Dugin — O Pacto Histórico com a Pátria

Nota do tradutor:

O artigo abaixo reflete a perspectiva do professor Dugin sobre a situação metafísico-político-espiritual de sua pátria, a Rússia e, em um sentido amplo, a Eurásia. Não obstante, as proposições elencadas por ele podem igualmente ser paradigmaticamente aplicadas por patriotas e nacional-revolucionários de qualquer país aos seus respectivos eixos civilizacionais.

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Ao analisar a relação existente entre a experiência da Rússia Soviética e a ortodoxia marxista, correlacionando-as, Gramsci chegou a uma conclusão deveras interessante: em determinados contextos históricos, é possível ignorar a ausência das condições revolucionárias infraestruturais. Em outras palavras, se houver uma Vanguarda Política composta por militantes altivos, corajosos, fortes, inseridos dentro de uma força política (Partido), e se a mesma for suficientemente consistente, é possível agir de modo alheio às condições infraestruturais: uma vez que se tome o poder, essas condições poderão ser estabelecidas.

Em certo sentido, tal ideia foi antecipada por Lênin em seu O Estado e a Revolução (como assinalaria Trótski), isto é, a perspectiva da tomada do poder em um país agrário para nele efetivar reformas, levando-o a um padrão industrial e, simultaneamente, estimulando revoluções socialistas de pleno direito em países da Europa Ocidental. Gramsci foi capaz de traduzir essa realidade paradigmaticamente.

Para Gramsci, o leninismo é algo diferente do marxismo, uma vez que se funda na tese (não)marxista de que o eixo da Vanguarda Política pode agir antes de estabelecidas as condições de possibilidade concretas: noção que é confirmada pela experiência russa e chinesa.

Gramsci prossegue em sua tese: no íntimo da superestrutura existe uma outra dimensão: não-política, cultural – uma intelligentsia. E assim como o Político, em alguns casos, pode ser abstraído do Econômico, tal intelligentsia (esfera cultural) igualmente pode ser suturada da Economia e da Política em determinadas circunstâncias. E uma vez que haja uma intelligentsia que assuma o lado do Trabalho, ela poderá agir mesmo ausentes determinadas condições econômicas, e mesmo não possuindo qualquer representação política em termos governamentais.

Do ponto de vista de Gramsci, portanto, o intelectual não depende da Política ou da Economia, mas do Pacto Histórico. Em outras palavras, o intelectual fatalmente fará um pacto histórico com o Capital (colhendo seus frutos, por conseguinte) ou, seguindo a via mais árdua, com o Proletariado – com todo ele, independentemente de origens ou filiações partidárias (essa escolha poderá ser feita pelo intelectual, mesmo que sua origem esteja na mais alta burguesia ou mesmo que ele integre um partido burguês). O intelectual, nesse sentido, pode passar a frente de certos processos políticos e econômicos.

Sobre esse tema, Gramsci levantou a questão da responsabilidade do intelectual. Todos, segundo Gramsci, possuem algo de intelectual em si, e o grau de humanidade de um ser é proporcional ao seu intelecto: havendo muito intelectualismo numa pessoa, ela será uma intelectual de pleno direito. Gramsci, deste modo, acreditava que o intelecto tem sua justificação dada num âmbito completamente distinto do da política ou da economia: a consciência humana faz sua escolha e, então, o intelectual envereda por um pacto que independe do Partido e das bases econômicas, e que quase se identifica com uma escolha religiosa: ao escolher o Capital, ele o servirá de corpo e alma (independentemente do local ou de quem o patrocine) – ao escolher o Trabalho, situa-se do lado da classe trabalhadora e, onde quer que ele esteja, operará contra o sistema capitalista.

Isso funcionou bem no Ocidente, especialmente na década de 1960. Por exemplo, muitos funcionários de jornais burgueses, que recebiam dinheiro de magnatas capitalistas, consideravam o ódio ao capitalismo um dever (particularmente, isso levou ao Maio de 68).

Alain De Benoist concedeu bastante relevo a essas ideias na década de 1970 e propôs o modelo para um “gramscismo de direita”. Ele convidou os intelectuais europeus a realizarem um pacto histórico com suas identidades (com a França, com a Alemanha, etc.), tomando-o nos termos de um sistema de valores de oposição ao moderno e ao pós-moderno. De Benoist afirmou que não importava se havia apoio, representação partidária ou recursos, em qualquer país, um pacto histórico com a Tradição deveria ser firmado pelos intelectuais que, em seguida, deveriam trabalhar nos jornais, realizar filmes, criar poesias, até que o pacto histórico reverberasse e, por fim, algum êxito fosse conquistado.

Isso está acontecendo agora na Europa, em grande parte devido à eleição de Trump. Parte da elite intelectual europeia e americana encontrou a força necessária para ir além da hipnose. Eles fizeram uma escolha em favor da Tradição e da identidade. E o que os russos podem concluir disso? Os pensadores russos devem estabelecer um pacto histórico com a Rússia e com o Povo, com nossa identidade. Não importa em que estágio estamos ou de quem a mídia toma partido. O pacto histórico com a identidade russa, a transição para o lado russo deve ser realizado: isso é o salutar. A maneira como vamos formalizar esse pacto não é relevante: um jornalista escreverá um artigo. Um funcionário público levá-lo-á em consideração em sua tomada de decisão. Um diretor realizará um filme. E no seio do Pacto, nossa dignidade intelectual e espiritual.

Aleksandr Dugin

Filósofo e cientista político, ex-docente da Universidade Estatal de Moscou, formulador das chamadas Quarta Teoria Política e Teoria do Mundo Multipolar, é um dos principais nomes da escola moderna de geopolítica russa e um dos mais importantes pensadores de nosso tempo.

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