Coronavírus e os Horizontes de um Mundo Multipolar: As Possibilidades Geopolíticas da Epidemia

Para o Prof. Dugin, a epidemia de coronavírus pode representar o ponto de partida para uma ordem mundial multipolar, pois a pandemia está pondo em xeque a globalização, a sociedade aberta e o sistema capitalista global.

A pandemia mundial do coronavírus tem enormes implicações geopolíticas. O mundo nunca mais voltará a ser o mesmo. No entanto, é cedo para dizer que tipo de mundo irá se tornar. O surto não passou: nem sequer alcançou o auge. As perguntas mais importantes permanecem sem resposta:

– Que tipo de perdas a humanidade sofrerá em última instância, quantas mortes?

– Quem poderá deter a propagação do vírus, e como?

– Quais são as consequências reais para aqueles que ficaram doentes e os que sobreviveram?

Ninguém pode responder essas perguntas com exatidão, e portanto, nem sequer podemos imaginar vagamente o dano real. No pior dos casos, a pandemia conduzirá a uma grave diminuição da população mundial. No melhor dos casos, o pânico será prematuro e sem fundamento.

Porém, já nos primeiros meses da pandemia, algumas mudanças geopolíticas globais já são bastante óbvias e em grande medida irreversíveis. Não importa como se desenvolvam os eventos posteriores, algo mudou na ordem mundial de uma vez por todas.

O derretimento da unipolaridade

O estopim da epidemia do coronavírus foi um momento decisivo na destruição do mundo unipolar e o colapso da globalização. A crise da unipolaridade e a aceleração da globalização foram notáveis desde o começo da década de 2000: a catástrofe do 11 de setembro, o forte crescimento da economia chinesa, o retorno à política global da Rússia de Putin como uma entidade cada vez mais soberana, o despertar do mundo islâmico, a crescente crise dos imigrantes e o auge do populismo na Europa e inclusive nos Estados Unidos, que resultou na eleição de Trump e muitos outros fenômenos paralelos, deixaram claro que o mundo que se formou nos anos 90 em torno do domínio do Ocidente, os Estados Unidos e o capitalismo global, entrou numa fase de crise. A ordem mundial multipolar está começando a se formar com novos atores centrais, as civilizações, segundo o que havia previsto Samuel Huntington. Embora houvessem sinais de multipolaridade emergente, uma tendência é uma coisa e a realidade objetiva outra. É como o gelo quebradiço na primavera: é evidente que não durará muito tempo, mas ao mesmo tempo, é inegável que pode resistir, embora em situação de risco. Ninguém pode ter certeza quando o gelo rompido irá ceder.

Agora podemos começar a contagem regressiva para uma ordem mundial multipolar: o ponto de partida é a epidemia de coronavírus. A pandemia sepultou a globalização, a sociedade aberta e o sistema capitalista global. O vírus nos obrigou a caminhar sobre o gelo e os enclaves individuais da humanidade começaram a tomar trajetórias históricas isoladas.

O coronavírus sepultou todos os principais mitos da globalização:

– a efetividade das fronteiras abertas e a interdependência dos países do mundo,

– a capacidade das instituições supranacionais para enfrentar uma situação extraordinária,

– a sustentabilidade do sistema financeiro global e a economia mundial em seu conjunto quando enfrentam graves desafios

– a inutilidade dos estados centralizados, os regimes socialistas e os métodos disciplinares para resolver problemas graves e a total superioridade das estratégias liberais sobre eles

– o triunfo total do liberalismo como panaceia para todas as situações problemáticas

Suas soluções não funcionaram na Itália, nem em outros países da UE, nem nos Estados Unidos. Somente demonstrou ser eficaz o fechamento abrupto da sociedade, a dependência dos recursos internos, o poder estatal forte e o isolamento dos doentes dos saudáveis, cidadãos de estrangeiros, etc.

Ao mesmo tempo, os próprios países do Ocidente reagiram à pandemia de maneira muito diferente: os italianos introduziram a quarentena completa, Macron introduziu um regime de ditadura estatal (no espírito dos jacobinos), Merkel deu 500 milhões de euros para apoiar a população, e Boris Johnson, seguindo o espírito do individualismo anglo-saxão, sugeriu que a enfermidade fosse considerada um assunto privado para todos os ingleses e se negou a realizar testes, simpatizando antecipadamente com aqueles que irão perder seus entes queridos. Trump estabeleceu um estado de emergência nos Estados Unidos, encerrando as comunicações com a Europa e o resto do mundo. Se o Ocidente atua de maneira tão disparatada e contraditória, o que acontece com o resto dos países? Todos parecem se salvar como podem. Isto foi alcançado de maneira mais exitosa pela China, que, como resultado das políticas práticas do Partido Comunista, estabeleceu métodos disciplinares rigorosos para combater a infecção e acusou os Estados Unidos de propagá-la. O Irã fez a mesma acusação, tendo sido duramente afetado pelo vírus, inclusive entre os principais líderes do país.

Portanto, o vírus destruiu a sociedade aberta por completo e empurrou a humanidade adiante em sua viagem para um mundo multipolar.

Independentemente do que colocará fim à luta contra o coronavírus, está claro que a globalização entrou em colapso. Certamente, isso quase poderia significar o fim do liberalismo e seu domínio ideológico total. Dificilmente é possível prever a versão final da futura ordem mundial, especialmente em seus detalhes. A multipolaridade é um sistema que não existiu na história, e se buscamos algum análogo distante, não deveríamos recorrer à era dos Estados europeus mais ou menos equivalentes depois do mundo de Westfália, mas ao tempo que precede a era do grande descobrimento geográfico, quando, junto com a Europa (dividida em países cristãos ocidentais e orientais), o mundo islâmico, Índia, China e Rússia existiram como civilizações independentes. Outras civilizações existiram no período pré-colonial na América (os Incas, Aztecas, etc.) e a África. Houveram vínculos e contatos entre essas civilizações, mas não houve um único tipo vinculante com valores, instituições e sistemas universais.

É provável que o mundo pós-coronavírus envolva regiões mundiais individuais, civilizações, continentes que gradualmente se convertem em jogadores independentes. Ao mesmo tempo, o modelo universal do capitalismo liberal provavelmente irá colapsar. Esse modelo, atualmente, serve como denominador comum de toda a estrutura da unipolaridade: desde a absolutização do mercado até a democracia parlamentária e a ideologia dos direitos humanos, incluídas as noções de progresso e a lei de desenvolvimento tecnológico que se transformaram num dogma da Europa Moderna e se propagaram à todas as sociedades humanas através da colonização (direta ou indiretamente em forma de ocidentalização).

Muito dependerá de quem irá derrotar a epidemia e de que modo: quando as medidas disciplinares se demonstrem eficazes, serão incluídas na ordem política e econômica do futuro como um componente essencial. Aqueles que, por outro lado, não forem capazes de lidar com a ameaça de uma pandemia através da abertura e evitando medidas duras, podem chegar à mesma conclusão. A alienação temporal ditada pela ameaça direta de contágio de outro país e outra região, a ruptura dos laços econômicos e a alienação necessária de um único sistema financeiro obrigará aos estados afetados pela epidemia a buscar a autossuficiência, porque a prioridade será a segurança alimentar. Autonomia mínima e autarquia econômica para satisfazer as necessidades vitais da população, além de qualquer dogma econômico que, antes da crise do coronavírus, se considerava a única possibilidade. Mesmo onde o liberalismo e o capitalismo perdurem, serão mantidos na estrutura nacional no espírito das teorias mercantilistas que insistem em manter o monopólio do comércio exterior nas mãos do Estado. Aqueles que estão menos conectados com a tradição liberal poderão se movimentar em outras direções, nos inventários da organização mais ampla do “grande espaço”, levando em conta as peculiaridades civilizacionais e culturais.

Não se pode dizer antecipadamente no que se transformará o modelo multipolar em seu conjunto, mas o próprio fato de romper o dogma geralmente vinculante da globalização liberal abrirá oportunidades e formas completamente novas para cada civilização.

Depois do coronavírus: segurança multipolar

O mundo multipolar criará uma arquitetura de segurança completamente nova. Pode ser que a resolução de conflitos não seja mais sustentável ou adaptável, mas será diferente. Nesse novo modelo, o Ocidente, os Estados Unidos e a OTAN (sim, a OTAN ainda existe) serão apenas um dos fatores. Os Estados Unidos evidentemente não poderão (e provavelmente não desejarão, se a posição de Trump finalmente prevalece em Washington) desempenhar o papel de único árbitro global, e, portanto, os Estados Unidos terão um estatuto diferente depois da quarentena e estado de emergência. Pode-se comparar com o papel de Israel no Oriente Médio. Israel é, sem dúvidas, um país poderoso, que influencia ativamente no equilíbrio de poder da região, mas não exporta sua ideologia e seus valores aos países árabes circundantes. Pelo contrário, conserva sua identidade judaica para si, tratando de livrar-se daqueles que possuem outros valores ao invés de incluí-los em sua composição. Construir um muro com o México e seguir as declarações de Trump para que os estadunidenses se concentrem em seus próprios problemas internos é similar ao caminho de Israel: Estados Unidos será uma potência poderosa, mas sua ideologia liberal-capitalista se manterá somente dentro de si mesma, no lugar de atrair estrangeiros. O mesmo se aplicará à Europa. Como consequência, o fator mais importante do mundo unipolar mudará radicalmente sua forma.

Isto, é claro, levará a uma redistribuição de forças e funções entre outras civilizações. Europa, se preserva sua unidade em algum grau, é provável que crie seu próprio bloco militar independente dos Estados Unidos, que já foi discutido, depois do colapso da União Soviética (o projeto do Euro-exército), e também mencionado repetidamente por Macron e Merkel. Não sendo diretamente hostil aos Estados Unidos, em muitos casos esse bloco seguirá os interesses europeus propriamente ditos, que as vezes podem diferir consideravelmente dos interesses dos Estados Unidos. Em primeiro lugar, afetará as relações com a Rússia, Irã, China e o mundo islâmico.

A China terá que deixar de ser um beneficiário da globalização e adaptar-se para perseguir seus interesses nacionais como potência regional. Esse é exatamente o rumo de todos os processos da China ultimamente: fortalecer o poder de Xi Jinping, o projeto “Um caminho – Uma rota”, etc. Não se trata mais de globalização com característica chinesas, mas de um projeto explícito do Extremo Oriente com características confucionistas especiais e em parte, socialistas. Os conflitos no Oceano Pacífico, com os Estados Unidos, definitivamente irão se acirrar.

O mundo islâmico enfrentará um difícil problema do novo paradigma de auto-organização, uma vez que nas condições de formação de grandes espaços: Europa, China, EUA, Rússia, etc., os países islâmicos individuais não poderão ser totalmente proporcionais ao resto e defender efetivamente seus interesses. Serão necessários vários polos de integração islâmica: Xiitas (com o centro no Irã) e sunitas, onde é provável que se construa, junto com a Indonésia e o Paquistão no leste, um bloco sunita ocidental ao redor da Turquia e alguns países árabes do Egito ou os estados do Golfo.

E finalmente, na ordem mundial multipolar, a Rússia tem uma oportunidade histórica de se fortalecer como uma civilização independente que verá seu poder aumentar como resultado da forte queda do Ocidente e sua fragmentação geopolítica interna. No entanto, ao mesmo tempo, também será um desafio: antes de se afirmar por completo como um dos polos mais influentes e poderosos do mundo multipolar, a Rússia terá que passar pelo teste de maturidade, preservar sua unidade e reafirmar suas zonas de influência no espaço eurasiático. Contudo, não está claro onde estarão as fronteiras sul e oeste da Rússia-Eurásia depois do coronavírus. Isto dependerá, em grande medida, de que regime, métodos e esforços a Rússia utilizará para enfrentar a pandemia e quais consequências políticas terá. Ademais, é impossível prever com exatidão o estado de outros “grandes espaços”: os polos do mundo multipolar. A constituição do perímetro russo dependerá de muitos fatores, alguns possivelmente muito adversos e problemáticos.

Gradualmente, será formado um sistema de solução multipolar, seja sobre a base da ONU reformada a partir das condições da multipolaridade ou em forma de alguma nova organização. Mais uma vez, tudo dependerá de como se desenvolva a luta contra o coronavírus.

O vírus como missão

Não nos enganemos: a pandemia mundial do coronavírus é um ponto de inflexão na história mundial. Não só estão caindo os índices bursáteis e os preços do petróleo, como também está caindo a própria ordem mundial. Estamos vivendo num período de fim do liberalismo e sua “obviedade” como meta-narrativa global, o fim de suas medidas e padrões. As sociedades humanas logo se transformarão em algo livre: sem dogmas, sem imperialismo do dólar, sem feitiços do livre mercado, sem a ditadura da FED ou das bolsas de valores globais, sem subordinação à elite mundial dos meios de comunicação. Cada polo construirá seu futuro sobre seus próprios fundamentos de civilização. Obviamente, é impossível dizer como e qual ele será. No entanto, já está claro que a velha ordem mundial está se convertendo em algo do passado, e estão surgindo contornos bastantes distintos de uma nova realidade.
O que nem as ideologias, nem as guerras, nem as ferozes batalhas econômicas, nem o terror, nem os movimentos religiosos conseguiram, conseguiu um vírus invisível, porém, mortal. Trouxe consigo a morte, a dor, o horror, o pânico, a tristeza… mas também o futuro.

Aleksandr Dugin

Filósofo e cientista político, ex-docente da Universidade Estatal de Moscou, formulador das chamadas Quarta Teoria Política e Teoria do Mundo Multipolar, é um dos principais nomes da escola moderna de geopolítica russa e um dos mais importantes pensadores de nosso tempo.

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