O problema não são os impostos, mas a ganância corporativa e a burrice consumista:

Virou um lugar-comum, na mídia brasileira, descrever o fato de que bens de consumo são comparativamente mais caros aqui do que em outros países sob o conceito de “Custo Brasil”. “Custo Brasil” é o bode expiatório da classe capitalista e de seus idiotas úteis direitistas. Seria a soma dos custos de produção, envolvendo impostos, encargos trabalhistas, salários, etc.

O “Custo Brasil” é o fetiche utilizado pela direita para defender reduções irrestritas e universais de impostos, além da Reforma Trabalhista e várias outras medidas antinacionais e antipopulares.

Esse bode expiatório não se sustenta. Primeiramente, a Reforma Trabalhista está levando a uma precarização do mercado de trabalho, que implicará na redução média da renda, tal como ocorreu em todos os outros países em que reformas semelhantes foram aprovadas. A consequência será a redução de vendas e, portanto, de lucro. Estagnação econômica.

Quanto aos impostos, de fato, deve-se defender a redução de TODOS os impostos indiretos (como IPI e ICMS), como medida de justiça social e razoabilidade econômica, porque estes impostos, que são altíssimos no Brasil, contribuem para a manutenção da desigualdade econômica. Esses, de fato, têm impacto negativo sobre os preços finais e, em média, no Brasil, eles são duas vezes maiores que em países desenvolvidos.

Ocorre, porém, que redução de impostos não implica redução de preços. Isso só acontece nas teorias liberais. Nada impede, por exemplo, que a diferença gerada na redução de impostos seja embolsada e a margem de lucro seja ampliada. E, empiricamente, é isso que se verifica na maioria das reduções de impostos que ocorrem no Brasil. Tome-se como exemplo as desonerações tributárias multimilionárias do governo Dilma, uma das maiores idiotices de seu governo (e não foram poucas).

A realidade é que uma das causas fundamentais dos preços altos dos bens de consumo no Brasil são as comparativamente enormes margens de lucro que as empresas extraem no Brasil em comparação com os mercados de outros países. As margens de lucro, por exemplo, das montadoras estrangeiras que operam no Brasil costumam ser, em média, 3 vezes maiores que na maioria dos outros países, estando em 12%. E isso segundo números apresentados pelas próprias montadoras. Ou seja, as margens de lucro podem ser bem maiores, já que, se for pra lucrar apenas 10%, a maioria dos empresários preferiria viver do sistema financeiro.

Como se não bastasse o fato de que essas corporações remetem boa parte de seus lucros para o exterior (anualmente, escapam aproximadamente 70 bilhões de dólares do Brasil), as corporações estrangeiras que atuam no Brasil, de montadoras a bancos, sabem que podem confiar no consumismo da massa brasileira e, por isso, jogam os preços lá no alto, sem medo de qualquer queda nos lucros por redução no consumo. Apenas as crises econômicas mais graves podem representar algum entrave para o espírito consumista do brasileiro.

Isso ocorre porque, em um país intensamente desigual, o consumo é uma marca de distinção, uma maneira de provar superioridade perante o vizinho através de um padrão de consumo diferenciado. Naturalmente, a propaganda consumista, apelando até mesmo ao uso de programação neurolinguística e outras técnicas subliminares, imposta através da grande mídia, possui grande responsabilidade nessa educação do povo brasileiro para o consumo.

É todo um modelo estruturado para garantir subdesenvolvimento e desigualdade. Por exemplo, parte dos custos de produção elevados derivam do fato de sermos um país desindustrializado. Isso poderia ser solucionado com uma política nacional de industrialização dirigida pelo Estado, mas as próprias grandes corporações têm feito de tudo, há décadas, para evitar isso, temendo o surgimento de alternativas nacionais para bens industriais de consumo.

Somente uma revolução pode modificar esse quadro. O Lucro-Brasil precisa ser combatido, bem como os REAIS entraves do Custo-Brasil, todos eles ligados ao modo capitalista de produção. 

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