Entrevista: Christian Bouchet e a Doutrina Nacional-Revolucionária

Nascido em 17 de janeiro de 1955, em Angers, França, o editor, ensaísta e militante político Christian Bouchet é considerado a principal figura da corrente nacionalista-revolucionária na França. Bouchet se formou em estudos avançados em direito empresarial, certificado em ciências econômicas, mestre em história e doutor em etnologia. Ele foi a inspiração para os movimentos franceses Nouvelle Résistance, Unité Radicale e quadro do Front National de Marine Le Pen. Pour la cause du peuple, o manifesto da Nouvelle Résistance, é uma das fontes da Nova Resistência, que orgulhosamente apresenta esta entrevista exclusiva que nos foi concedida durante este período de quarentena internacional.

Muito bem, vamos começar. Olá, professor Bouchet. Em 1991, você fundou a organização Nouvelle Résistance (NR), um movimento que visava transcender a dicotomia entre esquerda e direita na Europa. Você acha que essa estratégia política ainda seja válida hoje?

Sim, claro. A ideia não é nova, presumo que você conheça a famosa frase de Ortega y Gasset: “Ser de esquerda é, como ser de direita, uma infinidade de maneiras que o homem pode escolher de ser um imbecil”. É a própria ideia do nacionalismo-revolucionário que tem uma visão de ideias políticas não lineares da direita para a esquerda, mas circulares – nesse caso, direita e esquerda se confrontam e são separadas por dois “centros”, um suave e um duro (nós) – ou por ímã com a forma de uma ferradura de cavalo – os radicais evoluindo entre os dois polos do ímã. Na França, tal posição sempre é defendida por intelectuais como Alain Soral ou Alain de Benoist, bem como por um movimento como o Égalité et Réconciliation, ou até mesmo, em menor medida, por certas correntes do Rassemblement National de Marine Le Pen. Na Itália, Diego Fusaro me parece estar em fileiras semelhantes.

Você também trabalhou com movimentos ecológicos. Hoje, pessoas como Greta Thunberg hegemonizam o debate global sobre o assunto. No entanto, todos parecem ter uma agenda oculta de tendência liberal. Qual deveria ser a perspectiva ecológica de um movimento revolucionário nacional?

Pensamos, em determinado momento do nosso desenvolvimento, que a ecologia seria um eixo de ação que poderia nos ser favorável. Isso nos levou a trabalhar com certos movimentos ecológicos e a assumir o controle da seção francesa da Earth First. É preciso ficar claro que era uma estratégia de conquista de poder e que não a utilizamos. Ao mesmo tempo, trabalhamos com movimentos de povos oprimidos e estivemos particularmente atentos à evolução de certos grupos sociais. Tudo isso para dizer que não éramos especificamente ambientalistas.

Voltando à sua pergunta, sim, a ecologia agora é parte interessada da ideologia neoliberal e é importante preconizar outra ecologia em torno de noções como localismo, desaceleração, economia circular etc.

Você evocou em Pour la cause du peuple, o manifesto da Nouvelle Résistance, a luta ao lado de “povos oprimidos”. No Brasil, estamos trabalhando com a ideia da Pátria Grande a fim de tentar alcançar uma integração dos povos latino-americanos. Como a luta pelos povos oprimidos correspondeu à ideia de uma Europa livre e por que a esquerda europeia não simpatizava com a Nouvelle Résistance?

Naquela altura, estávamos muito empenhados no apoio aos palestinos e aos diversos povos oprimidos ou ameaçados pelo imperialismo americano. Foi um apoio justificado e ético.

Ao mesmo tempo, na Europa, nos engajamos em movimentos regionalistas porque pensamos que a construção de um Império europeu deveria andar pari passu com a valorização das culturas dos diferentes povos europeus. Embora isso pareça estranho, fomos inspirados pela constituição da União Soviética e pensávamos que convinha dar aos povos minoritários da Europa total autonomia cultural, mas negar-lhes autonomia política.

O filósofo italiano Diego Fusaro afirmou que a histeria antifascista, que também acomete o Brasil, apenas reforça o “bastão invisível da economia de mercado”. Você concorda com este ponto de vista?

Totalmente. Na Europa, quando falamos de antifas, os classificamos de “guardas vermelhos do neoliberalismo” ou “milícias armadas do grande patronato”.

Na Europa, o que se destaca é sua ação contra todos aqueles que estão a sair do politicamente correto, seja quem for, e também seu apoio à imigração-invasão da Europa.


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Nos dois casos, eles defendem a ordem estabelecida, quer seja ideológica, quer seja econômica, e, em ambos, servem aos interesses da grande burguesia.

Em Pour la cause du peuple, o manifesto que você escreveu em 1991, há uma dedicação a Nicola Bombacci. Qual a importância histórica dessa figura para a construção da Nouvelle Résistance?

Pour la cause du peuple foi dedicado a dez mártires da nossa causa, tombados pela causa do povo sob os golpes dos vermelhos ou da reação. Isso não os tornou teóricos de nossa construção ideológica e política que foi definida em outras partes do manifesto: Francis Parker Yockey, Jean Thiriart e François Duprat, isto é, dois promotores de uma visão nacional da Grande Europa de Galway a Vladivostok e um sintetizador da ideia nacionalista-revolucionária.

No manifesto, há uma reiterada referência às chamadas “áreas liberadas”. Qual era a ideia central dessas zonas e como ela poderia ser aplicada em países como o Brasil?

Nós podemos usar as bases autônomas sustentáveis como sinônimo de “áreas liberadas”. Nós fomos um pouco inspirados por Murray Bookchin a pensar que, se falhássemos em liderar uma revolução de cima, poderíamos tentar uma de baixo, ou seja, liberando certas áreas da influência ideológica do sistema, conectando-as conosco e desenvolvendo uma estrutura rizoma. Claramente, era necessário gerar iniciativas (editoras, livrarias, bares, empresas de artesanato, empresas agrícolas etc.) e em seguida federalizá-las para constituir uma contrassociedade ou uma sociedade alternativa.

Nesse sentido, há duas armadilhas: antes de mais nada, logo que que uma iniciativa aparece, ela é exposta a ataques de antifas, frequentemente apoiados pelo sistema, sempre pela mídia e que sabotaram muitas iniciativas promissoras nos últimos anos.

Então, se a ação obtiver sucesso, sua sobrevivência geralmente se torna mais importante que a das demais, donde há, com frequência, um abrandamento das suas posições ideológicas e da sua oposição ao sistema, inclusive uma integração ao mundo comercial.

É possível fazer algo nessa linha no Brasil? Você sabe melhor do que eu.

Christian Bouchet

Jornalista, cientista político, doutor em Etnologia pela Universidade de Paris VII, atuou em diversas organizações nacionalistas e populares, sendo um teórico do nacionalismo-revolucionário europeu, bem como um entusiasta dos processo de libertação nacional no Terceiro Mundo.

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