Sobrevivendo à sociedade do orgasmo

A validação externa é o seu caminho para a ruína.

O homem é tão dependente do sexo quanto a mulher é por atenção e fortes emoções, e a indústria entende essa demanda e nos entrega exatamente aquilo que nossos instintos mais primitivos desejam. A pornografia é para o homem o que as redes sociais, num geral, são para as mulheres. Em comum: ambos intentam a busca feroz por felicidade imediata (recompensa); por uma vida de orgasmos ininterruptos; o medo da rotina — aqui, o conceito de Felicidade é a da fuga da dor rumo ao prazer, como um animal selvagem em modo de sobrevivência.

Somos alimentados visualmente com corpos esculturais e com sexualização cotidiana nos ambientes mais banais — da academia à praia, da indústria da música ao cinema casual. E o mecanismo social que fabrica essa demanda é tão perverso que, a mera sugestão de abstinência deste tornado de prazer pueril, o tornará alvo de estranheza e vergonha.

Um estudo da Universidade de Michigan (EUA) revelou a relação entre o uso de redes sociais e o comportamento de pessoas viciadas. A pesquisa foi divulgada no Periódico de Vícios Comportamentais e ilustra bem a similaridade do efeito de um tipo de dependência para o outro em nosso cérebro, modificando os nossos hábitos agressivamente na busca de reações que despertem uma sensação de recompensa rápida em nosso organismo. De acordo com os pesquisadores, a lógica de oferta de “recompensas” dada por esses sites e aplicativos dificulta a tomada de decisões na vida real e estimula atitudes de retorno contínuo — assim como ocorre no caso de outras desordens mentais ou de consumo de substâncias químicas nocivas.

Diz a jornalista Marta Peirano, no livro El enemigo conece el sistema:

Há um usuário novo, uma notícia nova, um novo recurso. Alguém fez algo, publicou algo, enviou uma foto de algo, rotulou algo. Você tem cinco mensagens, vinte curtidas, doze comentários, oito retweets […] As pessoas que você segue seguem esta conta, estão falando sobre este tópico, lendo este livro, assistindo a este vídeo, usando este boné, comendo esta tigela de iogurte com mirtilos, bebendo este drinque, cantando esta música… Demandas.

Enquanto o homem é assediado constantemente através do apelo visual do sexo, que possui o intuito de retirar de si a razão e o autocontrole (não é segredo que o gênero que mais consome pornografia é o masculino), as mulheres são igualmente incentivadas ao exibicionismo (uma pesquisa realizada pelo site Information is Beauty demonstrou que tanto o Instagram quanto o Facebook — duas redes extremamente visuais — são de maioria feminina). Ambos os sexos atingidos em seus pontos mais frágeis: na libido e no ego. Numa lógica que se retroalimenta, uma relação de espectador e palco.

Se trata de um sequestro rotineiro de nossos cérebros, energia, horas de sono e até da possibilidade de se relacionar, tudo dentro do conceito da “economia da atenção”, uma ideia que vem se tornando cada vez mais óbvia a medida em que o vício geracional pelas redes sociais e pela busca por aceitação virtual aumenta.

Mesmo dentro da pornografia, é cada vez maior o número de homens que pagam para ter uma sensação de intimidade com camgirls, mulheres cujo ofício é despir-se e sensualizarem em transmissões ao vivo diante das câmeras, interagindo com clientes via chat. É mais uma vez o domínio da indústria dos desejos simulando o prazer real, porém custoso, com um enlatado impessoal pré-fabricado e entregue à domicílio.

Fortalecer a vontade é o maior desafio de nosso tempo, pois nos encontramos esvaziados espiritualmente e entregues ao vício das emoções espontâneas que, em troca do orgasmo imediato, nos condena à escravidão por nossos impulsos.

A alta do narcisismo e do delírio de grandeza ainda não chegou em seu pico, e a distorção que as redes sociais têm causado na nossa autopercepção diz que estamos longe de uma conscientização coletiva sobre o mal desse veneno impessoal que bebemos até a última gota.

Mas o que intentamos aqui não é mudar o todo: devemos iniciar a resolução deste conflito dentro de nós mesmos, e isso inevitavelmente irradiará no entorno e naqueles que nos cercam. Gosto de concluir com um pensamento estoico que, diante dos males, busca refúgio interno para a superação destes senhores externos que provocam nossa queda.

Nas palavras do filósofo Marco Aurélio:

Mas tudo isto revela uma grande simplicidade de espírito, porque podemos, sempre que assim o quisermos, encontrar retiro em nós mesmos. Em parte alguma se encontra lugar mais tranquilo, mais isento de arruídos, que na alma.

Ricardo C. Thomé

Professor, escritor e autor do blog O Conselho, onde escreve sobre masculinidade, comportamento e tradicionalismo.

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