A Origem Medieval da Quarentena

Com 4 bilhões de pessoas em quarentena por conta da pandemia do novo coronavírus muita coisa é posta em discussão, entre elas a eficiência da quarentena no combate a epidemias. Políticos e intelectuais de orientação liberal questionam as medidas restritivas por conta de seu efeito negativo sobre a economia. Quando a realidade bate à porte, e as pilhas de corpos começam a aparecer, os políticos voltam atrás.

Mas as quarentenas não são uma novidade, porém. A sua origem é medieval, tendo sido uma estratégia desenvolvida no combate à peste negra, como se explica nesse texto que trazemos ao conhecimento de nossos leitores.

No mundo contemporâneo, e agora mais do que nunca com a atual pandemia, estamos acostumados com os termos isolamento e quarentena, conceitos de diferentes escopos, aliás. Nosso governo, no entanto, optou pela noção abrangente de “isolamento social obrigatório”, que nos remete às declarações de nosso próprio presidente, que, ao se referir a esta idéia, argumentou que preferia o uso desta, à palavra quarentena, devido à carga cognitiva que ela traz consigo. Sem prejuízo disso, não muda o fato objetivo de que estamos em quarentena, e aí vem precisamente a distinção, que geralmente é abordada no plano internacional. Para citar um exemplo específico, a Divisão de Saúde Pública do Estado de Delaware, diferencia o isolamento da quarentena pelo sujeito a quem é imposta a ação restritiva, ou seja, quando o sujeito é uma pessoa infectada por alguma doença contagiosa, o confinamento da mesma ocorre para impedi-lo de infectar outros. Em outras palavras, o sujeito ativo do isolamento é uma pessoa infectada, e o sujeito passivo que se busca proteger com essa ação é a pessoa saudável. Não obstante, é esta última que nos remete à quarentena, que está ligada ao isolamento em situações pandêmicas, e é quando o sujeito passivo torna-se ativo, ou seja, objeto de cumprimento de restrições.

O objetivo da quarentena é evitar que pessoas saudáveis que tenham sido expostas a pessoas infectadas contraiam a doença e evitar que pessoas saudáveis entrem em contato com pessoas infectadas.

Médico da Praga, especialista, de modo geral, empírico no tratamento da peste bubônica, não muitos exerciam a profissão médica de forma oficial. Estes médicos a soldo eram contratados pelas cidades mais afetadas e, por sua natureza comunal, tratavam todos, ricos e pobres por igual.

As primeiras formas conhecidas de isolamento datam de tempos antigos e estão particularmente ligadas à lepra, mas a primeira quarentena registrada foi em Ragusa, hoje Duvronik, uma cidade croata, em 27 de julho de 1377 para deter o flagelo da Peste Negra (agora identificada como uma variante da bactéria Yernisia Pestis ), um modus operandi que mais tarde seria replicado na Itália e de lá se espalharia para o resto da Europa Medieval, sob o famoso nome italiano de quaranta giorni (quarenta dias), que chega até nós como uma quarentena na sua variante de língua espanhola, Tudo isso sob o quadro religioso da época, já que o número quarenta para o cristianismo tem até hoje um grande simbolismo, da Quaresma derivada do quadragesima latino, período que se abre com a Quarta-feira de Cinzas e se estende até a Páscoa, passando pelos dias em que nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo estava no deserto segundo o Novo Testamento (Mateus 4:1-11), bem como os dias em que Deus enviou o dilúvio universal à terra (Gênesis 7:12) no Antigo Testamento, tudo isso juntamente com mais de cem menções do número quarenta da Bíblia.

Para o cristianismo, o número quarenta foi sempre relacionado a um tempo de penitência caracterizado pelo jejum.

Voltando a Ragusa, e consultando o trabalho dos historiadores Zlata Blazina Tomic e Vesna Blazina, intitulado “Expulsando a Peste: o escritório de saúde para a implementação da quarentena em Dubrovnik (1377-1533)” (2015), vemos que os registros históricos da cidade revelam que em 27 de julho de 1377, 47 conselheiros se reuniram na referida cidade com o objetivo de tomar medidas executivas contra a peste, dentre essas medidas estava uma de proibição de entrada com exceção e como segue: “Aqueles que vêm de áreas infestadas pela peste não devem entrar em Dubrovnik ou em seu distrito, a menos que antes tenham passado um mês na ilhota do Mrkan ou na cidade de Catvat, para fins de desinfecção”.

Para que essas medidas fossem efetivas, a cidade de Dubrovnik contrataria então três italianos, um médico e dois cirurgiões, o que levaria ao estabelecimento de outra inovação, a criação de um posto de saúde, com o objetivo de controle da peste, cujos comissários eram chamados de Funcionários Contra os Que Chegam de Zonas Infectadas pela Peste.

O sucesso dessas políticas na contenção da peste em Dubrovnik foi reproduzido nas cidades italianas de Milão e Veneza e daí para a adoção de medidas semelhantes em toda a Europa, sendo esta a genealogia de nossas políticas de prevenção e controle epidemiológico em nível global até os dias de hoje.

Referências Bibliográficas

División de Salud Pública del Estado de Delaware. (2009). «Aislamiento y Cuarentena».En: https://dhss.delaware.gov/dhss/dph/files/isolandquarpisp.pdf

Center for Disease Control and Prevention. «History of Quarantine». En: https://www.cdc.gov/quarantine/historyquarantine.html

MEDIEVALISTS. (2020). «The Medieval Origins of Quarantine». En: https://www.medievalists.net/2020/03/medieval-origins-quarantine/

BLAZINA TOMIC, Zlata, BLAZINA, Vesna. (2015). «Expulsando la Plaga: la oficina de salud para la implementación de la cuarentena en Dubrovnik (1377-1533)». McGill-Queen’s University Press.

ABC. «¿Qué significa el número 40 en la Biblia?». En: https://www.abc.es/sociedad/abci-significa-numero-40-biblia-201602122230_noticia.html

Fonte: Diario La Verdad

Israel Lira

Bacharel em Direito e Ciência Política pela Universidade de Lima. Diretor Adjunto do Centro de Estudos Crisolistas (CEC) e chefe do Departamento de Estudos em Filosofia do CEC, membro do Conselho Diretivo da Sociedade Peruana de Filosofia (SPF) para o período de 2019-2020, Coordenador Geral do Coletivo de Jovens pela Segunda República, investigador independente, colunista e ensaísta. Assessor Técnico-Legal em Contratações com o Estado, Mediação e Junta de Resolução de Disputas.

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