Solaris (1972) – Ficção científica como alegoria platônica do drama humano:

Apesar de ter sido divulgado como um filme de ficção científica, Solaris é um enigma metafísico sobre o drama humano.

Solaris é o terceiro filme profissional realizado pelo cineasta soviético Andrei Arsenyevich Tarkovski, considerado por muitos o maior realizador da história do cinema, com uma obra que ressoa uma visão naturalista e uma sempre presente crítica à tecnologia e ao materialismo.

Solaris, longa-metragem de 1972, é inspirado no romance homônimo de 1961, do escritor polaco Stanislaw Lem.

Considerado por muitos uma resposta soviética a 2001 – Uma Odisseia No Espaço, o filme conta a história de Kris Kelvin, um psicólogo que, após perder a esposa, decide embarcar numa jornada interestelar até uma antiga estação espacial que paira sobre o misterioso planeta oceânico Solaris. Sua missão é analisar, tanto a situação material da sucateada estação, quanto a situação psicológica de seus três tripulantes, que vivem no isolamento. Ao chegar à estação, Kelvin descobre que os testemunhos e rumores sobre Solaris não só são reais, como piores do que ele poderia imaginar: o planeta possui formas de consciência e inteligência, além do perturbador poder de sondar nossos mais profundos pensamentos e os materializar. Solaris, então, cria uma cópia da falecida esposa de Kelvin (revelando que ela havia se matado). A partir daí, assistimos o psicólogo e a cópia de Hari, sua companheira morta, num processo de dúvidas e de questionamentos acerca de suas próprias naturezas e sobre o drama de suas existências.

Entretanto, apesar de ter sido divulgado como um filme de ficção científica, Solaris é muito mais do que isso: ou algo totalmente diferente disso. A ficção científica, como um palco inexistente, serve apenas de justificativa para a reflexão filosófica. Temos inúmeras referências ao pensamento platônico e neoplatônico, como também a outros variados nomes, como Miguel de Cervantes, Rembrandt, Bach e Pieter Bruegel.  Tarkovski utiliza seu característico estilo de fazer cinema, com longuíssimos e morosos takes e planos-sequência – técnica que ele chamava de “esculpir o tempo” – para apresentar uma alegoria platônica do drama humano. O planeta Solaris simboliza uma espécie de mediador entre o mundo das ideias e a matéria – ou mesmo um Demiurgo ordenador da matéria. Inclusive, o busto de Platão está presente em dois momentos do filme, sendo que, no segundo momento, nos surge a curiosidade de saber se ele já estava anteriormente na estação espacial ou se foi materializado por Solaris: seria esse um planeta que se comunica criando?

Dentro dessa interpretação platônica (ou neoplatônica), emerge um diálogo simbólico entre criador e criatura. Numa intensa cena, a esposa recriada de Kelvin experimenta uma excruciante agonia física quando o psicólogo se afasta dela: uma clara metáfora do sofrimento da criatura distante de seu criador. Vale notar, entretanto, que a esposa recriada não apresenta lembranças de sua antecessora ou sequer resquícios de empatia com as recordações de um passado que lhe é apresentado. Há apenas o amor e o apego a Kelvin. As criações de Solaris não são seres reais, apesar da matéria. São representações idealizadas de nossa memória. São nossas ideias romantizadas, que não se reconhecem enquanto um ente em si mesmo. Nos resta a questão de saber se o que nós amamos é apenas uma imagem representada.

Kelvin precisa entender a si mesmo e libertar-se das ilusões interiores, apenas exteriorizadas pelo planeta, para seguir em frente. Libertar-se de Solaris é libertar-se do passado. Kelvin precisa, como em um recomeço, aprender a aceitar a fatalidade em sua vida. A falsa-esposa também percebe isso, num processo de auto-entendimento de sua falsa natureza, desistindo de viver para que não seja Kelvin quem tenha de fazê-lo. A esposa original se matou por ter sido abandonada – a nova Hari, para libertar seu amado.

Talvez o próprio planeta, em si, esteja aprendendo sobre a natureza humana, se interpretarmos suas criações como espécies de sondas enviadas até a estação espacial: estação que é apresentada de maneira completamente sucateada, sangrando por dentro, assim como seus habitantes.

Filme desafiador, com uma mensagem transmitida de maneira extremamente não-didática e profunda, Solaris deixa muitos espaços para a participação e para a interpretação do espectador. Também somos personagens nessa história. Também temos nosso interior sondado pelo planeta durante a transcurso do filme. Também vemos, diante de nós, as alegrias, os medos, os pesadelos e os ódios que habitam em nosso interior – e nos perguntamos qual é a nossa relação com eles: nós moldamos as imagens em nosso interior ou elas moldam quem somos? O que dentro de nós precisa ser superado para que possamos nos tornar melhores? Solaris torna-se uma experiência cinematográfica extremamente íntima ao permitir que dialoguemos com nosso drama enquanto humanos. O drama de ser.

Solaris é um enigma metafísico.

Luiz Campos

Estudiosos das tradições céltico-galaicas, leciona História e é membro da NR-MG.

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