RAFAELLE SIMONE: “SOMOS TOTALITÁRIOS POR INSTINTO”

Fonte: https://elmanifiesto.com/entrevistas/5391/raffaele-simone-somos-totalitarios-por-instinto.html
Xosé Hermida

O pensador italiano afirma que a esquerda está em vias de extinção e que o sistema democrático foi destituído de sentido. Forjou seu prestígio como linguista, mas ultimamente, Raffaele Simone (Lecce, 1944) tem dado o que falar por seus controvertidos ensaios políticos. “Sigo uma tradição ilustre de linguistas dedicadas à política, de Humboldt a Chomsky”, explica. “Mas não sou politólogo, o que faço é análise da modernidade”, aborda o autor a partir de uma perspectiva inclassificável, que bebe tanto de Ortega – “uma de minhas principais paixões teoréticas” – como de Pasolini. “Ganhei reputação de pessimista, mas acredito que não a mereço”, brinca Simone em seu pequeno escritório da Universidade de Roma III. Essa fama tem aumentado com seus dois últimos livros, que emanam o frio metálico de uma autópsia: o primeiro, El monstruo amable (2008), opera sobre o cadáver da esquerda; o segundo, El hada democrática (ambos pela Taurus) sobre o cadáver da própria democracia. A fada é a ideia da democracia como um ente benéfico e cheio de princípios nobres que, segundo Simone, entrou em colapso.

Pergunta: A democracia sempre teve um elemento utópico?
Resposta: É evidente, suas origens são utópicas. O paradigma democrático tem duas fontes, a socialista e a liberal, mas a contribuição fundamental é a primeira. Todos acreditaram nesse elemento utópico, porém, com a virada do século, alguns mitos caíram. A democracia se sustenta em ficções, em ideias que não podem ser realizadas, mas que adotamos como certas e nas quais temos que acreditar. Agora compreendemos que algumas eram ficções, sobretudo a ideia de representação, que está completamente questionada.

P. A democracia entra em crise ao descobrir que o que havia prometido não era possível?
R. Há três motivos. Primeiro, o próprio paradigma democrático era frágil pelo que eu chamo de pensamento político natural, que instintivamente não é democrático, mas totalitário. Se percebe no comportamento primário das crianças, que criam entre eles chefes, seguidores, dinâmicas de poder… A democracia se baseia na negação desse elemento natural. Logo vem a construção histórica do paradigma. Por exemplo, a ideia de representação, que já Ortega definia como “acrobática” porque supõe que mil pessoas, não sendo capazes de exercer diretamente sua soberania, a transmitem a outras dez que se consideram idênticas àquelas mil. É um salto lógico muito audacioso, que poderia ter consequências muito nobres, mas que já está despojado de toda nobreza: pela corrupção, os privilégios dos políticos, o descuido frente às necessidades do povo… E o terceiro motivo: uma série de acontecimentos planetários que impactaram fortemente a democracia.

P. Concorda com a análise esquerdista de que o desenvolvimento do capitalismo sufocou a democracia?
R. Sim, claro, mas essa não é uma posição esquerdista, é uma posição óbvia. Que o controle do mundo está nas mãos do supercapital é evidente. Há fatos emblemáticos, como o conflito entre a Apple e o FBI: um poder político institucional não pode fazer nada contra uma corporação.

P. Devemos nos resignar ao que você chama uma “democracia de baixa intensidade”?
R. Aparentemente é o que nos espera. Precisaríamos de certas doses de imaginação institucional, inventar coisas novas. Por exemplo, a eleição de cargos por sorteio, inviável no âmbito nacional, poderia ocorrer em outros. Por que não recuperar uma tradição antiga para rechaçar a um representante que demonstra que não merece essa função? É uma medida muito pequena, mas de grande interesse, como também seria pedir a opinião dos cidadãos sobre assuntos de grande importância. Ainda que só por fragmentos, pode-se devolver aos cidadãos algo de sua soberania.

P. Parte de sua análise coincide com o que você chama de “movimentismo”, em referência ao Movimento 5 Estrelas e à Podemos, mas também é muito crítico em relação a eles.
R. Tenho mais simpatia pelo Podemos, porque teve a vontade de proclamar-se um partido. Cinco Estrelas não tem nem estatutos, vão fixando as regras arbitrariamente. Os movimentos cristalizam os desejos do povo de participar e nesse sentido são importantes. Mas seu ponto débil é que são genéricos: não tem programa nem reivindicações precisas. Não são mais que agregados de pessoas que protestam. Têm energia, mas não têm direção. Podemos escolheu ser um partido de esquerda, mas intransigente, não entra em acordo com ninguém. E a democracia exige o compromisso como elemento fundamental, que todos renunciem a algo pelo interesse geral. Mas é um fenômeno interessante. A política necessita de um reinício, tarefa para políticos com imaginação.

P. Essa resposta pode vir dos partidos tradicionais?
R. Não me parece possível. Nos acontecimentos humanos há momentos em que as coisas recomeçam desde as origens. Este é um deles. O que estamos vivendo já não é democracia. Os partidos tradicionais esgotaram seu papel histórico.

P. Uma de suas ideias mais controversas é que considera demasiado generosa a política de imigração.
R. A imigração pode dissolver a Europa. O paradigma democrático contém um princípio ficção fundamental, que eu chamo de inclusão ilimitada: qualquer um pode apresentar-se à minha porta, sobretudo se está escapando da repressão, e encontrará hospitalidade. É um princípio sacrossanto, mas só se aplica à indivíduos. Aqui temos o caso de subcontinentes inteiros que se transferem à Europa. Esse choque é fatal do ponto de vista econômico, porque vai taxar nossos pressupostos sociais, e cultural, por que a imensa maioria são islâmicos. E provém de países com uma cultura do trabalho débil ou inexistente; a maioria são homens que criarão problemas de acompanhamento sentimental, por assim dizer, e têm um ritmo de reprodução muito mais alto. Foram inventados mitos, como por exemplo, que ao sofrer uma crise demográfica, os recém-chegados iriam resolvê-la. Mas são islâmicos e essa é uma diferença radical. Diante disso, a esquerda adotou a filosofia “que venham todos”. Mas isso não é uma filosofia, é a renúncia a tomar uma decisão. E deu um presente monumental à direita. Daí que o futuro de países como França, Áustria ou os escandinavos esteja definido pela má gestão do tema da imigração. E a Europa irá para a direita.

P. Você também é muito crítico com a herança sociocultural do Maio de 68
R. Não sou crítico, sou descritivo. É necessário ter algum conceito de autoridade e já não temos nenhum. O Maio de 68 conectou morfologicamente autoridade com autoritarismo. E praticamente a única autoridade que se reconhece é a da polícia, e nem sequer ela. Na escola, a ideia que se difundiu de que a educação pode ser feita só pelos alunos é absolutamente maluca. As estruturas humanas necessitam de alguém que tenha uma responsabilidade de coordenação.

P. É a cultura de massas que mina os velhos conceitos de autoridade intelectual e moral?
R. Está acontecendo exatamente o que havia descrito Ortega nos anos vinte em “A Rebelião das Massas”. A massa não tem a aspiração de converter-se em classe cultivada; impõem sua incultura. O perturbador é que desaparece a aspiração a melhorar. E isso não é democrático, porque a democracia supõe elevação cultural de todos.

P. Seu livro tem um último capítulo aterrorizante sobre a Itália. Parece concluir que Berlusconi deixou o país moralmente devastado.
R. É isso mesmo. Conectando-se a um clima geral planetário de massificação, Berlusconi subverteu completamente a moral pública, a linguagem pública, as relações entre cidadãos e instituições, o conceito do público e do privado. É um fenômeno historicamente importantíssimo e do qual se derivam consequências sociais e políticas. O perfil de Matteo Renzi* é autoritário, berlusconiano. Até os analistas reconhecem que é um Berlusconi sem dinheiro próprio. Tem seu grupo de amigos, companheiros de colégio, que cresceram com ele e atuam politicamente com ele, para quem distribuiu os cargos. Nossa transformação foi radical.

* Político italiano, foi Primeiro-Ministro da Itália de 2014 a 2016 e secretário do Partido Democrático desde dezembro 2013. Também foi prefeito de Florença de 2009 a 2014.

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