Sobre o sentido de Outubro:

100 anos de história russa – que se foram pelo ralo (ao menos em termos de significado). 

Grandes sofrimentos, grandes conquistas, grandes sucessos e, como resultado, uma espécie de vazio semântico. Hoje é muito difícil, considerando o estado quase psiquiátrico da sociedade, falar a respeito de temas dolorosos – e a Revolução de Outubro é, definitivamente, um núcleo patogênico. O país está em coma mental após estes cem anos: algo que não pode ser justificado e acerca do qual nós não podemos idiotamente praguejar – porque isso representaria um mero distanciamento.

Um evento se torna um evento histórico quando é submetido à interpretação. Quando não há interpretação, não há nenhum fato. Para o homem, trata-se de um evento se, e somente se, houver um significado. E a perda gradual do sentido do golpe de Outubro está gradualmente obscurecendo o próprio fato. Portanto, se continuarmos na via da incompreensão, após algum tempo, esqueceremos de tudo o que aconteceu. A História é um agregado de fatos e de sentidos, e é importante não apenas entender o significado de um evento, como também preparar o solo para sua ocorrência (sem o qual é impossível avançar).

Para lançar as bases para uma atitude significante em relação à Revolução de Outubro, é necessário realizar uma série de negações preliminares. Há três interpretações do evento, que correspondem às três principais ideologias políticas (liberal, marxista e nacionalista). Todas as três explicações estão absolutamente incorretas.

Eis a explicação liberal: a Rússia se desenvolveu tarde, atrasada em relação ao Ocidente, até que finalmente conseguiu se livrar de uma autocracia maldita, construir uma sociedade civil e começar as reformas burguesas. Mas o insano povo russo não estava pronto para a democracia: totalitário, extremista e misantropo, derrubou a tentativa nascente, e inocente, de iniciar reformas democráticas. Assim, mais uma vez, estávamos diante de uma sociedade totalitária – saímos de um problema e entramos noutro.

Tal abordagem ignora os detalhes de nossa história nacional. Como uma visão liberal, deve ser simplesmente rejeitada.

O segundo ponto de vista – não menos estúpido – é o marxista, que foi dominante durante 70 anos.

Há uma mudança nas modalidades econômicas, do feudalismo ao capitalismo – do socialismo ao comunismo. Tal ponto de vista vergonhosamente desmoronou, porque estava errado desde o início. Mesmo em seu sentido amplo, o marxismo não considerou qual era a situação da Rússia no início do século XX. Semanticamente, esta teoria não explica nada.

A terceira versão, minoritária em nossa sociedade, é a conservadora (ou nacionalista): estrangeiros chegaram num plombierten Wagen e, apoiados nos bastidores pelo Estado-Maior alemão, tomaram ilegalmente o poder através de um genocídio organizado – eles governariam o país até hoje, se o camarada Stalin não lhes tivesse dado um fim em 1937. A partir daí, durante a Grande Guerra Patriótica, ocorreu o renascimento, quando foi possível, com a ajuda de Deus, até mesmo chegar ao espaço. 

Em verdade, alguns teóricos da conspiração acreditam que aqueles que assumiram o poder no ano de 1917 estão no poder até hoje. 

Tal teoria retira a nossa responsabilidade pelo ocorrido.

As duas primeiras são dominantes, e a terceira, ao contrário, marginal (ela também é falsa, mas até tenho um pouco de piedade dela). 

Todas elas devem ser descartadas: a Revolução de Outubro deve ser entendida a partir da nossa própria história russa. Foi um evento pelo qual somos responsáveis. Em minha opinião, é irresponsável afirmar coisas como: “Eles mataram Deus”, “Eles forjaram a modernidade”, “Eles fizeram a revolução”. Nós fizemos isso, na medida em que somos russos. Devemos ter isso em mente. Talvez não possamos aceitá-la ou condená-la – podemos optar por nos orgulhar ou não. Mas ela deve ser situada fora destes três paradigmas.

Precisamos encontrar forças para trazer a Revolução de Outubro para uma Quarta Posição: a partir da perspectiva da história russa, da dialética russa, de nosso sujeito histórico. Não somos um joguete de certas forças, nem uma equação de mudanças históricas sequenciais ou de progresso tecnológico (liberalismo, evolução, etc.) e tampouco um objeto de conspiração.

Por que o povo russo fez o que fez em 1917? Afinal, todos esses eventos tiveram enormes consequências, em uma escala gigantesca, tanto do ponto de vista da nossa própria autodestruição como da perspectiva da degradação mental. Todo esse estágio – de cem anos de nossa história russa – deve ser entendido e compreendido no sentido de assumirmos a responsabilidade por ele.

Admitamos honestamente: não compreendemos os eventos de Outubro. Para nós, este é um problema em aberto – uma ferida aberta. Devemos deixar de lado as interpretações falsas: aqui reside o segredo da nossa existência nacional (que talvez esteja até muito terrivelmente atada aos últimos tempos e ao mistério do Anticristo). No entanto, o que aconteceu integra o nosso ser histórico e, se aderimos às três ideologias clássicas, nunca entenderemos o que aconteceu (e uma vez que não entendamos, tudo vai se repetir).

Para compreender o mês de Outubro, é preciso partir da lógica histórica russa, da identidade do povo russo, e, assim, construir uma modelo de mundo consistente e que decorra de nossa cosmovisão profunda: o que não está sendo feito atualmente.

Convido todos a acordarem. Nossa sociedade está adormecida e nada pode ser discernido através deste sonho – inclusive o sentido da Revolução de Outubro e, portanto, do último século da história russa.

Aleksandr Dugin

Filósofo e cientista político, ex-docente da Universidade Estatal de Moscou, formulador das chamadas Quarta Teoria Política e Teoria do Mundo Multipolar, é um dos principais nomes da escola moderna de geopolítica russa e um dos mais importantes pensadores de nosso tempo.

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