Morre Florian Schneider, o V-2 da música

Nesta quarta, Florian Schneider, um dos fundadores do influente Kraftwerk, morreu aos 73 anos. Como uma organização não conformista, a Nova Resistência – NR não poderia deixar passar em branco a perda desse homem de vanguarda.

Ao ouvir pela primeira vez as texturas massivas de Florian Schneider, me vieram à mente os versos do Poeta Sensacionista, em particular os da sua “Ode Triunfal”:

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!

E “Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando”, o Kraftwerk irrompeu no cenário musical na conjuntura em que os guerrilheiros do Grupo Baader-Meinhof estremeceram, ainda que de modo efêmero, as já carcomidas estruturas de uma aburguesada Alemanha Ocidental. Poderíamos dizer que Ralf Hütter e Florian Schneider cumpriram papel análogo no front cultural.

Se por um lado há quem se equivoque em atribuir à época do brilhante “Autobahn” uma espécie de pré-história da música eletrônica, por outro acerta quem afirma que o legado do Kraftwerk não fica muito atrás do de bandas como The Beatles. Na realidade, a pré-história da música eletrônica remonta ao período soviético, a experimentos com o sintetizador russo ANS, projetado por Evgeny Murzin e dedicado ao compositor, ocultista e vanguardista Alexander Nikolayevich Scriabin (por isso, o acrônimo ANS), revelando uma conexão profunda entre a música eletrônica e o ocultismo, que por sinal não foi pontual: citando caso análogo, o futurista e ocultista Luigi Russolo construía seus próprios instrumentos eletrônicos.

Assim, o mérito do Kraftwerk fora combinar tais influências com o minimalismo, a musique concrète, a música eletroacústica e o serialismo, transpondo essa síntese para o universo “pop”, mesmo assim granjeando a simpatia do público mais exigente, bem como influenciando quase tudo que moldou o gosto musical de quem nasceu a partir da década de 1960: Joy Division/New Order, Devo, Depeche Mode, Radiohead, Aphex Twin e até mesmo o funk carioca, por meio de Afrika Bambaataa, só pra citar uns poucos exemplos.

Para os entusiastas do Arqueofuturismo, é escusado sublinhar o papel da obra de Florian Schneider. Os antecedentes do Kraftwerk em particular e do Krautrock em geral confirmam os esforços para sintetizar ciência, música eletrônica e espiritualidade, tais anseios já estão no manifesto de Luigi Russolo, “L’arte dei rumori” (“A arte dos ruídos”).

R-r-r-r-r-r-r-r eterno! Descanse em velocidade, Sr. Schneider!

Ewerton Alípio

Formado em Letras, é professor e ativista da NR-RN.

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