Slavoj Žižek – Empoderamento Feminino e Fluidez de Gênero são apenas as últimas ferramentas do capitalismo corporativo

Em uma recente mensagem anti-objetificação, a marca de giletes femininas Billie lançou uma propaganda vinculada ao “Movember” (o evento anual de “mês do bigode), afirmando que “mulheres tem bigodes também” e não deviam ter vergonha de cresce-los. Pode parecer fruto de preocupação com “igualdade de gênero” por si mesma – mas o filósofo esloveno Slavoj Zizek acredita que, na verdade é um impulso promovido pelas grandes corporações que não querem que as pessoas desafiem o status quo hegemônico de maneiras mais substanciais.

Passo para a desssexualização?

Acho que isso faz parte de um fenômeno maior, que segue esta lógica: se as mulheres tentam ser belas ou obedecer aos padrões de beleza em um sentido tradicional, elas se objetificam para os homens. Assim, as mulheres devem se reapropriar de seus corpos no sentido de admiti-los em sua fealdade cotidiana – cabelo, gordura, qualquer coisa – para desmistificar seus corpos, para mostrar que o corpo de uma mulher, especialmente os órgãos sexuais, não é o que eles são para o olhar dos homens, mas tem sua própria função positiva que deve ser apropriada pelas mulheres porque as mulheres não podem ser reduzidas a serem objetos para os homens.

Por um lado, eu até concordo com o sentimento de opressão das mulheres, mas vejo um problema com esta lógica. Vamos encarar os fatos: a sexualidade enquanto tal envolve um certo grau de auto-objetificação. Por exemplo, quando me envolvo em atividade sexual, quando abraço uma pessoa nua que amo, eu abstraio (e essa é a lógica imanente da sexualidade) em relação a todas as coisas desagradáveis que fazem parte do corpo humano – maus cheiros, restos de sujeira, etc. Eu idealizo pelo menos minimamente, de certa forma, o corpo do outro. Sem isso, nos aproximamos da dessexualização.

Apesar de toda a conversa sobre a livre sexualidade liberada das restrições binárias heterossexuais, o que estamos tratando aqui basicamente é de um ataque à sexualidade enquanto tal.

Pressionar por liberdade sexual imaginária só levará a uma opressão pior

Todos sabemos que a sexualidade humana não é apenas algo biologicamente predeterminado – como demonstram as experiências traumáticas das pessoas transexuais. Em sua identidade psicológica, você pode ser uma mulher presa em um corpo masculino, e você está pronto para sofrer muito para mudar seu corpo de modo que ele se encaixe em sua identidade psicológica interior. Tudo isso acontece. Não há determinação biológica absoluta aqui.

No entanto, dar um grande salto daqui para a afirmação de que a diferença sexual é apenas uma entre as construções opressivas dos detentores do poder e que devemos nos engajar ludicamente em múltiplas identidades sexuais, que isso tudo é apenas um jogo, e que tudo está aberto e que se nos livrarmos da opressão binária heterossexual, desfrutaremos de plena liberdade sexual, é um grande erro. Elimina a lição básica da psicanálise freudiana, que é que a sexualidade em si mesma é algo muito obscuro.

Não é um domínio alegre. É um domínio de traumas profundos, reversões masoquistas e assim por diante. Por isso não basta dizer que se nos livrarmos dessa grande dualidade de gênero masculino-feminino e, parafraseando Mao Tse Tung, que dizia que milhares de flores deveriam florescer em nós, dizer que milhares de identidades deveriam florescer e que todos serão felizes e viverão uma vida sexual satisfeita. Não, a sexualidade humana, mais uma vez, é inerentemente traumática. É uma grande confusão, não há aqui uma fórmula simples.

Como demonstra a experiência com o politicamente correto, se você tentar libertar a sexualidade neste sentido simplista e se livrar desta normatividade heterossexual e deixar que todas as diferentes formas proliferem, você acabará em uma opressão ainda pior.

Todos devem ser livres para objetificar a si mesmos

O que muitas pessoas não aceitam é que o problema não é a objetificação enquanto tal – não é todo o jogo da sedução sexual, do flerte de homens e mulheres – é que, em certo sentido, você se objetifica precisamente tal como quer se apresentar enquanto sedutor. O problema não é que não deva haver objetificação – o problema é que cada agente sexual deve ter o direito de controlar sua objetificação.

Não esqueçamos que, com todos os protestos feministas contra a objectificação das mulheres, o que incomoda os fundamentalistas, por exemplo, nos países muçulmanos, é precisamente quando uma mulher brinca com a sua própria objectificação… Por exemplo, imitando a felação, brincando com uma banana na boca. O que incomoda os homens é que uma mulher, nesta situação, não seja objectificada por homens, mas que objetifique a si mesma, ludicamente representando a sua objetificação para seu próprio prazer.

Instrumento do capitalismo

Como é habitual em tais eventos, não devemos subestimar o grau em que este é um fenômeno relativamente marginal. Tenham a certeza de que a maioria das mulheres não vai querer deixar crescer o bigode e, se quiserem, deixem-nas fazer o que quiserem. Detecto frequentemente nestas novas identidades transgênero algo que não me agrada. É que tal como outrora os padrões heterossexuais foram impostos oprimindo outras identidades, agora, se você ler todos esses textos, em alguns deles você encontra a ideia de que se você ainda está dentro da sexualidade heterossexual tradicional, você é de alguma forma retardado. Para ser verdadeiramente livre, você tem que brincar com sua identidade e desfocar todas as linhas.

Não concordo com isso. Essa ideia de rearranjar livremente, mudar seu corpo e brincar com identidades é algo que se encaixa perfeitamente no capitalismo consumista de hoje com sua dinâmica infinita. Há uma chance de que as grandes empresas já estejam jogando esses jogos. Provavelmente alguns de nossos leitores se lembram de um anúncio da Gillette de cerca de meio ano atrás, onde um pai ajuda sua ex-filha, que agora é um menino, a se barbear pela primeira vez com a Gillette. Não há absolutamente nada de subversivo nessa atitude de “brincar com diferentes identidades, experimentar consigo mesmo”. É simplesmente uma forma perfeita de sexualidade para o capitalismo consumista tardio.

Uma lição que devemos tirar de tudo isso, não apenas dos comerciais, que são então vendidos para nós com um toque progressista, mas também do fato de que – lembre-se que há dois ou três anos atrás o movimento transgênero explodiu nos EUA com essa grande campanha por banheiros que deveriam ser abertos a todas as identidades sexuais, não apenas masculina/feminina – como todos os EUA corporativos – todos os grandes nomes como Tim Cook ou Zuckerberg – todos seguiram apaixonadamente esse caminho e o apoiaram. Infelizmente, este tipo de luta por identidades sexuais livres é algo que pode ser facilmente usado como parte da maquinaria capitalista para oprimir demandas populares mais perigosas, mesmo e especialmente os protestos feministas autênticos.

As elites procuram desviar a emancipação feminina, afastando-a da mudança do status quo político

Por um lado, (e eu, de todo o coração, celebro e apoio isso) há algum tipo de despertar das mulheres. Há formas de subordinação feminina, que fazem parte da nossa tradição desde antes mesmo das sociedades de classes, das sociedades tribais – como a mulher é passiva, subordinada aos homens. Como sempre é o caso, o establishment tenta redirecionar esse despertar em uma direção que não vai realmente mudar as relações de poder. Conseguiremos uma cota para as mulheres, as mulheres serão apresentadas na mídia com mais respeito. Mas as mesmas relações de poder persistirão em nossa sociedade. Isso é o que todos essas combatentes contra o patriarcado não conseguem entender.

No Ocidente desenvolvido, a ideologia dominante não é mais um patriarcado. É uma espécie de falsa abertura que também funciona como uma forma de evitar a mobilização radical e soluções radicais. Quando estamos focados em saber se uma mulher pode usar barba ou se um homem pode colocar batom, ninguém quer falar sobre a contínua opressão aterradora das mulheres, da explosiva cultura do estupro no México e na África do Sul. Vamos nos concentrar nas lutas em que a verdadeira liberdade das pessoas será decidida.

Fonte: https://www.rt.com/op-ed/472680-women-empowerment-gender-mustaches/

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