Diego Fusaro – A Destruição Capitalista da Família

Por Diego Fusaro, filósofo italiano

Fonte: https://www.fort-russ.com/2019/08/fusaro-the-capitalist-destruction-of-the-family/

 “O capital se comporta diante de cada limite como [se fosse] uma barreira”: assim se lê, de maneira lapidária, no Grundrisse de Karl Marx [1]. Por essa razão, a lógica dialética do desenvolvimento do capital, nos últimos cinquenta anos, tem sido a de progressiva e cada vez mais rápida derrubada de cada limite real e simbólico capaz de resistir à extensão unilateral da “forma mercantil” em cada área da realidade e do pensamento.

Como se tentou esclarecer em nosso estudo Mínima mercantalia. Filosofía y capitalismo [2012] (Mercadoria mínima. Filosofia e capitalismo), o capitalismo hoje é absoluto não apenas porque está em ressonância com seu próprio conceito (poderia finalmente assistir-se refletindo em cada determinação do que é real), mas também porque é “desapegado” (ab-solutus) de todo limite residual; e isso em dois sentidos diversos e reciprocamente unidos e entrelaçados: em primeiro lugar, nos assuntos de hoje, o capital se libertou de todos os valores (morais, religiosos, etc.) que poderiam impedi-lo ou pelo menos esgotar seu desenvolvimento. Nesse sentido, deve-se explicar o desmantelamento da cultura burguesa (impregnada de valores adjacentes à reprodução do mercado) que o capital realiza desde 1968. A destruição da cultura burguesa até seus limites, a aniquilação dos sistemas socialistas em 1989 e a atual superação, por meio da União Européia, dos Estados Nacionais como lugares de primazia do político sobre o econômico, constituem os momentos decisivos dessa lógica de desenvolvimento que encontra no niilismo da não limitação seu próprio ubi consistam (N.T. lugar para ficar).

Em segundo lugar, o capital já é absolus (N.T. absoluto), o que significa que é “realizado” no sentido de que conduziu suas próprias premissas e suas próprias promessas. Foi autonomizado de forma integral, apesar de todos os sujeitos sociais. Não precisa mais voltar atrás para sua mediação do trabalho: com a fórmula hegeliana, tornou-se, para todos os efeitos, o novo “Senhor do Mundo” (Herr der Welt), independente e um meio para si mesmo [2]. Tudo se torna mercadoria e o econômico se eleva como único bom senso, na forma de monoteísmo do mercado, em um nível real, e daí se parte para a chamada globalização; em nível simbólico, dirige-se para a colonização do imaginário, em nome da “forma mercantil” (débitos e créditos nas escolas, investimentos afetivos, Azienda Italia [3], capital humano, etc.).

Assim como Costanzo Preve mostrou em sua Storia dell’etica [História da ética]. De sua perspectiva fundamental, o capital promove o individualismo aquisitivo: aspira a destruir todas as comunidades afastadas do nexo hiperindividualista de frieza do do ut des [“eu dou para que você dê”] e do axiomático da utilidade. O sujeito capitalista é em primeiro lugar o “eu abstrato” e formal (do cogito de Descartes ao Ich Denke de Kant, do homo lupus de Hobbes ao “eu dono” de Locke), depois o “eu desestruturado” ”, conjunto de percepções e desejos, impregnados do movimento instável do mercado (de Hume a Nietzsche, até Deleuze); até o “eu mínimo” (Lasch), formas redefinidas instáveis ​​e precárias pelo fluxo Heraclitiano da circulação de mercadorias. Reduzido ao átomo hedonista, o “eu” já se encontra com falta de espírito crítico e de personalidade, aliviado como está de cada ligamento simbólico que não é codificado na “forma mercantil”.

Entre os obstáculos que o capital pretende demolir está, acima de tudo, a comunidade de indivíduos solidários que se relacionavam segundo critérios eternos para dar lugar ao nexo e ao “eu Robinsoniano”, o qual entra em um relacionamento com o doloroso turno de sexta-feira com o único objetivo de maximizar seu próprio egoísmo sombrio e predatório. Hoje, o capital aspira, mais do que nunca, a neutralizar todas as comunidades ainda existentes, substituindo-as por átomos isolados, incapazes de falar ou entender qualquer outra língua que não seja a da língua anglofônica da economia de livre mercado.

De acordo com uma dinâmica iniciada em 1968, a pulverização individualista da sociedade transforma os cidadãos associados em consumidores individualizados e unidos apenas pelo credo consumista: a partir disso, se espalha a sociedade individualizada da qual todos somos habitantes, atomizada em pura serialização de máquinas de desejo diferenciadas apenas pelo poder aquisitivo confinado em seus bolsos.

A igualdade da aceitação forçada e a desigualdade causada pela mais comum distribuição iníqua de bens coexistem dialeticamente no cenário reestruturado da contemporaneidade. O atual “bloco histórico”, citando Gramsci, é aquele em que, por um lado, as desigualdades mais nefastas são legitimadas em nome da liberdade individual e, com elas, a restauração de antigas hierarquias classistas anteriormente atenuadas ou destruídas por velhas lutas; e, por outro lado, o êxodo de indivíduos desenraizados é promovido da comunidade para a massificação de corpos e consciência, por assim dizer, de maneiras cada vez mais vulgares de aceitação e conformismo.

É assim que poderia ser imposta soberanamente, sem os obstáculos que as comunidades tradicionais representavam, a dinâmica da universalização do indivíduo aquisitivo, que é insidiosamente chamada de “globalização”, hoje protegida pela neo-linguagem milimétrica. Dados da antropologia do mercado, a dinâmica de universalização do individualismo aquisitivo sustenta-se nas duas instâncias reciprocamente unidas e entrelaçadas da perda de trabalho (o homo precário, o precariado [4] é a coroação autêntica de todo individualismo) e da desintegração de comunidades étnicas, familiares, religiosas e estatais. Está explicada, a partir dessa visão, a função ultra-capitalista da difamação incessante à qual a família, a religião e o Estado são submetidos pela ação da manipulação organizada e do “preciso dizer” politicamente correto.

O individualismo desequilibrado e sua homologação sob o símbolo da mercadoria são revelados, mais uma vez, fenômenos supostamente antitéticos e, na realidade, secretamente complementares da primeira sociedade na história humana que, em nome da tutela das diferenças e do caráter irredutível do indivíduo, nivelou completamente a humanidade a uma argamassa amorfa de átomos seriados e reciprocamente intercambiáveis, no rebanho anônimo dos últimos homens satisfeitos e felizes com um mundo feito de vulgaridade.

A mesma destruição da família, hoje verificada com sempre mais intensidade, está inscrita nesse horizonte. Se a família implica, por sua natureza, estabilidade afetiva e sentimental, biológica e ocupacional, sua destruição resulta claramente coerente com o processo já em andamento de precariedade das existências.

Também nisso, aliás, o pensamento hegeliano se revela dissonante em relação ao presente. Como sabemos, de fato, Hegel teoriza a estabilidade ocupacional e a afetiva de tipo familiar como fundamento da ética. Ali, onde o capitalismo absoluto dissolve ambas, mais precisamente, removendo a estabilidade do trabalho através do precariado, torna impossível, de fato, a constituição do núcleo familiar. Nesse sentido, com suas batalhas contra a família tradicional, as chamadas forças progressistas não deixaram de trabalhar para o rei da Prússia, favorecendo a mesma dinâmica do mercado e sua lógica de desenvolvimento antiburguês. A família de hoje, se ela ainda existe, é desordenada e estratificada, sem núcleo e estruturada de acordo com as formas mais heteróclitas: da gravidez através de uma pessoa externa ao casal, até a adoção por casais homossexuais, das separações sempre crescentes até a inseminação artificial.

Seguindo o Rasgos fundamentales de la filosofía del derecho de Hegel [Princípios da Filosofia do Direito, 1821], a família é o primeiro momento do Sittlichkeit (N.T. moralidade), da “vida ética”: ética é a “ideia de liberdade, em nome do bem vivo” (§142), “conceito de liberdade que se transformou em um mundo existente e na natureza da autoconsciência” (§142). A ética, no léxico hegeliano, designa esse complexo de instituições (Família, sociedade, civilidade, Estado) em que a liberdade é realizada cultivando-a, por assim dizer, passa gradualmente de sua expressão individualista abstrata para a universalidade historicamente concreta. Hegel diz sobre a vida sittlich (N.T. moral): “os poderes éticos são os que regem a vida dos indivíduos e, nestes, em relação a todos os seus acidentes, têm sua representação, sua figura fenomenal e sua realidade” (§145). O individualismo abstrato Robinsoniano é invertido em uma ética concreta, comunitária e historicamente determinada: nessa ética, o indivíduo é projetado no concreto do nexo intersubjetivo e comunitário que faz dele um zoon politikon (N.T. animal político). Como foi observado pela Política de Aristóteles, a família é a primeira comunidade: é a prova – contra o Robinsonianismo moderno, de Hobbes a Margaret Thatcher – de que o homem é um animal comunitário, que somente na comunidade pode existir e que na comunidade vem para o mundo.

O fanatismo econômico aspira a destruir a família. O capital quer ver em toda parte átomos de consumo, anulando toda forma de comunidade solidária estranha ao nexo mercantil. Conforme dito em Princípios da Filosofia do Direito de Hegel, “casamento, e essencialmente monogamia, é um dos princípios absolutos nos quais a ética de uma comunidade repousa (die Sittlichkeit eines Germeinwesens – N.T. a moralidade da comunidade) e corresponde ao dom não-divisivo de tal personalidade. A instituição do casamento é apresentada, por esse motivo, como um dos momentos de fundação divina ou heróica dos Estados” (§167).

A ética da comunidade é exatamente aquela que o integrismo da economia e seus irresponsáveis ​​agentes neoliberais pretendem desconstruir. Desde 68, as chamadas forças progressistas mantêm a mesma lógica cultural anti-burguesa do capitalismo, sempre através de novas cruzadas contra a família, o Estado, a religião e a ética burguesa: o capitalismo deve destruir o mundo burguês, que o limita com seus valores; e as esquerdas, lutando contra o mundo burguês e não contra o capitalismo, favorecem a mesma lógica de desenvolvimento do capitalismo. Para dar um exemplo único, a defesa real de casais homossexuais em nome de forças progressistas não baseia seu centro de gravidade no reconhecimento justo e legítimo dos direitos civis dos indivíduos, mas na aversão patente – própria do capitalismo absoluto – à normalidade burguesa e todas as formas ainda incompatíveis com a extensão ilimitada da “forma mercantil” a cada área da existência e do pensamento.

Sabemos que o ultra-capitalismo precário e flexível é, por sua própria natureza, “juvenil”, dada a difícil compatibilidade dos moldes não jovens com a nova lógica flexível (ver The flexible man de Sennet). Esta última criou rapidamente um novo modelo humano, o homo precário, para que essa instabilidade, risco e incerteza fossem integrados à vida cotidiana; e isso de acordo com uma união, nunca experimentada antes, de desorganização anômica e controle capilar (N.T. capilaridade aqui entende-se como controle por cobertura de mercado) que coincide, de fato, com a meta daquilo que foi definido como “capitalismo organizado”.

As larvas tecnológicas da lógica da precariedade estão orientadas para a transformação – através da oculta “elaboração forçada de um novo tipo humano” (Gramsci) [5] e uma verdadeira “mutação antropológica” (Pasolini) [6] – da precariedade em uma dimensão natural: e isso de tal maneira que tudo (dos empregos à profissão, das relações sentimentais às existenciais) se transforma em um desvio flexível e precário.

A desarticulação das duas instituições burguesas da escola e da família – promovida pela estrutura capitalista e santificada pela superestrutura esquerdista e pós-moderna – está inscrita nessa lógica e, mais ainda, denota sua realização. A isso se acrescenta o paradoxo dos jovens que se manifestam na praça para protestar contra a família e, concretamente, são incapazes de construir uma a partir do caminho do precariado e do desemprego: o cortejo de todos aqueles que trabalham para o Rei da Prússia não tem fim. O capital os impede de estabilizar sua vida profissional e sentimental: eles não recebem emprego nem a estabilidade necessária para construir uma família. E então, acima do nível ideológico, as chamadas forças progressistas combatem contra empregos permanentes e contra a instituição da família: revelando-se como orgânicas para o capital e sua dinâmica, que desde 1968 até hoje é uma dinâmica anti-burguesa e, como tal, ultra-capitalista.

O neoliberalismo dominante hoje é uma águia com suas duas asas abertas: a “direita do dinheiro” que dita as leis estruturais, a “esquerda do costume” que fornece as superestruturas que as justificam acima do nível simbólico. Assim, a “direita do dinheiro” decide que é necessário abolir as fronteiras em nome do único mercado livre mundial, da deslocalização do trabalho e da volatilização dos capitais, a “esquerda do costume” prepara os louvores à globalização como o reinado de viagens de baixo custo, a desterritorialização, o nomadismo e a ausência de normas fixas; se a “direita do dinheiro” estabelecer que o trabalho deve ser precário, de tal forma que direitos e garantias sejam removidos, a “esquerda do costume” o justificará por meio da difamação da estabilidade burguesa e da monotonia do trabalho; mais ainda, se a “direita do dinheiro” decidir que a família deve ser removida em nome da criação da atomística das solidões do consumidor, a “esquerda do costume” o justificará pela deslegitimação da família como uma forma burguesa digna de ser abandonada.

Na família, exatamente como no amor estudado por Hegel em seus escritos juvenis chamados “teológicos”, e em particular em seu “fragmento de amor” [1717], a unidade individual deixa de ser, como tal, contra a lógica desintegradora da modernidade. Se esta última separa o indivíduo da comunidade, no amor e na vida familiar, uma dupla verdade é experimentada. E então, em uma dupla abertura verdadeira e adequada, ocorre um tipo de ruptura do eu porque o outro passa por ele. Daí brota uma vida vívida que não é mais do ponto de vista de apenas um, mas do ponto de vista de ambos, na forma de uma molécula da comunidade.O amor é o reconhecimento de que somente através do nexo com aquilo que na aparência se pode constituir outro de si e do eu.

O amor é, hegelianamente, a prova de que o indivíduo encontra sua verdade real no nexo intersubjetivo vivo e não em sua própria solidão abstraída. O amor, nos escritos da juventude, é a superação da laceração, a recondução da multiplicidade à unidade, a necessidade da unidade. O amor, diz Hegel, é “o sentimento de tudo”.

Em um relacionamento amoroso, a unidade e a dualidade se pertencem mutuamente e financiam um nexo no qual o indivíduo não desaparece, mas ele se realiza em um nexo plural, no qual há espaço para o outro: “no amor da vida a pessoa se vê novamente como uma duplicação e como uma unidade concordante de si mesmo ”. E ainda mais: “no amor, o que está separado ainda subsiste, mas ainda não está separado, mas unido; e os vivos sentem os vivos”.

A família, assumida nos Princípios como primeiro momento da vida ética é a realização concreta do amor, sua condensação no plano ético: “o ponto de partida objetivo é o livre consentimento das pessoas e precisamente para construir uma pessoa (Person auszumachen), a fim de renunciar à sua personalidade natural e singular, que, de acordo com essa consideração, é uma autolimitação, mas precisamente, porque eles obtêm nele uma substancial autoconsciência, ele próprio é sua libertação (Befreiung)”(§162). São liberados por se auto-limitarem, instituindo um ligamento que os leva a construir uma pessoa única: é a verdade dupla da qual falamos antes. E continua: “a disposição de ter a autoconsciência de sua individualidade nessa unidade de essencialidade que é ela mesma e para si mesma, por estar dentro, não como pessoa para si mesma, mas como membro” (§158). Está instalada, precisamente, uma microcomunidade na qual o indivíduo não desaparece, mas, em vez disso, ele se transforma em um membro de uma totalidade na qual ele pode se realizar claramente como indivíduo.

A família pode então se apresentar como o comunitarismo levado à sua célula mínima, por assim dizer, à dupla relação: por isso, assim como para o comunitarismo, também para o amor da família, o principal inimigo é o egoísmo irresponsável, que esquece todos os outros e o mundo em nome daquele indivíduo Robinsoniano “eu”, que quer impor sua identidade contra a diferença e seu mundo contra o mundo comum.

Em seu nome, o amor e a vida familiar são desinteressados ​​e altruístas. Com as palavras de Julieta [Giulietta] que tanto afetaram a Hegel: “quanto mais eu dou a você, mais tenho”. No nexo do amor, mas finalmente também no ligamento que une a mãe e o filho, não há espaço para a lógica do fanatismo da economia e para a do ut des: valioso é um nexo da pura solidariedade gratuita, a lógica doadora que já rejeita, por sua natureza, a economia de livre mercado e a mercantilização de todos os relacionamentos. Por isso, o capital odeia a família e o amor; a família é substituída por indivíduos atomizados unificados apenas pela liturgia da livre troca (o “sistema atomístico” denunciado por Hegel); o amor é substituído por aquela alienação substituta que é “o amor líquido” e intimamente autista, aquelas relações de puro gozo individual em que o outro sempre é retratado de maneira única como um pretexto para o prazer auto-referencial do “eu” esmagado.

O capitalismo paralisa hoje, portanto, a humanidade na face estética da tradição Kierkegaardiana: impede cada salto na estabilidade ética e na transcendência religiosa. Ele nos quer como Don Juan: na ausência de qualquer limite e autoridade, não há mais razão para se opor ao puro prazer como um objetivo em si e sem futuro, à satisfação vulgar, sem limitações ou atrasos, por assim dizer, com os números da mesquinha moral hiper-hedonista de um sistema que deve induzir ao consumismo tantálico [7] sem rupturas inibitórias, em busca de uma novidade que é sempre a mesma. Seguindo o mito da novidade, Don Juan, assim como seus sucessores pós-modernos contemporâneos, repete sempre e unicamente a mesma experiência de prazer sem cérebro e autista, que nunca se estabiliza de maneira ética.

O oposto acontece com a vida familiar ética: nela, a diferença natural dos sexos – que para Hegel são dois, pelo que não devemos nos surpreender se um dia ou outro o vermos difamado com o rótulo de “homofóbico” – um senso ético é desenvolvido, é estabelecido de uma forma que transcende o prazer simples e assume uma estrutura sittlich: a dualidade alcança uma síntese superior em uma nova unidade – a unidade da vida familiar -, que não neutraliza, mas sim, pelo contrário, valoriza o indivíduo que realiza seus potenciais comunitários. Hegel escreve: “A determinação natural de ambos os sexos recebe, por sua racionalidade, significação intelectual e ética. Essa significação é determinada pela diferença, na qual a substancialidade ética, como conceito, se estabelece por si mesma, a fim de adquirir dessa perspectiva sua vitalidade como unidade concreta” (§165).

A família estabiliza o sentimento dos parceiros no devido tempo, subtraindo-o da passagem do tempo. Assim como Bauman lembra em Amor Líquido, no tempo da transitoriedade universal não há ligamento que seja estável e sólido; e até a experiência amorosa se torna cada vez mais “a curto prazo”, estruturalmente precária e insatisfatória. A fórmula romântica de “até que a morte nos separe” é eclipsada. Em seu lugar, existe um adiamento desproporcional das fronteiras das chamadas experiências de amor; isso ocorre porque um relacionamento transitório de uma noite também é indevidamente marcado como “relacionamento amoroso”.

Em seu favor, o amor verdadeiro, institucionalizando-se na vida de casado, resiste ao tempo e, ao mesmo tempo, introduz nele a experiência única de possibilidade do absoluto e do eterno no plano da imanência, por assim dizer, aquele laço de amor com o outro é entendido como insubstituível, na forma de um relacionamento que aspira durar para sempre. Por essa razão, como Lacan sabia, a palavra mágica do amor é a repetição em que a fidelidade a ele é condensada. O verdadeiro amor cresce enquanto se consome: ele assume a forma de um indizível querer o mesmo sem nunca sentir que é o suficiente. A pessoa amada se torna insubstituível e, através do casamento, essa fidelidade se institucionaliza.

Assim como Massimo Recalcati se lembra em Non è più come prima [Não é mais como antes], o nosso é o momento da “ideologia do novo”, na qual nenhum sentimento ou qualquer ligamento pode ser estabilizado. São vividos, sob os critérios da circulação de moedas e mercadorias, como satisfações transitórias e nunca definidas. O amor, enquanto tal, referindo-se à fidelidade ao mesmo ideal, mas também como confirmação e duração, constitui uma maneira de resistir à lógica ilógica dos dias atuais, capaz de experimentar apenas o prazer insensato de tendências e excentricidades isoladas.

No amor, como Hegel lembrou, há unidade e dualidade. Hegel escreve: “A unidade do casamento, a qual, no que diz respeito à unidade substancial é apenas interioridade e disposição do humor, mas, em sua existência, em ambos está separada […]” (§173). Eles se sentem como uma só coisa e, juntos, permanecem sendo duas. A unidade, no entanto, é alcançada concretamente como síntese do amor no nascimento dos filhos, que são a unidade na qual os cônjuges transformam em realidade sua aspiração à união completa: “[…] isso ocorre nos filhos, como forma de unidade em si, uma existência que é para si mesma (‘eine für sich seiende Existenz’), e objeto, a quem eles amam e por quem são amados, como como sua existência substancial empírica” (§173).

Esse discurso, aqui escassamente referenciado e desenvolvido de maneira impressionista, permite concluir que na atual “noite do mundo”, do monoteísmo do livre mercado e do fanatismo da economia; a família, em qualquer lugar onde ainda exista, constitui uma forma heróica de resistência à dialética letal do desenvolvimento do capitalismo. Enquanto houver família, há comunidade; e enquanto houver comunidade, ainda há esperança.

Referências:

  1. A expressão de Marx é encontrada em seu IV caderno de anotações da seção “O capítulo sobre o Capital” do Grundrisse [1857-1858]. Este capítulo foi escrito entre meados de dezembro de 1857 e meados de fevereiro de 1858 (MEW 42, 337).
  2. A expressão de Hegel pertence ao capítulo VI. O Espírito (O Verdadeiro Espírito, A Etnia, O Estado Jurídico) da Fenomenologia do Espírito.
  3. O equivalente genérico do caso citado pelo autor pode ser mencionado como a noção proveniente do marketing, conhecida como “marca do país”.
  4. O conceito de “precariado”, originalmente cunhado por Guy Standing em The Precariate (2011), refere-se ao amplo setor social que surgiu como resultado dos processos de globalização em benefício do capital financeiro, e é caracterizado pela insegurança profissional, material, e insegurança identitária, existencial. O precariado seria composto, em primeiro lugar, pela antiga classe trabalhadora industrial, hoje pauperizada, mas, também pela classe trabalhadora que não pode ter acesso a um trabalho estável e pelo profissional pequeno-burguês que sofre com a flexibilização ocupacional. Na visão de Fusaro, o precariado é, portanto, composto pela antiga burguesia urbana nacional que não pode se opor aos processos de transnacionalização da economia.
  5. A citação foi selecionada pelo autor no primeiro dos Cadernos do        Cárcere.
  6. O sintagma Pasoliniano e seu sentido original aparece desde 1974 em várias notas publicadas em jornais e que, em parte, são recuperadas em seus Scritti corsair (1975).
  7. Tântalo é, na mitologia grega, uma figura representativa da vaidade humana e do desafio aos deuses. Rei de Sipylus, em Lídia, reconhecido pelos olímpicos por suas qualidades, é convidado a comer à mesa com Zeus. Ele insulta os imortais de várias maneiras, divulgando seus segredos, roubando néctar e ambrosia da mesa e distribuindo-o com seus companheiros terrenos, entre outras ofensas. Por fim, convidou os deuses para um banquete e, para testar sua onisciência, enviou seu filho Pélope para ser sacrificado, decorado e servido à mesa. Os deuses adivinharam o golpe e ele foi condenado a tormentos horríveis no Tártaro.

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