10 clássicos para conhecer a música caipira

Por Luiz Campos

É um erro dizer que a música caipira nasceu com as gravações feitas em 1929, no interior do estado de São Paulo. Esse foi apenas o início de sua vida gravada em discos. De fato, ali se iniciou sua fase mais difundida, influente e (obviamente) registrada. Mas o estilo existiu por séculos antes disso, por toda a enorme área da cultura caipira, em seus mais isolados rincões. Onde existia uma pequenina comunidade rural, provavelmente existiria um violeiro cantador.

Podemos dizer que a música caipira foi o primeiro estilo a nascer no Brasil. Quando os portugueses aqui desceram de suas caravelas, com suas gaitas e violas, conta Pero Vaz de Caminha em sua carta, logo se puseram a fazer música que foi acompanhada pelos índios com danças. Esse era o gérmen da mistura de dois povos que pariria a música caipira e outras manifestações culturais do jeca, como a dança da catira ou cateretê. E através de séculos de mestiçagem, essa música foi sobrevivendo e se modificando, absorvendo novos elementos culturais. Seja com a chegada dos africanos escravizados ou com o contato com outros povos latino-americanos. Esteve e está presente até hoje em formas mais religiosas e simples, como nas cantorias das folias de Reis. Não é preciso sequer um ouvido tão apurado para perceber a continuidade entre as músicas de Reis e gravações mais tradicionais da música caipira. Inclusive muitas duplas “comerciais” se dedicaram ao tema.

Música que carrega tradição, religiosidade, simplicidade e saudade em seu canto triste, na voz dos três povos que a deram vida. A origem dessa tristeza está em algo muito belo dos três principais povos que nos pariram. No saudosismo do português, exilado de sua pátria mãe, num mundo distante e desconhecido. No pranto do indígena, que viu ruir sua antiga vida e seu antigo mundo. No banzo do africano, que foi arrancado de sua terra e lançado num mundo de açoites. Em comum aos três, um choro de saudade por aquilo que já não é mais, a saudade por um mundo que morreu e não retornará jamais. Cicatrizes de raízes que foram arrancadas. Em povos tradicionais, mas sem tradição. É fraqueza chorar pela morte das raízes? Definitivamente não.

Nesse cadinho que fundiu o povo brasileiro, a miscigenação das tristezas fez nascer um povo nostálgico por natureza, sofrido em sua alma mais profunda. Nosso choro é metafísico. Mas não é choro passivo, é pranto que quer de volta o paraíso perdido. É a dor do caipira que perdeu sua terra e seu modo de vida, lembrança de uma comunidade que já foi mais humana.

Caímos dos céus e para lá almejamos retornar. É choro que demanda luta, peleja que foi apenas esquecida nos tempos sombrios que vivemos. Acomodação, mas não morte. Aceitamos ser despossuídos, mas podemos e devemos deixar de aceitar. Nascemos de três povos tradicionais e guerreiros. Nossa cultura é o choro de quem perdeu muitas lutas e que um dia voltará a lutar novamente.

O que alguns enxergam como fraqueza, talvez seja o único caminho de abertura para reais mudanças que possam um dia acontecer entre nosso povo. Esse anseio por algo que já não é mais pode ser o combustível para lutar por algo que poder ser novamente.

As gravações mais antigas da música caipira registraram um momento no tempo, a visão de mundo do homem do campo naquele período. Vistas assim, além de arte e tradição, são também documentos históricos. Cantam um mundo que praticamente já não existe mais hoje em dia e já agonizava naquela época, entre as décadas de 1930 e 1950. Podemos perceber o choro ao assistir um campo sendo destruído pelo avanço do capitalismo, através de uma indústria agropecuária inescrupulosa. O lamento pela morte de um modo de vida.

Apresento aqui uma lista, com recomendações de dez clássicos da música caipira que demonstram a essência simples do homem do campo. Apesar de serem retratos de uma época que já passou, nós, seus filhos e netos, estejamos nas cidades ou no campo transformado pelo agronegócio, ainda carregamos, de forma quase atávica, a essência tradicional de uma vida mais autêntica. Que tais canções possam despertar em nós os anseios por uma reconexão com nossas raízes!

1 – Mágoa de Boiadeiro – Pedro Bento & Zé da Estrada

Antigamente nem em sonho existia
Tantas pontes sobre os rios
Nem asfalto nas estradas
A gente usava quatro ou cinco sinuelos
Pra trazer o pantaneiro no rodeio da boiada
Mas hoje em dia tudo é muito diferente
Com o progresso nossa gente nem sequer faz uma ideia
Que entre outros fui peão de boiadeiro
Por este chão brasileiro os heróis da epopeia

Tenho saudade de rever nas currutelas
As mocinhas nas janelas acenando uma flor
Por tudo isso eu lamento e confesso
Que a marcha do progresso é a minha grande dor
Cada jamanta que eu vejo carregada transportando
Uma boiada me aperta o coração
E quando olho minha traia pendurada de tristeza

Dou risada pra não chorar de paixão

2 – Saudade da minha terra – Belmonte & Amarai

De que me adianta viver na cidade
Se a felicidade não me acompanhar
Adeus, paulistinha do meu coração
Lá pro meu sertão eu quero voltar

3 – Tristeza do jeca – Tonico & Tinoco

Nesses versos tão singelos
Minha bela meu amor
Pra você quero cantar
O meu sofrer a minha dor

Eu sou como o sabiá
Que quando canta é só tristeza
Desde o galho onde ele está
Nessa viola
Eu canto e gemo de verdade
Cada toada representa uma saudade

4 – Jeitão de caipira – Liu & Leu

Vou voltar pra minha terra na vidinha de caboclo
Vou trabalhar no roçado nem que for pra arranca toco
O barulho da cidade está me deixando louco
A coisa aqui já está de arranca pica-pau do oco
Vou viver lá onde é bom, na vendinha do seu João
A gente dá quinhentão, ele ainda volta troco

Aqui não tem diversão, muitas coisas me atormenta
A gente não vê o céu nesta cidade cinzenta
Fumaça das chaminés, já não tem tatu que aguenta
Não vejo a lua nascer e nem o sol quando entra
Meu sacrifício é tamanho, muito pouco aqui eu ganho
Meus vizinhos são estranhos, passa e não me cumprimenta

Pau podre não dá cavaco, mas pra cortar é macio
Eu vivo aqui na cidade batendo em ferro frio
Só tenho a cabeça quente e o bolso sempre vazio
Por isso é que eu vou embora, meu coração decidiu
Vou me embrenhar nas quiçaça, vou viver de pesca e caça
Morar num rancho de graça naquelas beiras de rio

No ranchinho de sapé, amarrado com embira
Pode falar quem quiser mas de lá ninguém me tira
Deixo a minha rede armada, também sou firme na mira
Vejo a lua e as estrela depois que o sol se retira
E lá naquele lugar, sinto Deus me visitar
Dinheiro não vai comprar, o meu jeitão de caipira

5 – Encantos da natureza – Tião Carreiro & Pardinho

Tu que não tiveste a felicidade
Deixa a cidade e vem conhecer
Meu sertão querido, meu reino encantado
Meu berço adorado que me viu nascer
Venha mais depressa, não fique pensando
Estou te esperando para te mostrar

Vou mostrar os lindos rios de águas claras
E as belezas raras do nosso luar

Quando a lua nasce por detrás da mata
Fica cor de prata a imensidão
Então fico horas e horas olhando
A lua banhando lá no ribeirão

Muitos não se importam com este luar
Nem lembram de olhar o luar na serra
Mas estes não vivem, são seres humanos
Que estão vegetando em cima da terra

Quando a lua esconde logo rompe a aurora
Vou dizer agora do amanhecer

Raios vermelhados riscam o horizonte
O sol lá no monte começa a nascer
Lá na mata canta toda a passarada
E lá na paiada pia o chororó
O reio do terreiro abre a garganta
Bate a asa e canta em cima do paiol

Quando o sol esquenta, cantam cigarras
Em grande algazarra na beira da estrada
Lindas borboletas de variadas cores
Vem beijar as flores já desabrochadas
Este pedacinho de chão encantado
Foi abençoado por nosso senhor
Que nunca nos deixe faltar no sertão
Saúde união à paz e o amor

6 – Caboclo na cidade – Dino Franco & Mouraí

Seu moço eu já fui roceiro no triângulo mineiro onde eu tinha meu ranchinho.
Eu tinha uma vida boa com a Isabel minha patroa e quatro barrigudinhos.
Eu tinha dois bois carreiros muito porco no chiqueiro e um cavalo bom, arriado.
Espingarda cartucheira quatorze vacas leiteiras e um arrozal no banhado.

Na cidade eu só ia a cada quinze ou vinte dias pra vender queijo na feira.
E no mais estava folgado todo dia era feriado pescava a semana inteira.
Muita gente assim me diz que não tem mesmo raiz essa tal felicidade.
Então aconteceu isso resolvi vender o sítio e vir morar na cidade.

Já faz mais de doze anos que eu aqui já to morando como eu to arrependido.
Aqui tudo é diferente não me dou com essa gente vivo muito aborrecido.
Não ganho nem pra comer já não sei o que fazer to ficando quase louco.
É só luxo e vaidade penso até que a cidade não é lugar de caboclo.

Minha filha Sebastiana que sempre foi tão bacana me dá pena da coitada.
Namorou um cabeludo que dizia ter de tudo mais fui ver não tinha nada.
Se mandou pra outras bandas ninguém sabe onde ele anda e a filha tá abandonada.
Como dói meu coração ver a sua situação nem solteira e nem casada.

Até mesmo a minha veia já tá mudando de ideia tem que ver como passeia.
Vai tomar banho de praia tá usando mini-saia e arrancando a sobrancelha.
Nem comigo se incomoda quer saber de andar na moda com as unhas todas vermelhas.
Depois que ficou madura começou a usar pintura credo em cruz que coisa feia.

Voltar “pra” Minas Gerais sei que agora não dá mais acabou o meu dinheiro.
Que saudade da palhoça eu sonho com a minha roça no triângulo mineiro.
Nem sei como se deu isso quando eu vendi o sítio para vir morar na cidade.
Seu moço naquele dia eu vendi minha família e a minha felicidade!

7 – Herói sem medalha – Tião Carreiro & Pardinho

Sou filho do interior
Do grande Estado mineiro
Fui um herói sem medalha
Na profissão de carreiro
Puxando tora do mato
Com doze bois pantaneiros
Eu ajudei desbravar
Nosso sertão brasileiro
Sem vaidade eu confesso
Do nosso imenso progresso
Eu fui um dos pioneiros
Vejam como o destino
Muda a vida de um homem
Uma doença malvada
Minha boiada consome
Só ficou um boi mestiço
Que chamava Lobisome
Por ser preto igual carvão
Foi que eu pus esse nome
Em pouco tempo depois
Eu vendi aquele boi
Pros filhos não passar fome
Aborrecido com sorte
Dalí resolvi mudar
E numa cidade grande
Com a família fui morar
Por eu ser analfabeto
Tive que me sujeitar
Trabalhar no matadouro
Para o pão poder ganhar
Como eu era um homem forte
Nuqueava o gado de corte
Pros companheiros sangrar
Veja bem a nossa vida
Como muda de repente
Eu que às vezes chorava
Quando um boi ficava doente
Ali eu era obrigado
Matar o rês inocente
Mas certo dia o destino
Me transformou novamente
Um boi de cor de carvão
Pra morrer nas minhas mãos
Estava na minha frente
Quando eu vi meu boi carreiro
Não contive a emoção
Meus olhos encheram d’água
E o pranto caiu no chão
O boi meu reconheceu
E lambeu a minha mão
Sem poder salvar a vida
Do boi de estimação
Pedi a conta e fui embora
Desisti na mesma hora
Dessa ingrata profissão

8 – A caneta e a enxada – Lourenço e Lourival

“Certa vez uma caneta foi passear lá no sertão
Encontrou-se com uma enxada, fazendo uma plantação.
A enxada muito humilde, foi lhe fazer saudação,
Mas a caneta soberba não quis pegar na sua mão.
E ainda por desaforo lhe passou uma repreensão.”

Disse a caneta pra enxada não vem perto de mim, não
Você está suja de terra, de terra suja do chão
Sabe com quem está falando, veja sua posição
E não se esqueça a distância da nossa separação.

Eu sou a caneta dourada que escreve nos tabelião
Eu escrevo pros governos a lei da constituição
Escrevi em papel de linho, pros ricaços e pros barão
Só ando na mão dos mestres, dos homens de posição.

A enxada respondeu: de fato eu vivo no chão,
Pra poder dar o que comer e vestir o seu patrão
Eu vim no mundo primeiro, quase no tempo de Adão
Se não fosse o meu sustento ninguém tinha instrução.

Vai-te caneta orgulhosa, vergonha da geração
A tua alta nobreza não passa de pretensão
Você diz que escreve tudo, tem uma coisa que não
É a palavra bonita que se chama educação!

9 – Leite no asfalto – Leoncio & Leonel

Hoje eu tive analisando
Como vive a nossa gente
Alguns vive na fartura
Outros como indigente
Sem contar o sofrimento
Daqueles que estão doente
De fome as criança chora
Fazendeiro joga fora
O leite dos inocentes

No Mato Grosso do Sul
Terra da fauna e flora
Por causa do preço baixo
O leite é jogado fora
Em vez de alimentá
Os filhos que a gente adora
Veja a atitude dos home
Com gente passando fome
O rico não colabora

O desemprego é em massa
E a situação piora
Uns nadando na riqueza
E isso não é de agora
Não vai comer o dinheiro
Quem nessa terra explora
Tirá o leite das criança
Com orgulho e ignorância
Um dia a bomba estoura

Ninguém vive de promessa
É um verdadeiro ditado
Sem terra e sem moradia
Esse povo é sufocado
Os home não abre mão
De seu terreno grilado
Agarrado no dinheiro
Com o seu rebanho leiteiro
Esquece os desamparado

10 – Meu reino encantado – João Mulato & Douradinho

Eu nasci num recanto feliz
Bem distante da povoação
Foi ali que eu vivi muitos anos
Com papai e mamãe e os irmãos
Nossa casa era uma casa grande
Na encosta de um espigão
Um cercado pra guardar bezerro
E ao lado um grande mangueirão

No quintal tinha um forno de lenha
E um pomar onde as aves cantavam
Um coberto pra guardar o pilão
E as tralhas que o papai usava
De manhã eu ia no paiol
Uma espiga de milho pegava
Mergulhava e jogava no chão
Num instante as galinhas juntava

Nosso carro de boi conservado
Quatro juntas de bois de primeira
Quatro cangas, dezesseis cansis
Encostados no pé da figueira
Todo sábado eu ia na vila
Fazer compra pra semana inteira
O papai ia gritando com os bois
Eu na frente abrindo as porteiras

Nosso sítio que era pequeno
Pelas grandes fazendas cercado
Precisamos vender a propriedade
Para um grande criador de gado
E partimos pra cidade grande
A saudade partiu ao meu lado
A lavoura virou colonião
E acabou-se o meu reino encantado

Hoje ali só existem três coisas
Que o tempo ainda não deu fim
A tapera velha desabada
E a figueira acenando pra mim
E por último marcou saudade
De um tempo bom que já se foi
Esquecido em baixo da figueira
Nosso velho carro de boi

Arte da capa: “Pela Estrada da Vida” de Alfredo Vieira.

Luiz Campos

Membro da NR-MG, leciona História e Filosofia.

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