No capitalismo, a arte não passa de uma mercadoria

Há uma contradição fundamental nas críticas culturais de teor supostamente “tradicionalista” que criticam a decadência do mundo das artes no Ocidente. Essas críticas não raro possuem um teor conspiracionista, tratando do assunto a partir da mitologia do “marxismo cultural”.

Mas essas críticas ignoram, por ignorância ou malícia, que não foi necessária qualquer conspiração para a decadência do mundo das artes. Bastou que o capitalismo fosse se consolidando e avançasse em ritmo cada vez mais acelerado, e que a superestrutura político-filosófica liberal fosse se enraizando e se normalizando, para garantir de forma quase natural e automática essa decadência.

Indo das produções supostamente populares às supostamente eruditas, a decadência é geral. E apesar das multiplicidades de manifestações e da diversidade de complexidade das obras (afinal, entre as músicas da Anitta e os quadros de Barnett Newman há grandes diferenças) as raízes do problema são a mesma: a comodificação da obra-de-arte, ou seja, a transformação da obra-de-arte em mera mercadoria.

Por mais que se possa e se deva criticar o engessamento artístico derivado da perspectiva da “arte como propaganda”, comum nos países antiliberais ou iliberais do passado, a comodificação da arte representa um mal maior que leva a arte a abismos ainda mais fundos.

Se a visão da arte como mera propaganda política é capaz de impôr graves limites à criatividade, a arte como mercadoria leva a criatividade a um círculo vicioso, no qual a criação significativa (que é como parir um bebê) é substituída pelo “criar por criar”, já que é necessário atender a uma quantidade x de demanda para alimentar tal ou qual exposição e poder pagar empresários, marchands, etc.

Ou seja, tomando a via oposta, a arte é levada a uma ausência de criatividade ainda maior. Estilos são criados apenas para causar “impacto” e elevar preços. Tabus são rompidos apenas para chocar e atrair audiência e compradores. O artista é reduzido a um adolescente mimado e a obra-de-arte se torna ou ininteligível ou irrelevante.

Nesse sentido, não há qualquer erudição real nessas obras-de-arte que demandam textões imensos para se tornarem inteligíveis. A arte erudita por excelência possui camadas de significação, sendo simultaneamente acessíveis ao mais comum dos mortais, mas portando segredos e mistérios para cujo acesso é necessário ter um espírito apurado e certa dose de conhecimento.

A experiência estética, dessa forma, passa a funcionar quase como uma iniciação mística.

A obra-de-arte popular, por sua vez, guarda funções coletivas fundamentais, ligadas à preservação de um senso de identidade, ao reforço de padrões comportamentais ou crenças tidas como positivas, à educação moral, cultural e espiritual, etc. Mas sob o capitalismo, arte popular é tão somente uma questão de produzir arte para ser consumida pelo maior número de pessoas.

Para isso, se apelam aos mais baixos instintos humanos, confiando no que há de pior, atiçando os piores demônios, tentando libertar e desencadear as piores forças da alma e da mente humanas, confiantes na mediocridade geral e reforçando essa mediocridade para manter um público cativo.

Não é à toa que se fala hoje na “morte da arte”. Tendo morrido Deus, a política, a moral, a história, a filosofia e agora estando a ciência sob ataque fanático, não havia como a arte permanecer incólume contra o cerco da intelectualidade liberal.

Pois então, agora ao se questionar sobre a decadência da arte já conhecemos mais das raízes do problema. Nenhuma arte autenticamente criativa é possível sob a hegemonia liberal.

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