The Discovery (2017): o morrer é o medo de viver

Dentre todos os elementos que constituem a anatomia de uma obra cinematográfica, a premissa narrativa que a fundamenta é um dos mais relevantes. Em verdade, há filmes que se apoiam quase que integralmente em sua premissa – ou que fundamentalmente dependem dela para justificar seu valor e originalidade num determinado campo estético: The Discovery (2017) certamente representa isso.

O filme é linear e simples em sua execução. Não possui grandes reviravoltas, diálogos memoráveis, personagens complexos ou atuações marcantes. Mas seu pressuposto norteador nos faz desculpar tudo isso: em um futuro de curto prazo, um renomado neurocientista chega à prova cabal de que mesmo após o falecimento orgânico-corporal de um ser humano, sua consciência continua a eliciar atividade neural em determinados níveis, graus e dimensões. Dizendo de outro modo: a vida após a morte é um fato cientificamente estabelecido, insofismável. E mais: potencialmente mensurável pelos métodos da ciência moderna. Morte e o post mortem, neste caso, não passariam de metáforas para as múltiplas manifestações e transmutações fenomênicas da Matéria, novamente, em seus diversos níveis, graus e dimensões. 

As repercussões sociológicas de tal Descoberta (daí o nome da película) são drásticas e já são retratadas aos pés na porta logo na primeira cena do longa: disparam os índices de suicídio – centenas e mais centenas de pessoas, semanalmente, passam a se matar para acessar “o que há do outro lado”. Campanhas governamentais (que o expectador mais atento verá nos fundos de cenário, esporadicamente, quase que como easter eggs) passam a ser produzidas para incentivar os cidadãos a valorizarem o aqui-e-agora. Uma dualidade de perspectivas – éticas, psicológicas, existenciais. Porque, como diz o Dr. Thomas Harbour na cena da entrevista que abre o filme, quando um trem parte, sabemos que ele vai para algum lugar – só não sabemos para onde.

Dentro desse arco temático, o filme abordará os dramas envolvendo o próprio Dr. Harbour (que, em sua reclusão, cria uma espécie de seita à la Jim Jones em torno de si), seu filho, o também cientista Will (protagonista da trama, interpretado por Jason Segel, o eterno Marshall de HIMYM), e a marcha por remover definitivamente o véu que separa a vida-daqui da vida-de-lá, em um doloroso emaranhado de rancores, mágoas, arrependimentos e situações-limite. E já podemos adiantar: embora a conclusão do enredo aponte para um tipo de solipsismo radical, que situa o viver, metafisicamente, dentro de um ciclo potencialmente infinito de mortes e renascimentos, alguns elementos simbólicos ficam bastante patentes no decorrer da história: a constante ambientação de cenas e de enquadramentos à beira do mar, por exemplo, salta aos olhos como um evidente simbolismo do Mar como o elemento vital, originário, representando o caos que precede o ordenamento e a estruturação do cosmo, de onde tudo deriva. É significativo que Will “acorde” numa praia, beirando o mar, após seu destino final, e que a melancólica Isla tente tirar a própria vida caminhando indefinidamente em direção ao mar: ambos, a partir de suas próprias cicatrizes, sentem um impulso ás águas, vetor da ascendente paixão que se estabelece entre os dois, que nada mais é que uma inclinação humana à substância ontologicamente originária de tudo – ao aspecto maternal das águas, conforme nos ensina Jung.

Com uma direção de arte muito bem-sucedida em sua aposta por uma estética cinzenta, acompanhada de uma trilha sonora à base de curtas frases de teclado, a atmosfera de The Discovery emana melancolia e transpira as dores e os lutos de seus personagens, profundamente marcados pelo evanescimento brusco de seus entes queridos, em um mundo onde as pessoas, niilisticamente, querem morrer por temerem a própria vida.     

Isaque Santos

Psicólogo, ativista político e membro da NR-RJ.

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