ceresole procurou aplicar seu modelo revolucionário segundo o qual o exército, o caudilho e o povo formariam uma tríade capaz de se entrelaçar em um destino comum, cujo objetivo seria a soberania, a independência técnico-militar e a criação de uma frente multipolar, aliada a outras nações do Terceiro Mundo, especialmente no Oriente Médio e próxima ao nacionalismo árabe. O jovem comandante Hugo Chávez, ainda fortemente influenciado pelo Movimento Bolivariano Revolucionário-200, prestou pouca atenção ao professor argentino, que mais tarde seria ameaçado de deixar a Venezuela, segundo ele, pelo DISIP, sob a supervisão do MOSSAD.

De todas as críticas feitas pelo agora falecido sociólogo, talvez uma delas continue sendo decisiva para entender o declínio do processo venezuelano: para Ceresole, havia de fato duas correntes opostas dentro da revolução bolivariana venezuelana que acabariam produzindo um conflito interno a qualquer momento: “hoje, a revolução bolivariana está debatendo entre duas opções excludentes: a social-globalista e a nacional-continentalista ou bolivariana propriamente dita”. Como tantas outras vezes na história do mundo, a revolução e a contrarrevolução coexistem, provisoriamente, dentro do mesmo processo político” (1). Assim, ele formulou a hipótese de uma guerra civil dentro do Chavismo que acabaria por dividir a revolução ao meio e conduziria gradualmente o país ao caos e à ingovernabilidade. A primeira corrente, como ele mesmo aponta, seria a social-democracia ou os social-globalistas, um conjunto diversificado de correntes políticas que representam a doença infantil do esquerdismo: “A contrarrevolução não é apenas a Oligarquia Globalizadora, mas também seus parceiros de esquerda (armados ou civilizados, bolcheviques ou social-democratas, castristas ou simplesmente progressistas, todos filhos da mesma teologia e do mesmo pai messiânico), que procuram se nfiltrar no processo revolucionário nacional, que é autenticamente endógeno, para pervertê-lo e anulá-lo”(2). Esta esquerda global, pós-moderna, social-democrática e fabulosa, cujo chefe político-ideológico seria a London School of Economics e o Deep State britânico, seria composta por todo o tipo de oportunistas e agentes duplos: do ex-presidente Juan Manuel Santos na Colômbia a Luis Rodríguez Zapatero na Espanha, e incluindo outros intelectuais alter-globalistas e democratas sionistas como Jimmy Carter e Noam Chomsky, ou países e instituições religiosas como a Noruega e o Vaticano.

Contra esse esquerdismo infantil, existiria o processo revolucionário nacional populista do populismo bolivariano: um projeto geopolítico, militar e revolucionário que buscaria criar uma Grande Pátria Americana, baseada em exércitos nacionais, impulsionada por um grande líder e apoiada por um povo heróico mobilizado por uma ideologia de luta adaptada ao século XXI. Norberto Ceresole não parava de alertar que os novos movimentos revolucionários do nosso continente já não podiam contar com todo o lixo ideológico produzido no Primeiro Mundo, concebido para sustentar o domínio colonial e envenenar o espírito da nossa juventude. O bolivarianismo “não pertence nem pode pertencer a nenhuma das famílias ideológicas que hoje compõem os sistemas sinárquicos globais hegemônicos: sejam elas as lojas de direitos humanos, os indigenistas profissionais, os fascistas nostálgicos orgânicos aos serviços de inteligência ocidentais, os marxistas-leninistas com sede de vingança, os social-democratas de mercado ou os sionistas que defendem a política de extermínio do Estado (cada vez mais judaico) de Israel” (3). Por outro lado, a modernização das forças armadas, suas alianças políticas e comerciais, devem girar em torno de Estados distantes da ordem internacional, como Síria, Irã, Rússia e China, tentando com isso ampliar as bases necessárias para uma sustentabilidade a longo prazo do processo revolucionário continental. Ao invés disso, a revolução bolivariana tentou buscar um equilíbrio entre as duas correntes, a nacional-continental e a social-globalista. Este duplo jogo diplomático, que Nicolás Maduro e seu gabinete tentaram usar a seu favor até agora, parece ser uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento, mergulhando a Venezuela no caos sistemático ou na guerra civil.

Em retrospectiva, as palavras de Norberto Ceresole parecem proféticas: apontar essa fratura ideológica e política que está provocando o colapso de todos os “movimentos progressistas” de nosso continente, especialmente os que se dizem de esquerda e fingem, falsamente, desafiar a Nova Ordem Mundial. Tal afirmação não é de modo algum supérflua e demonstra um problema sério do qual a esquerda política continental não consegue escapar. Nem o PT de Lula nem o Movimiento de Revolución Ciudadana de Rafael Correa representaram um verdadeiro desafio para o sistema internacional (sendo este último assediado pelas forças que supostamente defendia, como os indígenas, ecologistas, esquerdistas e progressistas de todas as listras, que agora retornaram à teia do globalismo). Os seus governos, por outro lado, caíram em escândalos de corrupção, ineficiência administrativa, falta de soberania financeira, desorientação política ou guerra sistemática contra as suas próprias bases populares. Pior ainda, eles acabaram ficando atolados em todo tipo de pequenas disputas e crises locais, chegando a um ponto insustentável, tanto política como economicamente, como é o caso da Venezuela.

Hoje, como temia Norberto Ceresole, a revolução bolivariana parece estar caminhando para o seu próprio suicídio. Vítima de suas próprias forças desintegradoras, o aparato econômico venezuelano está afundando em uma crise irremediável:

“A magnitude da crise venezuelana é inigualável na América. Eu a comparo ao que a Polônia experimentou durante a ocupação nazista (1939-43), quando perdeu 40% de seu PIB, sob bombardeio e genocídio. A Venezuela perdeu 50 por cento. O PIB per capita caiu 60 por cento nos últimos anos. Nem a Guatemala nem El Salvador, com suas guerras civis, caíram a esse extremo; isto é realmente assustador. Houve uma destruição indescritível do capital e das forças produtivas, não há produção, a produtividade caiu por terra, as importações também caíram muito e há milhares de empresas que fecharam, 70% delas. As que permanecem em atividade trabalham a 10 ou 15 por cento da sua capacidade. As empresas estatais também fecharam massivamente; a terceira maior empresa siderúrgica das Américas trabalha a 10 ou 15% de sua capacidade. A extração de petróleo caiu de 60 a 65%. A PDVSA, que era uma das principais companhias petrolíferas da região, não pode pagar os seus salários e depende de empréstimos que provêm de dinheiro inorgânico, capital fictício. Nos termos de Marx, a população operária excedente venezuelana, maquiada pelo petróleo, explodiu, porque essa maquiagem não existe mais. Apesar dos enormes subsídios, como a doação de gasolina, gás, eletricidade, água, sua renda não permite que as pessoas comprem mais de 10% do que precisam para comer. Há desnutrição, mas para o governo não há desemprego, não são publicados números desde 2015. Não há dados sobre o PIB, nem sobre a inflação. Diz-se que no setor formal há 6% de desemprego, provavelmente porque ninguém quer trabalhar no setor formal. Muitos são trabalhadores independentes ou deixaram o país, cerca de três ou quatro milhões, facilmente, 12 ou 13% da população, equivalente a 20 ou 25% da população economicamente ativa (cerca de 16 milhões). Não há desemprego porque o salário é extremamente baixo” (4).

Isso também acontece com sua nefasta tentativa extremista de destruir o tecido orgânico da organização política hispânica, o município (associado pelos ideólogos do chavismo ao colonialismo, à democracia representativa e às estruturas capitalistas), com a intenção de substituí-lo pela comuna, uma nova forma de socialismo autogestionário que seria a próxima etapa evolutiva de uma sociedade mais justa e igualitária, na qual todos os problemas anteriores desapareceriam, como que por magia:

“A Comuna é uma expressão concreta do poder popular através do autogoverno comunitário, da administração e gestão de competências e serviços, e até mesmo da organização econômico-produtiva. O autogoverno comunitário é a democracia direca. Através das assembleias de cidadãos, as comunidades que compõem a Comunidade exercem o autogoverno e assumem o planejamento, a coordenação e a execução do governo comunal. O poder de decisão, anteriormente representado na burocracia dos governos e prefeituras, é transferido para a comunidade. As direções e decisões coletivas tornam-se assim uma verdadeira descentralização” (5).

Ou seja, realizar uma auto-demolição programada do Estado nacional e soberano, substituí-lo pelas mil e uma vontades independentes de grupos desunidos e tribais que careceriam de algum princípio de unidade, ou como lhe chamaria Ceresole: “a delirante versão pós-moderna, elaborada pelo marxismo, e não apenas pelo marxismo soviético, da raça operária, possuindo todas as virtudes humanas e nenhum dos seus defeitos”. Em suma, a democratização do poder venezuelano, formulada pelos ideólogos oficiais do movimento bolivariano, acabaria por lançar a sociedade num caos incontrolável, não muito diferente de qualquer Estado fracassado onde múltiplos grupos lutam pelo poder: “Democratizar o poder hoje tem um significado claro e unívoco na Venezuela: significa ‘liquefazer’ o poder, significa ‘gaseificar’ o poder, significa anular o poder…”, em vez da relação simbiótica entre o caudilho e as massas, onde o povo venezuelano gerou um caudilho. “O núcleo do poder hoje é precisamente essa relação estabelecida entre o líder e as massas. Esta natureza única e diferenciada do processo venezuelano não pode ser distorcida nem mal interpretada. Estamos falando de um povo que deu uma ordem a um chefe, um caudilho, um líder militar” (6). Como se pode ver até agora, os avisos de Norberto Ceresole foram ignorados e os seus piores receios foram cumpridos ao pé da letra.

Em todo caso, o crescente assédio econômico e internacional da Venezuela, somado ao contínuo desgaste político do chavismo e as contradições internas produzidas pela “Nova Classe” da sociedade promovida pela revolução (causando um grave problema de corrupção), fazem do mesmo projeto revolucionário um passo decisivo que até agora queriam adiar, mas que está se tornando cada vez mais inevitável. Para Norberto Ceresole isto significava adotar uma nova abordagem continentalista que tem sido notória pela sua ausência extrema até agora. Em nossa opinião, porém, tal partida seria insuficiente diante da crescente polarização que está ocorrendo a nível mundial. Para isso, a nossa alternativa requer uma reconfiguração das forças combatentes em torno de um populismo abrangente, cuja missão será, em primeiro lugar, vencer a resistência produzida pelas forças liberais e social-globalistas entrincheiradas em cada nação. Esta luta deve ser o primeiro passo para a constituição de uma futura resistência ao sistema mundial pós-moderno.

Notas:

  1. Norberto Ceresole, «Caracas, Buenos Aires, Jerusalén. Ejercito + Caudillo + Pueblo», en https://rebelioncontraelmundomoderno.wordpress.com/2019/07/20/caracas-buenos-aires-jerusalen-ejercitos-caudillo-pueblo/
  2. Ibíd.
  3. Ibíd.
  4. Entrevista al economista marxista Manuel Sutherland: «Estoy en contra de una invasión militar, pero no puedo aplaudir al Gobierno de Maduro», en https://www.rebelion.org/noticia.php?id=258943
  5. Víctor Álvarez R., Del Estado burocrático al Estado comunal, ob. Cit., pp. 154-155.
  6. Norberto Ceresole, «Caracas, Buenos Aires, Jerusalén. Ejercito + Caudillo + Pueblo», en https://rebelioncontraelmundomoderno.wordpress.com/2019/07/20/caracas-buenos-aires-jerusalen-ejercitos-caudillo-pueblo/

Fonte: Rebelión

Deixe uma resposta